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Por fim, nesse contexto em que analisa os “dilemas de gestão”, busca-se avaliar, no presente subitem, os problemas relativos à atividade de inteligência, considerando-se a necessidade de um órgão integrado de informações capaz de analisar e elaborar diagnósticos voltados para o combate à macrocriminalidade.

Compreender as noções de Inteligência é essencial para aumentar a capacidade de propor mudanças, tendo por base um modelo de coleta, processamento e disseminação de informações.

A atividade de Inteligência é elemento indispensável ao Estado, ela geralmente atua no universo antagônico e seu segmento é voltado para a produção de conhecimentos, utilizando-se de todas as fontes disponíveis24.

Os Serviços de Inteligência são Organizações Governamentais especializadas na coleta, análise e disseminação de informações sobre problemas e alvos relevantes para a política externa, para a política de defesa nacional e para a Segurança Pública de um país, formando, juntamente com as Forças Armadas e as Polícias, o núcleo coercitivo do Estado contemporâneo (CEPIK, 2003).

A contra-inteligência é o segmento da atividade de Inteligência que engloba um conjunto de medidas destinadas a coibir a atuação das organizações de inteligência adversas, inclusive as agressões de caráter psicológico à população, bem como as medidas para salvaguardar os segredos de interesse nacional. Ela é

redução do número de homicídios, dos atuais 29 por 100 mil habitantes para 12 homicídios por 100 mil habitantes, nos próximos quatro anos. Disponível em: <http://www.mj.gov.br/pronasci>.

24 Fonte de dados: Fontes humanas (oficiais de inteligência, informantes, delatores, etc.), de sinais (interceptação e monitoração das emissões do espectro eletromagnético) e de imagens (obtidas a partir de imagens de equipamentos fotográficos, radares, sensores montados em plataformas aéreas, espaciais ou terrestres).

implementada pela adoção de medidas voltadas para a prevenção, obstrução, identificação e neutralização de ações adversas de qualquer natureza.

No ramo policial, a atividade de Inteligência da Segurança Pública se apresenta como instrumento de resposta e combate à violência em geral e, principalmente, aos crimes de alta complexidade, procurando identificar, entender e revelar os aspectos ocultos da atuação criminosa que seriam de difícil detecção pelos meios tradicionais de investigação policial (MIRANDA, 2007).

Conforme ensina Woloszyn (2004) a metodologia para a produção do conhecimento de inteligência é considerada universal, tendo como premissas básicas: a) Definir o assunto, respondendo aos quesitos: o quê, quem, como, quando, onde, por quê, para que e para quem; b) Estudar o histórico e a estratégia dos atores envolvidos, avaliar e identificar o comportamento dos atores e das forças políticas e sociais envolvidas; c) Identificar os principais elementos: econômicos, políticos, sociais, culturais, bem como do contexto (locais, regionais, nacional ou internacional); d) Caracterizar o fenômeno, o ponto central da questão, o que se fala a respeito, causas e motivações, localização e origem do fenômeno; e) Caracterizar os atores (quem são, quais suas representatividades, o que os distinguem em função de seus objetivos, vulnerabilidade e possibilidades); f) Analisar a correlação de forças que deverá ser realizada a partir da avaliação dos recursos políticos, financeiros, humanos e tecnológicos e, por fim, g) Interpretar o quadro ou cenário, buscando a ótica em que se deve abordar o estudo e os fatores de influência ligados aos fenômenos do objeto da análise.

No Brasil, de modo geral, as informações coletadas pelas diversas instâncias do Sistema de Segurança Pública e Justiça Criminal não são computadorizadas, padronizadas e organizadas em programas compatíveis que permitam o cruzamento das mesmas entre as várias agências.

Mingardi (2007), ao tratar sobre o trabalho de inteligência no controle do crime organizado, ressalta a importância de desconfiar das certezas; de esquecer a ideologia e o discurso; de identificar o alvo; de obter informações em tempo real e de construir conhecimento e agir baseado nesse conhecimento. Porém, o grau de informação sobre o sistema geralmente é falho e insuficiente para produzir conhecimento utilizável. Ressalta, ainda, que somente por volta de 2006, os órgãos de inteligência deram resposta mais efetiva, com trabalho conjunto, identificando

redes, rastreando o dinheiro das organizações, enfim, juntando esforços entre Polícia, Ministério Público Estadual e Federal.

Woloszyn (2004) observa que a eficácia da atividade de inteligência permite, tratando-se especificadamente da área da Segurança Pública, a compreensão exata dos fenômenos da violência e da criminalidade, dentre outros, em caráter científico, instrumentalizando com eficiência o planejamento dos órgãos que integram a segurança pública, subsidiando gestores públicos na tomada de decisões nos mais diversos campos, quer estratégicos, setoriais ou operacionais.

Feitas essas observações acerca dos fenômenos da criminalidade e da violência no contexto do Sistema de Segurança Pública e Justiça Criminal, passa-se agora a tratar de um dos pontos centrais da presente dissertação, qual seja, o estudo da Sociologia das Organizações objetivando uma melhor compreensão desses acontecimentos sob a ótica das Ciências Sociais.

3 SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES

A nossa sociedade é uma sociedade de organizações. Nascemos em organizações, somos educados por organizações, e quase todos nós passamos a vida a trabalhar para organizações. Passamos muitas de nossas horas de lazer a pagar, a jogar e a rezar em organizações. Quase todos nós morremos numa organização, e quando chega o momento do funeral, a maior de todas as organizações – o Estado – precisa dar um licença especial”.

Amitai Etzioni

O presente capítulo pretende abordar algumas correntes teóricas, acerca da Sociologia das Organizações25, que melhor se conectam ao tema proposto neste

trabalho. A Sociologia das Organizações busca compreender as estratégias dos atores, isto é, é o estudo das organizações como jogos de poder, onde os comportamentos sociais são um fenômeno de atores que agem intencionalmente tendo em vista fins escolhidos por eles, conforme Bernoux (s/d).

Foi preciso fazer escolhas porque todas, de alguma forma, são importantes para o estudo da Força-Tarefa e do Sistema de Justiça Criminal. Os órgãos que compõem e operacionalizam o Sistema de Segurança Pública e Justiça Criminal (Polícia Militar, Polícia Civil, Poder Judiciário, Ministério Público, Sistema Penitenciário, etc.) são refratários a mudanças e apresentam frouxa articulação (SAPORI, 1995). Trata-se de um fenômeno complexo que se manifesta de diversas formas e em função de múltiplos fatores, que merece ser analisado para melhor compreender essa realidade e suas nefastas conseqüências para a investigação criminal e para o combate ao crime organizado. Nesse contexto, oportunos os conceitos de Friedberg, Crozier, não sem antes referir Weber, com seu modelo ideal- típico de organização, e Merton com a sua análise das disfunções. Essa abordagem destaca as questões que dizem respeito às relações de poder, ao funcionamento

25 Delorenzo (1975, p. 25) salienta que alguns autores também a denominam como “Sociologia aplicada à Administração” e “Sociologia Industrial” – especialmente os anglo-saxônicos - e os franceses empregam a denominação de “Sociologia do Trabalho”.

das organizações e às suas disfunções, buscando uma análise do conflito, enfim, da cultura organizacional e interação social como categorias centrais de análise.

Igualmente, buscou-se em Schein, Freyre, Motta, Freitas, Lapassade, Sainsaulieu e Muniz, elementos para avaliar eventuais resistências a mudanças, por parte das organizações, principalmente porque a pesquisa tem como objeto de análise as Forças-Tarefa (que pressupõem a integração entre diversas instituições). Afinal, o conhecimento da diversidade organizacional é essencial para uma integração eficaz.

Por óbvio que o presente estudo não exclui as demais teorias ou as condena, apenas escolheu-se referido recorte porque seus valores são mais afinados com o que se busca analisar. Parte-se do pressuposto, já referido por Adorno (1995, 2002b) e Kant de Lima (2002, 2003b), de que as organizações que operacionalizam o Sistema de Segurança Pública e Justiça CriminaI (limitados, nesse estudo, à Polícia Civil, Polícia Militar e ao Ministério Público) são compostas por grupos de indivíduos que aprendem em conjunto e interagem uns com outros, construindo a cultura organizacional.

Benzer Belgeler