Foi quando blogueiros começaram a conquistar popularidade e a chamar a atenção de outros campos que o street-style digital se tornou uma tendência mundial, por volta de 2007, como já destacamos. Naquele ano, pela primeira vez, alguns, a partir do Hemisfério Norte, foram convidados a participar de eventos, tais como desfiles e lançamentos de produtos.
O episódio que chamou maior atenção de toda a imprensa e pontuou uma discussão a respeito das mudanças trazidas no setor foi na NYC Fashion Week Fall/Winter 2009 (outubro de 2009), quando a grife Dolce&Gabbana convidou para a “fila A” de seu desfile, em Nova York, os então considerados blogueiros “top” – Schuman, Garance, Bryan Boy e Tommy Ton – e, além dos lugares exclusivos, cedeu um notebook para cada um, para publicação de informações do desfile em tempo real. A empresa aproveitou-se da credibilidade dos blogueiros e do potencial de instantaneidade e multiplicação da plataforma.
Os blogs levaram, pois, à exigência de reelaborar modos de produzir, divulgar e consumir as notícias de moda. No que tange ao mercado, como explicitamos no tópico anterior, o fenômeno implica, do mesmo modo, reordenamentos. As marcas, ao reconhecer que seus clientes passaram a ocupar tempo na leitura e dar atenção ao conteúdo publicado, começaram a valorizá-los enquanto veículos de comunicação, e os autores, enquanto formadores de preferências de grupos sociais significativos. Isso porque introduziram formas de consumir informação de moda atreladas a estratégias de relacionamento, tanto interativas quanto imediatas, consolidando uma rede social de discussão sobre o tema.
Ao multiplicar-se e conquistar o público, os blogs tornaram-se respeitados no mercado da moda e da comunicação, reconfigurando as dinâmicas do ciclo tradicional das tendências.
135 Começaram a servir de referência à indústria da moda, segundo o editor de moda Alcino187 Leite Neto, porque apresentam uma estética das cidades e da moda contemporânea na sua base de dados online. Na prática, as informações reunidas nesses blogs acabam funcionando como meios de pesquisa gratuitos para empresas e designers que tentam captar o estilo e o desejo das próximas estações (seja por meio da recorrência de situações ou do ineditismo). Os blogueiros- fotógrafos foram considerados, assim, editores e pesquisadores de tendências – coolhunters ou
style-hunters porque suas apreciações e olhares constroem perspectivas do(s) estilo(s) de rua.
Os anos 2006-2009 viram a consolidação do movimento dos blogs e do fenômeno da “reputação em rede” (DEUZE, 2007, p. 77). Na cadeia de divulgação e projeção dos blogs e seus autores, as citações, matérias, comentários, linkagens e, também, as recomendações dos perfis em outros posts, além dos comentários entre si são fundamentais, de acordo com Braga (2010). Assim, o processo de legitimação pelo público, pelos pares e pela imprensa foi impulsionado, também, pelo crescimento e valorização das redes sociais online, principalmente o Facebook, o Twitter e agora o Instagram e o Pinterest (porém há sempre novos sites surgindo). A maioria dos blogueiros do gênero cria perfis ou páginas nessas redes, no sentido de atualizar as postagens e, por conseguinte, fortalecer o tráfego e fidelizar os leitores.
Um dos motivos que colocam os blogs em vantagem em relação aos demais veículos é que, além de serem viáveis financeiramente, permitem verificação precisa de resultados e acompanhamento da aceitação em relação a posts e campanhas, por exemplo, conforme especificamos no primeiro capítulo. Por isso, seus autores começaram a ser chamados para parcerias e trabalhos com diversas marcas (Net-à-Porter, Corello, Massimo Dutti, Coach Rag &
Boné, Tiffany), não só de moda, alavancando o reconhecimento do street-style digital e a fama
de alguns blogueiros de moda de rua em particular. Essas parcerias, que se tornaram fontes de renda para eles, abrangem propostas de trabalho variadas: convites para dirigir, fotografar e produzir campanhas publicitárias e realizar editoriais para revistas, atuando ora como modelos, ora como fotógrafos. Alguns também são contratados para criar peças ou coleções, como Garance Doré, Yvan Rodic, Camila Coutinho, Lalá Noneto e Ana Clara Garmendia, por exemplo.
187 NETO, Alcino Leite. A febre dos blogs de streetstyle e a mudança na geopolítica fashion. Ilustrada, Folha de São Paulo. 25 maio de 2007.
136 Os blogueiros aproveitam as oportunidades de crescimento da visibilidade/fama que a Internet impulsiona, ao realizar, também, outros trabalhos em torno dos blogs, entre os quais: conferências, palestras e cursos sobre o tema, colaborações criativas com algumas marcas, criações de programas, publicações, além de consultorias e contratos para participação em eventos. Além disso, os blogs street-style resultam em produtos derivados do blog-mãe, como outros blogs ou sites que seguem outra linha editorial, séries de vídeos para o blog (Web-TV), filmes e, inclusive, livros impressos. Esses materiais são mais que registros sócio-históricos dos costumes da nossa época, mas, sobretudo, fonte de renda para os profissionais que souberam e sabem explorar e tirar proveito desse nicho. The Sartorialist foi o pioneiro e tem dois volumes, o primeiro lançado em 2009 e o segundo em 2012; o homônimo The Face Hunter lançou em 2010; em 2011 foi o blog português Alfaiate Lisboeta188 que publicou; e o carioca RIOetc, já
tem três volumes.
As experiências resultantes da prática com o The Face Hunter estão inseridas no contexto econômico do cenário da blogagem, um negócio rentável, segundo o autor Yvan Rodic, ao explicar sobre as processualidades do “Street-Business”, um dos tópicos do curso “Tudo o que você precisa saber sobre street-style” (“Everything you need to know about street-
style”), ministrado no dia 27 de maio de 2012, no Hotel Sheraton, em Porto Alegre (Figura 9).
Na explanação, destacou a diversidade de suas atividades, evidenciando também uma necessidade de renovação do trabalho para manutenção da audiência.
Rodic também revelou que há uma diferença entre fotografar “fahion industry” e “real
people”, entre pessoas estilosas e fashionistas, entre focar no local e no global. Portanto, sugere
que, antes de criar um blog do gênero, se defina claramente o conceito e o tipo de street-style que se quer enfocar e, só após, definir o nome, a plataforma, a estética das fotos, o planejamento da produção de conteúdo e a distribuição para as mídias sociais.
Nessa direção, junto com seus autores, os blogs podem ser considerados como marcas, embasadas tanto em suas fotografias, produção de conteúdo original, na capacidade de refletir essa estética ou até mesmo a partir da própria maneira como os blogueiros se vestem. A perspectiva da blogagem como negócio exige, pois, gerenciamento de imagem e de credibilidade do produto e dos autores, por meio de assessoria especializada ou por auto-gestão (LOVINK, 2008, PRIMO, 2009b), com a utilização de ferramentas e opções online e offline.
137 Esses procedimentos são claramente reafirmados tanto pelos blogueiros quanto pelos produtos – os blogs – por meio da publicação de suas agendas, pela regularidade dos posts, pela possibilidade de contato com eles somente através de agentes etc., e pelo uso frequente das redes sociais.
Figura 9: O blogueiro como uma marca? – The Face Hunter
Fonte: Registro da autora – Hotel Sheraton, Porto Alegre, 27 de Maio de 2012