4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.9. Toplam Yumru Verimi
A sociedade do Distrito Diamantino, no século XVIII, era formada por estrangeiros (a maioria portugueses e africanos), poucos nativos ou pelos imigrantes que vinham de outras regiões da colônia. Eram pessoas sem posses ou escravos que construíram “sua vida material na região e começam a ter seus herdeiros no local onde a edificam” (MENESES, 2007, p.337).
Os primeiros grupos ocupantes do Distrito Diamantino eram formados de “significativa parcela de homens oriundos do Minho e do Douro20. Em sua maioria solteiros,
20 Antigas províncias situadas ao norte de Portugal e que hoje constituem os distritos de Viana do Castelo, Braga
poucos deixavam para trás esposa e família ao partir em busca do Eldorado” (FURTADO, 2003, p.74). Vinham a essas novas terras antes “o marginal das cidades, o camponês, imbuído de muito menos preconceito, acostumado à convivência comunitária” que o fidalgo (VASCONCELLOS, 1959, p.142).
A composição da população na região diamantina revelava uma desproporção entre homens e mulheres. O censo de 1738, realizado na comarca do Serro Frio, revela 9681 habitantes, 83,5% homens e 16,5% de mulheres. Os negros e mestiços representavam, em 1776, 76% da população total da comarca, contingente este formado de membros de várias etnias, forros, mestiços livres e negros em quilombos (MENESES, 2000, p.123). Entre os escravos, apenas 3,1% eram mulheres, uma vez que o trabalho nas minas era executado apenas por homens. No entanto, entre os ex-escravos, os forros, essa proporção se invertia, apontando o mesmo censo 387 forros recenseados, 63% mulheres, 37% homens (FURTADO, 2003). De fato, de acordo com Furtado (2003), as mulheres eram as maiores beneficiárias da alforria, inclusive acumulando bens. Com a liberdade, elas oscilavam entre a desclassificação social e a inserção, ainda que desajeitada, no universo antes restrito aos brancos livres das Minas Gerais.
Nas Minas Gerais a educação formal era privilégio das classes mais abastadas. Os filhos homens dessa classe aprendiam com os padres locais as primeiras letras e por volta dos quatorze anos deixavam os cuidados da casa materna. Seguiam normalmente para Portugal, quase sempre Coimbra, onde buscavam obter grau universitário, já que os cursos universitários eram proibidos na colônia. Poucas eram as instituições que ministravam o ensino secundário (a primeira de Minas Gerais foi o Seminário da Boa Morte, em Mariana, fundado apenas em 1748).
A educação formal era basicamente coisa de homem; mulheres eram educadas em casa. Em poucos casos eram enviadas a um convento. Em Minas Gerais, no período colonial, apenas o Convento de Macaúbas, em Lagoa Santa, recebia as filhas da elite mineira, abrigando, também, viúvas e mulheres casadas que ali buscavam refúgio ou proteção, ou eram internadas à força pelos maridos, que queriam delas livrar-se (FURTADO, 2003).
Os primeiros habitantes do Distrito dos Diamantes instalaram-se em assentamentos ao longo do curso dos rios e córregos que mais se assemelhavam a acampamentos provisórios (MARX, 1992, p.389 e 390). À medida que iam se fixando, passavam a organizar-se em torno de uma capela de taipa, refletindo a religiosidade marcante dos primeiros moradores. Como à
época todas as terras pertenciam à Coroa, as capelas acabavam por ser a única alternativa para se construir uma habitação, uma vez que, mediante petição à Metrópole, podia-se conseguir uma autorização para “erigir uma capela e de se fazer habitar em seu entorno” (MARX, 1992, p.390).
Quase sempre esses núcleos iniciais “orientavam-se longilineamente pelos caminhos:
(...) suas ruas são sempre antigas estradas. Por isto mesmo, foram a princípio chamadas de rua da Praça, da Matriz, da Câmara, etc. não porque nelas se localizassem essas edificações, mas porque a elas conduziam. Por isso mesmo ainda hoje os habitantes da zona rural tratam a cidade como “a rua”, no singular, como uma reminiscência do trecho único da estrada onde se construíram estabelecimentos comerciais (VASCONCELLOS, 1960, p.5) O caminho que interligava arraiais virava estrada e, em algum momento, acabava por receber ordenações que os transformava em espaços institucionalizados, “garantindo localização privilegiada para o comércio e abastecimento e não mais são tratados apenas como espaços de produção, mas já subordinados a controle de ocupação urbana voltados para a reprodução” (MONTE-MÓR, 2001, p.3)
Ainda sobre a formação dos arraiais e vilas em Minas Gerais, Sylvio de Vasconcellos vai dizer que ao redor de cada uma das capelas que nasciam pontuava um espaço aberto, um simples adro, um largo, onde o povo se reunia em festa. Estas áreas interligavam-se por meio de caminhos e, ao longo deste percurso, definiram-se os primeiros lotes, onde foram construídas as habitações e instalado o comércio. Com o passar do tempo, uns lugares se enriquecem, outros se empobrecem. Aqueles mais ricos transformavam suas capelas em matrizes.
O esquema de formação das cidades coloniais mineiras de Vasconcellos é dividido em 4 etapas, como ilustrado na Figura 18.
Figura 18 - Fases da formação das cidades coloniais mineiras segundo o Prof. Sílvio de Vasconcellos.
Fonte: Vasconcellos, 1960
Na primeira etapa, de 1700 a 1720, ocorre, segundo o autor, a formação das povoações, sem definição de classes sociais, em função da pequena diferenciação gerada pelo garimpo de aluvião. Nesse contexto, surgem, em torno de capelas precárias - dedicadas a invocações de santos, de um só altar, construídas em barro ou madeira - habitações rudimentares de pau-a-pique e cobertura vegetal, raramente, de telhas de barro (VASCONCELLOS, 1960).
Na segunda etapa, entre 1720 e 1750, os assentamentos tornam-se estáveis, ocorrendo nessa fase a definição de classes sociais distintas, com a hegemonia da burguesia comercial em formação. As antigas capelas são melhoradas ou transformadas em igrejas matrizes, normalmente em invocação à Santíssima Trindade, muitas vezes mediada pelo culto à Virgem Maria. As habitações são ampliadas e têm multiplicadas as suas partes. Em princípio com “puxados” aos fundos ou para frente, aproveitando a mesma água da cobertura, ou sofisticando suas plantas que passaram a ter forma de “U” ou “L”. Ganham pátios internos, corredores, quarto de hóspedes, sala de receber e a varanda de trás. Deslocam-se do chão, ganhando embasamentos mais altos. Preferem a horizontal, com largas beiradas e uma sucessão de vãos (VASCONCELLOS, 1999).
Com o progresso dos povoados, os lotes disponíveis em terrenos arruados ficam escassos. Assim, as casas amplas vão para os extremos dos povoados, ficando os centros ocupados por habitações espremidas umas às outras. Se antes a habitação ocupava os lotes com a maior fachada voltada para as ruas, agora ocorre o contrário: as fachadas são estreitas e as habitações voltam-se para os fundos. As casas, além do pau-à-pique, passam a ser feitas em alvenaria de adobe ou pedra e ganham coberturas em telhas cerâmicas (VASCONCELLOS, 1999).
Na terceira etapa do esquema de Vasconcelos (1960), que vai de 1750 a 1800, há a maturidade do monumento religioso como centralidade urbana. Iniciam-se as construções mais elaboradas, quase sempre de pedra. As classes sociais já estão fortemente diferenciadas e muitas vezes marcadas por rivalidades. Há a opção pela reconstrução e/ou construção de novas capelas dedicadas aos santos representativos de ordens laicas (as ordens terceiras) ou ligadas a grupos étnicos, deixando as matrizes em relativa decadência. Nessa fase ganham importância os mestres, artesãos e artistas nativos. As habitações têm basicamente as mesmas características da etapa anterior, porém ficam mais leves, pois passam a usar o vidro nas
esquadrias. Nessa etapa inicia-se o uso de cimalhas sobre os vãos, rótulas, sacadas ou varandinhas nos sobrados (VASCONCELLOS, 1999).
A partir dos oitocentos, a decadência das minas paralisa as construções ou, aquelas que ainda são feitas já não possuem o acabamento esmerado de antes. Diminui, também, a diferenciação social. Nesse contexto, a comunidade retoma a cooperação social, tendo a matriz novamente como centro da vida social (VASCONCELLOS, 1960).
Resumindo o desenvolvimento territorial dos povoados mineiros:
O ciclo evolutivo social, tão bem traduzido pelo interesse religioso que, das capelas, passa às matrizes para, depois, voltar às igrejas filiais, corresponde perfeitamente ao desenvolvimento material e econômico da Vila. Nasce a povoação dos arraiais isolados que tendem a se agrupar, depois, em um centro constituído por sua praça principal, para, mais tarde, estender-se novamente à periferia (VASCONCELLOS, 1960, p.62)
O esquema apresentado por Vasconcellos permite uma melhor compreensão da evolução do tecido urbano das localidades de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras, a partir da instalação de capelas e sua transformação em matrizes, como mostrado na Figura 19.
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Figura 19 - Formação dos núcleos de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras
Elaboração própria Antes de 1732- Capela de São José Em 1857 transforma-se em Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres Séc. XIX- Surge a Capela N. Sra. do Rosário Antes de 1732- Capela 1787- A Capela transforma-se em Matriz de São Gonçalo Período Colonial: surge a Capela N. Sra. do Rosário Caminho dos Diamantes Caminho Caminho Vai para Diamantina Vai para Vila
do Príncipe
Até 1732
Milho Verde São Gonçalo do Rio
das Pedras
De 1732 até o século XIX
Milho Verde nasce como um pequeno aldeamento em torno de uma pequena ermida, que a documentação histórica diz existir já em 1732. Essa capela inicial transforma-se, em 1857, na Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, tendo aumentado o número de casas em seu entorno, mas não chegando a representar número expressivo, conforme relatam os viajantes. No século XIX, é construído um novo templo, a Capela N. Sra. do Rosário e uma nova aglomeração de casas surge ao seu redor. Também São Gonçalo do Rio das Pedras nasce em torno de uma capela, já existente antes de 1732, com os relatos já apontando a existência de várias habitações ao seu redor. Essa Capela eleva-se à condição canônica de Matriz, em 1787, demonstrando a maior importância da localidade em relação a sua vizinha Milho Verde. O caminho principal que ligava Vila do Príncipe ao Tejuco vai-se tornando, em Milho Verde, rua, cujo traçado, ainda nos dias de hoje, comanda a expansão da mancha urbana, como se demonstrou em 4.2.1.
A vida social dos arraiais também se dava em torno das atividades religiosas. Esse domínio da religião no cotidiano das pessoas determina a construção das paisagens das regiões mineradoras do Brasil Colônia. “Foi a Igreja Católica, com seus desdobramentos laicos nas Ordens Terceiras, a principal responsável pela organização sócio-espacial urbana (MONTE-MÓR, 2001, p.5).
Nas Minas Gerais, a Coroa proíbe a instalação das ordens religiosas e exerce sobre o clero secular rigoroso controle, na tentativa de reduzir e controlar a influência da Igreja nessas regiões. No entanto, as ordens laicas podiam instalar-se livremente sem a tutela oficial da Igreja de Roma. Transformaram-se, assim, em “instrumentos importantes de organização comunitária, ganhando eventualmente nítido caráter classista (e mesmo étnico)” (MONTE- MÓR, 2001, p.6). A instalação dessas ordens chegou mesmo a ser incentivada pela Coroa, na “medida que enfraqueciam o poder eclesiástico na Colônia, além de reduzir custos e transferir para as próprias comunidades diversas tarefas e obrigações funcionais e financeiras” (MONTE-MÓR, 2001, p.6).