A sala oferece aprendizagens e conteúdos constantes a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL, 1996), dentro dos ciclos aos quais os alunos pertencem. Nacionalmente há uma proposta de conteúdos a serem trabalhados em cada ciclo, e os três primeiros anos (Ciclo I) são indicados como os anos de alfabetização. Sendo assim, há uma maleabilidade na composição das ações a serem realizadas em sala, uma vez que a criança tem esse período para se alfabetizar. O trabalho por ciclo é possível, visto que essa é uma meta apontada desde a Lei de Diretrizes e Bases em 1996 (BRASIL, 1996) e atualizada em 2013. Contudo, é
importante destacar que são previstos três anos para alfabetização de crianças monolíngues a serem alfabetizadas em sua língua materna.
Nesse sentido, no caso de alunos surdos que, em sua maioria, chegam à escola sem língua, as professoras têm a tarefa de favorecer a apropriação da primeira língua (L1), a Libras, e ao mesmo tempo trabalhar a alfabetização e letramento na segunda língua (L2) deles, a Língua Portuguesa.
Na sala bilíngue investigada, todos os alunos vêm se comunicando em Libras com êxito. Todos chegaram com conhecimentos restritos, ou ainda com sinais caseiros, mas a convivência cotidiana com pares fluentes em língua de sinais e professores bilíngues, faz com que aos poucos todos se tornem mais ou menos fluentes, segundo suas capacidades e dificuldades, vivenciando um ambiente de trocas linguísticas bastante efetivas, o que seria menos possível em ambientes com um número reduzido de usuários dessa língua.
As professoras da sala multisseriada desenvolvem parcerias com as demais professoras da escola, com o objetivo de que a sala bilíngue esteja pareada com pares ouvintes. Nessa perspectiva, são realizados projetos a partir dos conteúdos trabalhados em comum entre a sala língua de instrução Libras e outras salas de aula. Desse modo, os alunos surdos estão em constante interação com as salas de ouvintes, além de participarem de diversas atividades escolares coletivas.
Destaca-se que as atividades indicadas para serem realizadas em parceria não são casuais, mas são planejadas em reuniões específicas. Procura-se pensar e organizar projetos pedagógicos com as turmas que melhor apresentam condições de um trabalho conjunto, de modo a trazer benefícios mútuos e favorecer boas trocas no âmbito da escola, na busca de consolidar um projeto efetivamente bilíngue de inclusão de alunos surdos na escola regular.
Em relação ao trabalho com a Língua Portuguesa, a base para o ensino é feita como modalidade de segunda língua. Os alunos têm demonstrado desempenho significativo na aquisição da Libras e, como forma contrastiva, tem sido feita uma relação entre as línguas para o ensino da Língua Portuguesa.
Para o Ciclo I, a base de ensino dos professores de alunos ouvintes tem sido português e matemática – anos de alfabetização. Comprovadamente a alfabetização de surdos não ocorre nos moldes daquela realizada pelos alunos ouvintes. Exemplo disso são as atividades que fazem de produção textual baseadas em vídeos filmados para o contraste da gramática da Libras e do português. Essas análises só são possíveis em uma sala bilíngue, na qual professores e alunos
tomam a Libras como primeira língua e desenvolvem um trabalho metalinguístico para se chegar à construção do português como segunda língua (FORMAGIO e LACERDA, 2012).
No que se refere à alfabetização desses alunos surdos, o foco nessa sala tem sido desenvolver sujeitos leitores do português, que, a partir dos conhecimentos de mundo e de leitura, possam escrever textos em português e daí colocar em contraste a Libras e a Língua Portuguesa, ampliando assim, seus conhecimentos.
Pode-se notar que os alunos do Ciclo II apresentam maior fluência na língua de sinais, mesmo os que entraram sem domínio dela, fazendo provas de conteúdos como História, Geografia e Ciências na língua de sinais, tendo registros vídeo gravados em Libras pelas professoras bilíngues, de seus conhecimentos. Ainda estão em fase de aprendizagem do português na modalidade escrita, mas já conseguem fazer uso social desta língua. Fazem leitura contextual, estão tendo a oportunidade de um letramento visual e percebendo o uso social e funcional da escrita. Técnicas como memória visual de glossários em português têm sido exploradas no contexto de adensamento de textos trabalhados arduamente em Libras e depois relacionados à modalidade escrita do português.
A condução do ensino da Língua Portuguesa como segunda língua na sala de aula em foco obedece a alguns pressupostos que as professoras buscam seguir no conjunto das atividades propostas. São eles: i) Apresentação inicial do texto a ser trabalhado em Libras (o texto é apresentado pelas professoras ou em forma de vídeo), visto e revisto pelos alunos e discutido coletivamente. Espera-se que os alunos compreendam o texto em Libras e se apropriem dele; ii) Narrativa (reprodução do texto em Libras) pelos próprios alunos, buscando que se tornem enunciadores daquele mesmo texto – co-autores, suprindo dúvidas tanto de compreensão como dúvidas sobre o modo de enunciar em Libras este ou aquele conceito; iii) Apresentação do texto em português para leitura pelos alunos, do texto já trabalhado em Libras; iv) Leitura do texto em português focalizando a compreensão global do mesmo – busca da significação; v) Leitura do texto em português buscando a compreensão de palavras, conhecimento e decifração de léxico específico; vi) Produção escrita fundamentada no texto trabalhado, com atividades de escrita que impliquem léxico e aspectos focalizados no texto em Libras e no texto em Língua Portuguesa.
Este conjunto de ações (i a vi) são sempre conduzidas explorando ao máximo a presença de imagens, vídeos e aspectos imagéticos de forma geral, de modo a ampliar as possibilidades interpretativas do aluno surdo (LACERDA, SANTOS E CAETANO, 2013). É notório que as professoras incentivem a produção individual e coletiva nas diferentes atividades de
modo a favorecer o desenvolvimento a partir da Zona Potencial de Desenvolvimento (ZPD) de cada aluno, e ao mesmo tempo, o aprender com o outro em diferentes formas de parceria.
Dessa forma, a Libras é a língua de instrução entre estes alunos e professoras, a língua com a qual a discussão sobre os conteúdos é conduzida e é também colocada constantemente em contraste com os modos de dizer em português, de forma que os alunos percebam que são duas línguas com gramáticas e soluções linguísticas diferentes, mas que podem fazer circular significados pretendidos, cabendo ao enunciador escolher como e em qual modalidade dizer aquilo que pretende segundo seu interlocutor.