2.1.4.1 A carreira de Ciência e Tecnologia
No Brasil, atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico estão presentes sob diferentes aspectos nas atribuições de diversos cargos e carreiras no âmbito da administração pública federal, como por exemplo nas carreiras de Magistério Superior (BRASIL; 2012), Especialista em Meio Ambiente (BRASIL; 2002), e Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (BRASIL; 2006b). No entanto, a área de Ciência e Tecnologia dispõe de um plano de carreiras próprio que tem como principais objetivos a promoção e a realização da pesquisa e do desenvolvimento científico e tecnológico. Nos Institutos de Pesquisa do MCTIC, quem tem atribuição de realizar pesquisa e desenvolvimento tecnológico são os servidores das carreiras de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico.
O plano de carreiras de C&T compreende três carreiras complementares: 1) Pesquisa em Ciência e Tecnologia - destinada a profissionais habilitados a exercer atividades específicas de pesquisa científica e tecnológica; 2) Desenvolvimento Tecnológico – destinada a profissionais habilitados a exercer atividades específicas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico; e 3) Gestão, Planejamento e Infra-Estrutura em Ciência e Tecnologia - destinada a servidores habilitados a exercer atividades de apoio à direção, coordenação, organização, planejamento, controle e avaliação de projetos de pesquisa e desenvolvimento na área de Ciência e Tecnologia, bem como toda atividade de suporte administrativo dos órgãos e entidades integrantes da área de Ciência e Tecnologia (BRASIL, 1993). Esses profissionais encontram-se lotados fisicamente, mas não exclusivamente, no MCTIC e em seus Institutos de Pesquisa e tem dedicação em tempo integral para a produção científica, tecnológica e de inovação.
A carreira de Pesquisa em C&T é constituída pelo cargo de pesquisador em quatro classes (Pesquisador Titular, Pesquisador Associado, Pesquisador Adjunto e Assistente de Pesquisa) que variam de acordo com a titulação (Mestrado ou Doutorado) e o tempo de titulação, e o desempenho em sua área de atuação.
A carreira de Desenvolvimento Tecnológico é constituída de três cargos que varia de acordo com o nível de educação formal. Os Tecnologistas são servidores com nível superior e, com pós-graduação ou tempo e experiência na área. Os Técnicos devem possuir
Ensino Médio e conhecimentos específicos ao cargo, enquanto os Auxiliares-Técnicos precisam ter Ensino Fundamental e conhecimentos específicos ao cargo.
A carreira de Gestão, Planejamento e Infra-estrutura também é constituída de três cargos de acordo com o nível de educação formal, sendo os Analistas em C&T de nível superior cujas classes são uma combinação de formação pós-graduada com tempo e desempenho comprovado na atividade de C&T. Os Assistentes em C&T são servidores com Ensino Médio, conhecimentos específicos ao cargo e cujas classes variam de acordo com o tempo de experiência na atividade de C&T. Os Auxiliares em C&T são servidores com Ensino Fundamental, conhecimentos específicos e experiência nas tarefas inerentes à classe.
2.1.4.2 A comunidade científica
Ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, no Brasil os profissionais diretamente dedicados às atividades científicas estão concentrados em universidades e institutos de pesquisa públicos (professores-pesquisadores) (DAGNINO, 2007), e no âmbito do MCTIC, a atribuição de realizar pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico é dos detentores dos cargos de pesquisador e tecnologista. Nesse contexto, doravante, esses profissionais serão chamados de cientistas para melhor compreensão do seu papel no âmbito dos Estudos Sociais da C&T.
Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto muitos cientistas eram perseguidos por suas crenças religiosas e outros colaboravam com a ideologia nazista, renovou-se o debate sobre a liberdade científica e democracia. Neste contexto, Robert Merton buscou fortalecer o discurso sobre a necessidade de manter a autonomia da ciência independente do contexto histórico e social descrevendo os valores e motivações do cientista. Merton entendia a ciência como um conjunto de valores e costumes culturais, além de uma variedade de itens distintos e inter-relacionados que compreendiam métodos pelos quais o conhecimento é certificado e acumulado. A partir dessa estrutura cultural da ciência, ele a estudou enquanto instituição descrevendo seu ethos, ou seja, o complexo de valores e normas não codificado, inferido a partir do consenso moral dos pesquisadores e expresso no uso e costume. Assim, Merton introduz os quatro imperativos institucionais da ciência componentes do ethos da ciência moderna: Universalismo, Comunismo, Desinteresse e
Ceticismo Organizado . Aceitar esses imperativos institucionais não seria opcional a quem 9
adentrasse nas atividades científicas e faria com que os cientistas se reconhecessem enquanto instituição (MERTON, 2013).
Contrariando a noção harmônica da comunidade científica de Merton, Kuhn (2013) destaca seu caráter conservador quando descreve que embora a atividade científica possa ter um espírito aberto, o cientista individual muito frequentemente não o tem. A resistência e preconceito às novidades inesperadas e novas teorias é fruto da educação científica rigidamente profissional que “semeia" o que a comunidade científica já alcançou, transmitindo um conjunto de padrões, instrumentos e técnicas a serem usadas pelo estudante da ciência. A educação científica consiste numa iniciação dogmática da tradição de resolver problemas de acordo com as regras do jogo pré-estabelecidas, com os paradigmas conhecidos, a fim de obter o mesmo resultado. Ainda segundo Kuhn, só é considerada ciência a resolução de problemas cuja solução é previsível através dos paradigmas existentes, e é a partir do surgimento de anomalias na aplicação desses paradigmas que ocorrem as revoluções científicas e a transição para um novo paradigma (KUHN, 2011).
A importância da reprodução social através da educação também é destacada por Bourdieu (2013) quando relata que uma das funções do sistema de ensino é assegurar o consenso sobre o que é legítimo e ilegítimo, do que merece ser ou não discutido, do que se tem que saber e do que pode ser ignorado, e do que pode e deve ser admirado. Bourdieu, através da noção de campo científico , também se opõe à ideia romântica da comunidade 10 científica de Merton quando aponta que a ciência pode ser vista como um mundo social hierarquicamente organizado, com uma autonomia relativa, onde os agentes/cientistas lutam por capital científico mediante um “interesse desinteressado” pelo prestígio e 11
O Universalismo preconiza que as alegações à verdade devem ser submetidas a critérios impessoais 9
preestabelecidos, consoantes com a observação e o conhecimento anteriormente confirmado. O Comunismo considera que o resultado da ciência é um produto da colaboração social dirigida para a comunidade. O Desinteresse se refere à paixão pelo conhecimento, curiosidade e preocupação pelo bem estar da humanidade. O Ceticismo Organizado confere à ciência autonomia para questionar crenças ligadas à religião, política, economia, ou qualquer outra força dominante.
O Campo científico é um campo de forças dotado de uma estrutura e também um espaço de conflitos pela 10
manutenção ou transformação desse campo de forças (BOURDIEU, 2008).
Bourdieu reconhece duas espécies de Capital Científico: Capital científico “puro” - fundado no 11
conhecimento e reconhecimento pelas contribuições ao progresso da ciência através de invenções, descobertas, publicações, participação de comissões e bancas (teses, concursos). Capital científico temporal ou institucional - poder político temporal e institucional ligado à ocupação de posições importantes nas instituições científicas e ao poder sobre os meios de produção (contratos) e reprodução (nomeações) (BOURDIEU, 2004).
reconhecimento junto a seus pares e não ao público externo. O que une os agentes/ cientistas como um campo é justamente as lutas que ocorrem dentro dele. No entanto, Bourdieu também reconhece o caráter institucional da ciência ao entender que todos os que estão envolvidos num campo científico podem funcionar como comunidade (laboratório, instituições científicas, associações e sociedades disciplinares) e alguns agentes/cientistas "encontram na pertença a essas instituições e na defesa dos interesses comuns recursos que não lhe são fornecidos pelas leis de funcionamento do campo científico" (BOURDIEU, 2008).
A noção de hierarquia e reconhecimento junto aos pares também é endossada por Hagstrom (1979) ao afirmar que a autonomia da comunidade científica tem de ser mantida à custa de, entre outras coisas, controle social e que a organização da ciência consiste numa troca de informações por reconhecimento social. A validação da competência e da importância do trabalho dos estudantes de ciências dentro da comunidade científica depende da validação social dos seus professores e colegas, que se dá principalmente através do aceite de seus manuscritos pelos jornais científicos. Os artigos publicados são considerados como contribuições à ciência e os autores não recebem qualquer tipo de pagamento por isso, já os manuscritos pelos quais os autores recebem pagamento (livros, manuais e obras de popularização) são considerados abaixo dos artigos publicados em periódicos. Além disso, não se espera originalidade científica, nem crítica ou contestação às teorias existentes, pois se baseiam no que já é conhecido. A aceitação dessas contribuições implica no reconhecimento e prestígio dentro da comunidade científica (HAGSTROM, 1979).
O lugar onde um cientista escolhe realizar seus estudos desempenha um papel determinante em sua futura carreira. A associação com pesquisadores e instituições de prestígio oferecem maiores facilidades de acesso a recursos materiais, redes de comunicação, grupos de pesquisa, credibilidade e prestígio, equipes capacitadas, reconhecimento e independência. Latour e Woolgar (1997) descrevem as motivações dos cientistas baseadas na aquisição de crédito-reconhecimento e crédito-credibilidade. O crédito-reconhecimento refere-se a um sistema de reconhecimentos e de prêmios que simbolizam o reconhecimento, pelos pares, de uma obra científica passada. O crédito- credibilidade baseia-se na capacidade que os pesquisadores tem para efetivamente praticar ciência. O crédito a que eles se referem sugere um modelo econômico integrado de
produção de fatos cujo objetivo último num ciclo de investimento em credibilidade para conseguir reconhecimento seria a acumulação de recursos (LATOUR; WOOLGAR, 1997). Segundo Morel (1979), a busca pela originalidade reforça a disputa pelo reconhecimento social da prioridade da descoberta e, a medida que essa pressão aliada ao medo do anonimato e fracasso aumenta, os cientistas tendem a adotar um comportamento agressivo e competitivo (publish or perish), desviante (fraude, plágio) ou derrotista e retraído (isolamento, apatia). As transformações surgidas na ciência enquanto instituição e as orientações que a definem são produtos históricos de um tipo particular de relações sociais e de produção. Os padrões e a prática profissional da ciência estão historicamente condicionados por estruturas externas que vão além da Academia. A própria profissionalização e especialização da atividade científica está ligada à divisão social e capitalista do trabalho, que separou o trabalho manual do intelectual, o planejamento da execução, o parcelamento das tarefas, e a criação de um corpo intelectual elitista autônomo e desvinculado dos interesses de classes (MOREL, 1979).
A busca do reconhecimento pelos pares, interesse “desinteressado", busca por prestígio, conservadorismo, controle social, hierarquia e autonomia descritos pelos autores acima supostamente são características da comunidade científica universal.
A ideia de comunidade científica está embasada na constatação de que a atividade científica ocorre em coletividades determinadas não por normas e valores, mas pelo pertencimento do indivíduo às instituições ou disciplinas, que podem ser em forma de organizações, laboratórios individuais, sociedades científicas e grupos de pesquisa. Nessa perspectiva, essa representação de coletividade científica permite o estudo das interações entre os cientistas e entre os cientistas e a sociedade (YAHIEL, 1975; BAUMGARTEN, 2007).
No Brasil, a comunidade científica tem como característica uma face predominantemente acadêmica que tem buscado formas de sobrevivência e de crescimento a partir de uma progressiva atuação dentro das próprias estruturas do Estado, influenciando diretamente a política científica e tecnológica (PCT) ao longo da história.