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Chevallard define sistema didático, como o sistema que contém professor, alunos, o saber e suas relações. O saber é o elemento agregador deste sistema, porque

ao redor de um saber (designado ordinariamente pelo programa) se forma um contrato didático18 que toma este saber como objeto de um projeto compartilhado de ensino e aprendizagem e que une num mesmo lugar docente e alunos. (CHEVALLARD,1991,p.23).

Define o sistema de ensino, como aquele

que reúne o conjunto de sistemas didáticos e tem ao seu lado um conjunto diversificado de dispositivos estruturais que permitem o funcionamento didático e que intervêm em diversos níveis (CHEVALLARD, 1991, p.23),

14 A.-N. PERRET – CLERMONT et al. Décontextualisation et recontextualisation du savoir dans l’enseignement

des mathématiques à des jeunes élèves », in : Interactions didactiques,1.Universités de Genève et Neuchâtel, 1982.

15 PERRENOUD,P. La formation des enseignantes entre théorie et pratique, Paris: L´harmation. 1994.

16 FOUREZ,G. Pour une éthique de l’enseignement des sciences. Lyon, Bruxelles: Chronique socieale/vie

ouvrière, 1985.

17 HOUSSAYE,J. Les valeurs à lécole, Paris : PUF.1992.

18 O termo contrato didático é usado por Chevallard, no mesmo sentido do usado por Brousseau, e está definido e

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e que, por sua vez, está inserido na sociedade.

O sistema didático, ao relacionar professor-aluno-saber, torna-se, assim, o objeto de estudo quando se busca entender como o professor na sala de aula, gerencia as relações entre os três elementos, de modo que o saber a ensinar se torne um saber ensinado, e aprendido.

A relação entre o sistema de ensino e o entorno social é mediada pela chamada noosfera, onde se encontram os pais dos alunos, os especialistas da disciplina, agentes responsáveis pelas ações didáticas, os emissários de órgãos políticos etc. É aí que se enfrentam os problemas relativos à transposição didática, e suas soluções amadurecem e se estabelecem, ao mesmo tempo em que se determina quais os saberes que devem fazer parte dos programas, dos livros didáticos e dos manuais, ou seja, quais saberes serão objetos da transposição interna.

Os parâmetros e orientações curriculares, bem como as provas nacionais de avaliação, são zonas de atuação da noosfera. Tais documentos, ao sugerir formas de abordagens de ensino e seleção de conteúdos, pré-formatam o saber que será produzido na sala de aula e influem diretamente na transposição interna, isto é, no trabalho do professor.

A noosfera atua na definição do saber a ensinar através dos livros, manuais e orientações curriculares. O sistema de ensino acolhe ou não estas orientações e fornece ao professor os meios para a transposição interna: materiais, livros, espaço físico, e uma primeira organização do tempo, na medida que determina a divisão do ano letivo em períodos e o número de aulas correspondentes a cada disciplina.

No caso da inserção da FMC (no Brasil), a ação da noosfera ainda é incipiente. A maioria dos exames nacionais de avaliação e dos vestibulares que são fortes influências na seleção de conteúdo feita pelos professores de ensino médio (ROSA e ROSA, 2005), ainda não incluiu a FMC como conteúdo de suas provas. Chevallard introduz também a noção de “tempo legal”. Chopin (2007) acrescenta a idéia de tempo didático, que

pode ser definido como o tempo estruturado pelos fenômenos de natureza didática. Para ir mais longe, e descrever o sistema considerado se torna necessário se debruçar sobre a natureza dos fenômenos didáticos em jogo, ou de outro modo sobre a natureza dos ritmos do tempo didático.

[...]Trata-se de um tempo não ‘puramente temporal’, que ‘nasce do cruzamento de uma duração – a duração escolar – e de um saber – o saber a ensinar.’ (CHEVALLARD&MERCIER, 1987, p.38) [...] A partir de então, sua organização depende fortemente da matéria a ensinar tanto quanto do currículo. (CHOPIN, 2007, p.303)

A organização do tempo “didático”, que procura adequar o tempo ‘legal’ ao tempo necessário para o aluno aprender, é trabalho do professor e está relacionado diretamente com

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a transposição interna: tendo em vista a adequação destes tempos o professor seleciona do saber a ensinar o que será efetivamente saber ensinado.

A questão da temporalidade é fundamental para se entender a inserção da FMC. Ela pode tornar-se inviável caso o professor decida acolher as sugestões dos livros didáticos e “esgotar” a física clássica antes de ensinar FMC. Considerando o número de aulas previsto para a disciplina, até o conteúdo clássico proposto passa pelo processo de seleção, e vários temas não são abordados na sala de aula.

Para adequar o conhecimento à sala de aula, levando em conta essas restrições que fazem parte do próprio sistema de ensino, o professor reconstrói o saber, usando de criatividade didática, isto é, cria “objetos de ensino que não figuram no saber sábio” (ARSAC, G., 1989 apud ASTOLFI et al, 1997, p. 181)19. As situações de ensino, deste modo, guardam apenas relações com o objeto do saber sábio, e adquirem uma identidade didática, tornando-se elementos importantes nas situações de sala de aula. Por exemplo: ao se estudar o termômetro e a construção de escalas termométricas, os exercícios de transformação de escala acabam sendo importantes, embora na verdade, não sejam parte do saber de origem.

Sendo assim, o professor ao selecionar o conteúdo que será efetivamente ministrado e a forma como vai levar esse conteúdo para a sala de aula, prepara uma aula.

Para Chevallard,

preparar uma aula é sem dúvida trabalhar com a transposição didática, (ou melhor, na transposição didática); jamais é fazer a transposição didática. Quando o professor intervém para escrever essa variante local do texto do saber que ele chama seu curso ou para preparar seu curso (quer dizer, para concretizar o texto do saber no desfiar de sua própria palavra), já faz tempo que a transposição didática começou.

[...] sob a aparência de uma escolha teórica, o professor não escolhe, porque não tem poder de escolha. Retém o único momento do processo do qual tem alguma consciência: a redação do texto do saber – o qual, antes da etapa da redação (realizada na forma de manual ou notas do professor) não é mais que um “metatexto”, que não está escrito definitivamente em nenhuma parte, matriz de variantes que lhe darão forma concreta (CHEVALLARD, 1991, p. 18-19, grifos do autor).

Cabe ao professor então, na preparação de sua aula, trabalhar na transposição interna, transformar o saber a ensinar em saber ensinado. Para isso elabora as seqüências didáticas e gerencia as relações em sala de aula.

19 ARSAC,G.;DEVELAY,M.;TIBERGHIEN,A.La transposition didactique en mathématiques, en physique,

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Benzer Belgeler