4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.9. Tohum Verim
Ainda que levemos em conta a diferença de tratamento em relação aos desviantes ao longo dos séculos, há pelo menos um ponto em comum que podemos constatar entre o desviante dos manuais astrológicos e a categoria patológica presente nos primeiros livros sobre “homossexualismo”: em ambos os casos, verifica-se o que Foucault (2001, p.3-32) aponta como “julgamentos dobrados”, isto é, a disposição para relacionar o desejo das pessoas com coisas outras sem nenhuma relação lógica a partir de uma contestável conexão causal: o procedimento conhecido como falácia non sequitur. Se o desviante dos manuais astrológicos é apontado como tendo inclinações para um caráter ruim, e é muito comum encontrarmos no texto de Firmicus Maternus a associação do gosto pelo mesmo sexo com diversos julgamentos morais, o homossexual dos séculos XIX e XX é categorizado como um ser em torno do qual gravitará todo um sistema de delitos e vicissitudes. Inclinação ao crime, coprofagia e tantos outros distúrbios que tornam tais indivíduos suscetíveis a serem julgados por tudo o que supostamente vem acoplado aos seus interesses sexuais. A falsa conexão causal típica da falácia non sequitur é constantemente evocada tanto nos manuais antigos quanto no discurso médico da modernidade. Se o criminoso é julgado, não apenas o crime entra no julgamento, como também sua eventual sexualidade desviante: um assassino heterossexual jamais terá sua sexualidade destacada, em contrapartida aos procedimentos aplicados quando o assassino por acaso prefira o mesmo sexo.
No que tange à relação dos discursos, verificamos que, apesar das mudanças de termos que designam os desviantes, há uma constante que se mantém no Ocidente, uma tradição a partir da qual se evoca a necessidade de diagnosticar. Ao invés da “ars erotica” oriental, o Ocidente sempre esteve envolvido na elaboração de uma “scientia sexualis”. A grande preocupação da cultura ocidental não é a intensificação do prazer, nem tampouco a descoberta de novas formas de prazer, mas sim o estudo e as especulações teóricas em torno do gozo e do sexo. Dentro do espírito deste procedimento científico ou mesmo pré- científico, estabelecemos supostas causalidades entre conceitos, com guisa de encontrar a origem basal do desvio. Queremos entender o desejo mais do que vivê-lo, e isso parece
próprio da estratégia ocidental. Já as culturas orientais são conhecidas por terem elaborado uma “ars erotica”: a verdade do sexo se extrai do prazer, que é tomado como prática e reunido como experiência. Já a “scientia sexualis” é da ordem do discurso. Não obstante Foucault tenha efetuado uma oposição entre “ars erotica” e “scientia sexualis” em “A
Vontade de Saber” (1976), é nas entrevistas compiladas em “Ditos e Escritos IV” (2006) que
ele se posiciona de maneira mais precisa. Salienta, por exemplo, que os gregos jamais tiveram uma “ars erotica”, e sim uma “tékhne toû bioû”, onde a economia do prazer desempenhava um importante papel. A “tékhne toû bioû” constituía efetivamente uma “arte do viver”, mas seu objetivo não era o prazer, e sim o domínio perfeito sobre si mesmo. A hermenêutica cristã, com o passar dos anos, estabeleceu uma nova constituição desta “tékhne”, estabelecendo todo um conjunto de interdições e propostas de sublimação do desejo – aí está o grande gozo do Ocidente.
Autores diferentes e seus livros, assim como o conjunto de suas obras sobre sexo, desejo, sexualidade e a própria definição de “desvio” (criada a partir da tese de que existe o “normal”), alimentam-se mutuamente, servem de referência uns dos outros, aparentemente avançando nas questões mas, em verdade, girando em círculos, sempre em torno da mesma “scientia sexualis”: a vontade de saber para melhor controlar.
Não há, efetivamente, algo de original num sentido ético no discurso da episteme moderna sobre desviantes sexuais além do deslocamento do macro para o microcosmo. É possível rastrear a mesma intencionalidade para muitos séculos atrás, conforme procurei demonstrar no capítulo precedente. A busca por uma causa para o comportamento desviante é a mesma desde os primeiros séculos da Era Cristã, apenas o instrumental teórico foi modificado e, neste movimento, o que era considerado “conhecimento válido” (a astrologia, por exemplo) hoje é chamado de “superstição”.
Compreender as categorias foucaultianas do discurso é o primeiro passo para apreender o conceito de controle discursivo: a razão utilizada como instrumento de controle, domínio e exclusão. Foucault (2008, 79p.) distingue precisamente várias táticas de controle discursivo e, dentre elas, chamam a atenção os procedimentos excludentes: a própria divisão razão/loucura, verdade/falsidade, reto/desviado já pressupõe que existem discursos que não podem circular como os outros. Há discursos aceitáveis e inaceitáveis, seja porque são considerados inadmissíveis na esfera jurídica, seja porque contrariam a estabilidade da autoridade vigente, ou mesmo porque fogem à verdade revelada da tradição. Conforme assinala Foucault, até pode não parecer “sensato” situar num mesmo nível a verdade e a falsidade, o reto e o desviado, mas, na perspectiva genealógica, damo-nos conta de que – no momento essencial situado entre Hesíodo e Platão – o discurso deixa de valer pelo que é ou pelo que faz e vale apenas pelo que diz. O discurso ritual (que cura, que permite o contato com os mitos) é colocado abaixo do discurso racional, filosófico. A própria filosofia
nasce da exclusão do mito, instituindo um discurso racional cujos procedimentos são recorrentemente excludentes.
Foucault se refere também aos procedimentos de controle interno ao discurso: é fato que há um controle do dizer por outros dizeres. Estabelecemos textos considerados como “de primeira grandeza”, saberes com estatuto privilegiado, limitando assim as nossas possibilidades discursivas. Nestes procedimentos, a disciplina tem papel fundamental, pois estabelece limites precisos e regras de jogo para que determinadas proposições sejam consideradas como verdadeiras ou como falsas, como retas ou desviadas. Foucault descreve também os procedimentos de rarefação: a partir da apropriação social do discurso, limitamos o entendimento, o intercâmbio e a comunicação. Isso vale para qualquer saber, institucionalizado ou não. Encontramos tais procedimentos nos textos herméticos de direito e medicina, ou mesmo séculos atrás nos textos esotéricos de astrologia, compreensíveis apenas para iniciados. Com isso, criamos os excluídos e estabelecemos uma casta, uma elite intelectual. Jargões médicos e psicológicos, discursos complexos criados em torno da questão dos desviantes, por exemplo, constituem um procedimento de rarefação que cumpre eficientemente seu propósito: “falamos de vocês, mas vocês não entendem nada do
que dizemos.” Conforme veremos mais adiante, os procedimentos discursivos se
aproximam muito dos procedimentos de delimitação das heterotopias, conforme definidas por Foucault. Os discursos, todavia, não se resignam aos limites estabelecidos. Graças principalmente aos desviantes, enjeitados e “monstros”, enfim, graças aos anormais, as palavras são desapropriadas, ressignificadas, servem para demarcar novos territórios e fazem valer a inventividade política. Dentro de um ainda que existente realismo, há um nominalismo possível que recria e reinventa.