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Os estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e o Paraná configuram a região sul do Brasil. Santa Catarina apresenta uma área de 95.285,1 km2, o que corresponde a 16,5% da área desta região e, 1,12% da área total do país. Este estado, segundo os dados do IBGE (2000), apresenta uma população de 5.349.580 habitantes, distribuída em 293 municípios, subdividida nas assim chamadas messoregiões112. Estas têm por denominação: Norte Catarinense,Vale do Itajaí, Grande Florianópolis, Sul do Estado, Oeste e Serrana Catarinense, com cidades que funcionam como pólos, respectivamente, a saber: Joinville, Blumenau, Florianópolis, Criciúma, Chapecó e Lages.

Referindo-se a configuração geoeconômica, Ribeiro (2005) indica que a estrutura de Santa Catarina apresenta como característica este tipo de divisão, e que

112 Conforme indica Ribeiro (2005, p. 104) as messoregiões podem ser caracterizadas não apenas como

pólos geoeconômicos, mas também como regiões “com características históricas, políticas, étnicas e culturais distintas”. Para mais informações sobre estas regiões ver Brancher (2004).

estas regiões são relativamente autônomas, muito em função do processo de desenvolvimento determinado por forças políticas e econômicas durante o processo de estruturação do estado. Do ponto de vista de sua configuração atual o estado catarinense, segundo se pode ler, na historiografia sobre Santa Catarina, nasce sob a égide de vários conflitos territoriais, assim se aponta que em seu início:

Santa Catarina nasceu dividida entre Portugal e Espanha, com o Tratado de Tordesilhas. Ainda em 1777, tem o litoral invadido pelos espanhóis; mais tarde torna-se território da província de São Paulo que funda a vila de Lages no planalto. Foi disputado pela Argentina até 1895, quando foi arbitrado pelo presidente Stephen Grover Cleveland, dos Estados Unidos, no sentido de resolver a disputa. Posteriormente é contestada pelo Paraná, litígio só resolvido em 1916 com a Guerra do Contestado e, finalmente, também com o Rio Grande do Sul, cujas divisas só foram acertadas na década de 40 (CÔRREA, 1997, p. 179)

Na sua constituição econômica o estado, assim como todo o sul do Brasil, foi influenciado pelo modelo de desenvolvimento, baseado no financiamento da imigração européia, como decisão política implementada pelo governo brasileiro, por conta de um processo de múltiplas garantias materiais e como um projeto moralizador da sociedade brasileira (AZEVEDO, 1987). O resultado desse maciço processo de imigração, com o objetivo, dentre outros, de embranquecer a população, se reflete na divisão étnica de forma indistintamente inconfundível no estado. Esta ideologia racial torna-se um poderoso componente seletivo no mercado de trabalho, nos setores estratégicos de acesso ao conhecimento como educação e cultura (SEYFERTH, 2002). Com isso a imigração ocorre apoiada sobre a renovação da população, ao mesmo tempo em que desqualifica socialmente o trabalhador negro (CUNHA JÚNIOR, 2008).

No mercado de trabalho torna-se decisiva na ampliação das favelas, na constituição do subemprego e do trabalho informal. O sistema educacional transmite valores que perpetua o racismo e a relação de desigualdades sociais em razão das diferenças culturais.

Em Santa Catarina, durante muito tempo, por conta deste maciço contingente de população de origem européia, seus dirigentes têm se utilizado disso para propugnar uma representação de desenvolvimento e progresso diferenciado do resto do país. No entanto, contrariando o que prega a propaganda oficial, quando apresenta Santa Catarina como um estado à parte do Brasil, Ribeiro (2005, p. 102) aponta que:

Ainda que o Estado tenha tais singularidades, e que estas tenham se materializado nas diversas regiões de formas nitidamente distintas [...] ele é parte da sociedade brasileira e tudo que acontece em termos de País, tem rebatimento nesta realidade...

Neste caso a autora procura demonstrar que setores da elite política e econômica buscam difundir a imagem de uma Europa na América (MORTARI & CARDOSO, 1993).

Assim, as cidades que compõem as citadas messoregiões, têm em comum diferentes processos de desenvolvimento industrial, político e social que desemboca em diferentes processos de mobilização da sociedade civil e do movimento social, com maior ênfase a partir da década de 80, como situa o trabalho de Ribeiro (2005). A autora vai indicar que a mobilização dos movimentos sociais na história do estado a partir da década de 70, se apresenta de maneira insipiente “[...] ainda que nos anos que precederam ao golpe militar possamos encontrar formas de organização da sociedade civil atuante na esfera pública” (p. 95). Neste sentido, a mobilização da população negra, apesar de pouco enfatizada na historiografia, também se faz presente, segundo escreve Leite (1996) “O território negro aparece, então, como elemento de visibilidade a ser resgatada”, sobretudo por suas tradições e valores construídos pela resistência e recuperação de auto-estima. Esta autora vai escrever:

A tradição negra tem sido, comprovadamente, o próprio enfrentamento, a resistência cotidiana, a luta pela recuperação da auto-estima. Tanto nas áreas rurais como nas periféricas e urbanas, os negros consolidaram sua identidade social através da demarcação simbólica expressa por uma fronteira étnica que é construída ao longo de anos de resistência e em específicos e diversos contextos: na casa, na vila, no bairro, no clube, na rua no bar (LEITE, 1996, p. 50).

Nesta direção, no período recuperado por Ribeiro (2005), nota-se uma evidente lacuna de organizações negras no estado, que se fazem presente na cena catarinense, senão ainda com um caráter “político”, pelo menos por suas organizações culturais e de lazer, aparecendo com maior ênfase, naquele enfoque, apenas na capital dos catarinenses.

Com isso o que pretendo perseguir é a visibilidade, exatamente neste conjunto de cidades-pólos, do surgimento de organizações negras, num estado que tem registrado fortemente apenas os processos migratórios de descendentes de europeus.

A população negra em Santa Catarina representa aproximadamente 11,7%, segundo dados do IBGE (2000), conformando cerca de 600 mil habitantes. Os milhares de negros dispersos nos municípios sempre se organizaram, seja para manter seus aspectos culturais, sociais e religiosos, ou para protestar e reivindicar seu legítimo espaço na história catarinense (BRANCHER, 2004; TRAMONTE, 2001; SILVA, 2004; NEN, 2004; LEITE, 2001).

No levantamento que realizo aqui, encontra-se em todas as regiões do estado marcas da presença negra, de sua organização em vários momentos da história de Santa Catarina. Listarei aquelas organizações onde encontrei algum tipo de referência. Assim, têm-se algumas organizações que dão o tom da identidade, da cultura, da história e da política da população negra catarinense:

Irmandade Nossa Senhora do Rosário (1840?)

União Catarinense dos Homens de Cor - UCHC (1962) União Brasileira dos Homens de Cor – UBRAC (1972) Agentes de Pastorais Negros - APNS (1983)

Grupo de União e Consciência Negra – GRUCON (1984) Centro Cívico Cruz e Sousa (1918)

Sociedade Recreativa União Operária (1940) Associação Etnia Negra (1989)

Grupo Étnico IAKEKERE (1993)

Anarquistas Contra o Racismo – ACR (1993) Entidade Negra Bastiana (1993)

Clube 1º de Maio ( ? )

Grupo Afro-brasileiro Francisco Aleixo ( ?) Clube de Regatas Cruz e Sousa (1920 ) Humaitá Futebol Clube (1920)

Sociedade Beneficente Sebastião Lucas ( 1952) Movimento Negro Tio Marcos (1992)

Kênia Clube ( 1960)

Grupo Unitivo do Negro Catarinense – GUNC (? )

Evidentemente que, estas organizações foram aquelas que consegui levantar algum tipo de informação, percorrendo o que há registrado nos documentos do

Movimento Negro ou da imprensa. Infiro que há outras tantas espalhadas pelo território catarinense, portanto faz-se necessário um mergulho mais profundo nos arquivos espalhados por todo estado de Santa Catarina. Porém, este panorama aqui traçado já evidencia o importante impacto da população negra e como a invisibilidade tem sido um elemento que marca o processo de silenciamento desta presença, que minimamente pretendo trazer a tona com este trabalho.

Conforme aponta Leite (1996, p. 40) a invisibilidade é o que marca a trajetória histórica dos descendentes de africanos em Santa Catarina, a autora vai apontar que este discurso é produzido como uma simplificação da trajetória da população negra:

A grande maioria das pesquisas que enfocam a contribuição dos descendentes de africanos no Sul do Brasil afirma a sua especificidade em relação às outras regiões do Brasil. [...] Ao analisar esses textos, pude concluir que também aí, na literatura científica o negro é invisibilizado, seja porque não intencionam revelar a efetiva contribuição destes, seja porque os textos vão se deter na sua ausência, na reafirmação de um suposta inexpressividade (grifos do original).

Esse processo de invisibilidade, presente na atualidade esteve profundamente ligado, na história do estado, na perspectiva de erradicar a presença negra, sob a ótica da modernidade e da valorização da emigração. Para Leite, a condição de invisibilidade do negro em Santa Catarina “é um dos suportes da ideologia do branqueamento” (p. 41), negando a visibilidade do outro quando não se consegue seu apagamento social.

Anteriormente, na história pregressa do estado catarinense localiza-se que assim, como em todas as áreas urbanas do Brasil, os escravos circulavam intensamente pelas ruas em busca de trabalho ou ainda, outras formas de renda da qual dependiam um grande numero de famílias de Desterro, antiga denominação da capital florianopolitana. Foi esta circulação que permitiu os contatos com homens e mulheres de diferentes condições, caminhos múltiplos de espaços de sociabilidade. Desse modo, ao lado de uma cidade regrada e excludente das elites brancas, tem-se de novo, a cidade esconderijo, solidária, impenetrável, onde escravos e libertos encontraram uma noção de liberdade – o direito de morar, de ter filhos, trabalho e um lugar para morar (CARDOSO,1993).

Segundo demonstra Bitencourt (1994, p. 29) ao discutir sobre o processo de urbanização no estado, que este não se diferencia de momentos acontecidos por todo o país, sob a égide de civilidade que recai, de um lado, sobre as populações pobres. Vai dizer:

O homem, agora, cidadão, deveria apresentar hábitos polidos, ser educado, estar apto a freqüentar os ambientes criados para esta nova cidade “civilizada” e a cidade deveria ser limpa, higienizada e dinâmica. Muitas das antigas práticas, comuns e aceitáveis no passado, passaram a ser sinônimos de imoralidade e atraso. De animais soltos pelas ruas às poças de lama nestas, tudo era motivo de critica, aos olhos dos sintonizados com a sensibilidade burguesa, e objeto de regulamentação municipal. Havia o desejo de afastar da cidade tudo aquilo que a fizesse figurar como uma zona rural, “jeca”, ela deveria ser cosmopolita.

Por outro, este processo urbano acentua o caráter de isolamento das populações de descendentes de africanos consideradas como símbolo de atraso:

A população era tolhida em seus antigos modos de comportamentos, cooptada a apresentar-se “civilizada” e repreendida ao negar novas regras. Notadamente, a camada social formada pelos pobres e ex-escravos são o alvo preferencial da repressão. Excluídos dos direitos e benefícios do mundo moderno, sua inclusão nesse projeto de sociedade dava-se pelo poder de outros que decidiam quais os papéis a eles destinados. A cidade dos sonhos burgueses na era para eles (Idem, p. 29).

Apesar de anos de uma produção acadêmica, que aponta ora a inexistência, ora como insignificante a presença negra em terras catarinenses, esta população produziu diferentes estratégias para lidarem com estas fórmulas, e as mais diferentes maneiras de segregação e racismo, conforme se verá adiante. Desta forma é significativo afirmar que o percentual populacional de negros no estado é não somente apreciável, mas que demonstra sua importância e significação histórica a partir de múltiplas formas de experiências associativas.

Assim, explicito que muitas das informações que se seguem são uma tentativa de síntese da bibliografia elaborada pelo Movimento Negro, de documentações que até então não estavam totalmente sistematizadas, e das falas de alguns dos sujeitos entrevistados.

O conjunto de informações que seguem, tem como objetivo introduzir de maneira panorâmica aspectos da história do Movimento Negro em Santa Catarina, a partir do registro das incipientes pesquisas sobre o tema. Portanto, se impõe como uma necessidade estudos sistemáticos sobre a trajetória deste movimento social no estado catarinense, como também no Brasil. As diversas formas de organizações da população negra produzem uma luta por reconhecimento social deste segmento, o respeito à história e a cultura de matriz africana, discutem as contradições da democracia brasileira pela busca da cidadania na sociedade nacional.

Apesar de todos os fatores desfavoráveis, que recaem sobre a população negra, apontados pelos estudos até então conhecidos, o Movimento Negro construiu e constrói um espaço político, legitimando diferentes processos para construção da cidadania e patrocinando a representação do povo negro, num estado aonde se tentam invisibilizar os aspectos organizativos de participação social. Neste primeiro momento vou acentuar aquelas organizações que se estruturaram visando uma atuação de caráter mais abrangente pelo estado.

Pesquisando parte desta história não-contada encontrei registros de constituição de organizações do movimento negro no estado de Santa Catarina, que aparecem em outras partes do Brasil. Conforme aponta Silva (2003, p. 222) houve no estado uma tentativa de continuidade da estratégia criada pelo TEN (Teatro Experimental do Negro), organização iniciada no Rio de Janeiro, na década de 40. Ela escreve que: “Mais ao sul, em Santa Catarina, ensaiou-se uma sucursal do TEN”, tentativa que parece não frutificou, já que não se tem outras informações sobre esta atuação, até o momento.

No entanto, em seu lugar outra organização negra tomou corpo numa das cidades de maior população de origem alemã, Blumenau. Aparece aí a União Catarinense dos Homens de Cor (UCHC), conforme registrado em um jornal local:

A história da organização da comunidade negra em Blumenau surgiu em 20 de setembro de 1962, com a fundação da UCHC – União Catarinense dos Homens de Cor, criado por Avandis de Oliveira, conhecido na época por “Príncipe Negro”(JORNAL DIÁRIO CATARINENSE, 1977).

Esta organização em Blumenau pode ser entendida como continuidade de uma rede de entidades iniciadas pela União dos Homens de Cor (UHC), no Rio Grande do Sul (SILVA, 2003, p. 224), nos anos de 1940. Esta autora já indicava como um dos objetivos deste tipo de mobilização era: “elevar o nível econômico, e intelectual das pessoas de côr em todo o território nacional, para torná-las aptas a ingressarem na vida social e administrativa do país, em todos os setores de suas atividades”. Em linhas gerais, sua atuação pelos estados, onde foram implementados núcleos, era marcada pela promoção de debates na imprensa local, publicação de jornais próprios, serviços de assistência jurídica e médica, aulas de alfabetização, ações de voluntariado e participação em campanhas eleitorais. Como afirma ainda a referida autora, a União

Homens de Cor “estabeleceu-se nos anos 50 e expandiu-se pelos 60 onde buscava reconhecimento para os negros no âmbito do Estado-nação brasileiro” (idem, p. 232).

No estado de SC esta trajetória da União Catarinense dos Homens de Cor também foi registrada na imprensa local:

[...] existem documentos no Arquivo Histórico de Blumenau, da década de 60, que comprova a existência de um movimento negro liderado pela União Catarinense de Homens de Cor que se propunha a “dar assistência cultural beneficente e apoio moral nos lares de famílias de cor que estão em situação menos privilegiada”. A entidade publicava, inclusive, jornais mensais chamados “O King” e “O Colored”. Um dos exemplares do “O King”, de 1962, com tiragem de dois mil exemplares, traz matérias sobre Pelé, manifesto à raça negra de Santa Catarina, fotos da Miss Mulata da cidade de Santo Angelo (RGS), sobre o poeta negro Cruz e Souza e sobre o desaparecimento do presidente Kennedy, entitulado “Negros de todo o mundo choram a morte do presidente Kennedy” (JORNAL DIÁRIO CATARINENSE, 1988).

Além deste registro, pode-se ainda, encontrar outras informações sobre as atividades de outra entidade que se assume como continuidade desta organização nacional, a UBRAC – União Brasileira dos Homens de Cor, com sede em Florianópolis, segundo pode-se encontrar numa reportagem na década de 80:

A entidade [UBRAC] – declarada de utilidade pública em 1984 – foi criada em Minas Gerais, há 100 anos, e após um grande período de inatividade, foi reconstituída em Lages (Santa Catarina), no ano de 1972, por iniciativa de seu atual presidente, Antônio Cabral dos Santos e outros membros a comunidade negra daquela cidade. O objetivo da União Brasileira dos Homens de Cor – hoje transferida para Florianópolis – é resgatar a cultura negra e conscientizar a comunidade do preconceito e da discriminação a que o individuo da raça negra é submetido das mais diversas formas. (JORNAL DIÁRIO CATARINENSE, 1987).

Esta organização integrante do movimento social negro de Santa Catarina realizará eventos procurando discutir e organizar a população negra no estado, como se verá mais adiante quando falarei das organizações negras na capital.

Na esteira em se historiografar as organizações do movimento negro em Santa Catarina, como também a atuação e a presença negra no estado, dá-se corpo a outra forma organizativa deste movimento em praticamente todos os municípios, os Agentes de Pastorais Negros (APNs), a partir de 1983.

Os APNs, mais conhecida como Pastoral do Negro, surgem em conseqüência da preocupação da Igreja Católica pelo trabalho preferencial pelos empobrecidos. A partir do Concílio Vaticano II, assim como as conferências Episcopais realizadas na América

Latina em 1968, na cidade Medellín (Colômbia) e em 1979 na cidade de Puebla de los Angeles (México). Este processo de discussão coloca a Igreja Católica numa caminhada em direção aos pobres (JOSÉ NETO, 1986, p. 122). Segundo escreve esse autor:

Do Concílio Vaticano II até hoje, houve uma caminhada de abertura da própria Igreja realizando assim sua missão de encarnar-se e de se despojar das atitudes imperialistas, tornado-se servidora. Diante de dilemas seculares, como é o caso da exploração e escravização do negro por um sistema injusto, ela se posiciona através de gestos que amadurecem com o passar do tempo até desabrochar numa atitude que pode ser reconhecida como resultado de um processo sofrido de esvaziamento e de reflexão, chegando assim à conversão que a torna cada vez mais fiel ao seu Mestre e Senhor “que sendo rico, se fez pobre” (2 Cor. 8,9) e por isso mesmo faz apelos à Igreja para que se despoje de toda atitude arrogante, tornando-se servidora dos pobres [...] Este discurso da Igreja Católica aliada aos pobres chega ao Brasil via Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), preocupada em contribuir com a dimensão de uma tomada de consciência destes grupos negros. Assim, a partir de 1983 vai discutir que

[...] nos últimos tempos, da consciência de uma identidade afro-brasileira que encontra suas principais manifestações em iniciativas não somente recreativas e folclóricas, mas especialmente de caráter associativo no campo cultural, social e religioso. A Igreja não pode deixar de estar presente neste processo de tomada de consciência.

Segundo mostra Silva (1987, p. 83) os objetivos dos agentes de Pastoral Negros giravam em torno de alguns pontos, entre eles destaquei os dois primeiros:

1. Ser um espaço criado pelos padres, religiosos, pastores interconfessionais, seminaristas e leigos negros, para refletirem sobre suas atuações como tais. 2. Ter o caráter de sensibilizar toda a pastoral da igreja, diante da prática,

muitas vezes discriminadora, que sofre a comunidade negra.

Assim, alicerçados por um movimento em prol de uma vivência ecumênica e cultural do negro a Igreja Católica realizou um série de ações, que culminaram na efetivação das Pastorais do Negro, e posteriormente do Grupo de União e Consciência Negra, como veremos mais adiante.

Esse tipo de movimento social da população negra, em Agentes de Pastorais se estruturou em várias regiões do estado de Santa Catarina. Tem-se notícia de núcleos que

se efetivaram nas cidades de Criciúma, Itajaí, Lages, Laguna, Içara, Urussanga, Ituporanga e na capital do estado, cada uma delas com diferentes graus e formas de ações sociais com resultados e práticas variadas. No entanto, apesar desta presença atuante em terras catarinense pouco se tem pesquisado sobre os processos organizativos desta entidade do movimento negro em Santa Catarina.

Este percurso da Pastoral do Negro marca parte das memórias dos militantes que atravessaram este período, como relembra Jeruse Romão:

Mas, tinha alguns grupos de Pastoral do Negro em Santa Catarina, que embora fosse uma organização nacional, mas aqui ela não funcionava como uma organização estadual, era muito focalizada. Então assim a Pastoral do

Benzer Belgeler