Este recente espetáculo teve sua estreia em 2013. É o primeiro trabalho solo de Raquel
Scotti Hirson, resultado de sua pesquisa de doutorado, intitulada “Alphonsus de Guimaraens:
reconstruções da memória e recriações no corpo”, defendida em 2012 na Unicamp. Segundo a
atriz, o espetáculo e a pesquisa acadêmica eram maneiras de:
Pesquisar poemas de meu bisavô é uma oportunidade de conhecê-lo por detrás da poesia; ir do poeta à poesia e da poesia ao poeta pelo viés do corpo e da memória, vivida ou não, conhecida ou não. Essa memória é alimentada por uma mistura saudável e prazerosa daquilo que vi, ouvi e li e das lacunas que preencho com minha fantasia corporal, recriando poeta e poesia, como o sabor de determinada comida, capaz de reavivar tantas memórias. (HIRSON, 2012, p.11)
Desta vez, a atriz se propôs a usar a técnica da Mímesis Corpórea não do modo como
ela foi primeiramente elaborada – a partir da imitação de gestos, vozes e imagens estáticas
(fotos e pinturas) – e, sim, criar uma mímesis a partir da palavra:
Não se trata em absoluto de representar a poesia e sim de recriá-la, em um fazer teatral não-representativo. Desta forma adentro em uma questão diferencial da mímesis corpórea: a mímesis da palavra. A palavra em ação pode conter todas as dimensões das conexões de imagens que detona e ainda as dimensões do corpo, jogando com espaço e tempo. A palavra poetizada sugere sons, tensões, ações que tomam outras formas e sugerem novas poesias quando corporificadas. Um emaranhado de recriações que afeta a mim como leitora, que afeta e gera reatualizações de dimensões poéticas, afeta o observador, que por sua vez recria sua poesia. (HIRSON, 2012, p.20)
A atriz explica que elabora o trabalho de mímesis a partir de palavras desde 2000,
durante a criação do espetáculo “Um dia...”.
A palavra, assim trabalhada, vem tomando corpo em minha pesquisa desde o ano 2000, quando da criação do espetáculo “Um dia...”, no qual buscamos dançar contos e poemas que nos remetessem ao corpo em trauma, objeto de nossa busca naquele momento. (HIRSON, 2012, p.20)
Partindo da poesia de “Alphonsus” de Guimaraes, das fotos e relatos de família,
Raquel Scotti Hirson iniciou, sozinha, o processo de criação de seu espetáculo. Durante esse
primeiro momento de criação solo, a atriz relatou em entrevista qual foi o primeiro indício do
traje de cena: a necessidade de utilizar sapatos de salto alto. Apesar de este tipo de sapato ser
considerado feminino, e a temática de sua criação ser seu bisavô – portanto, masculina –, a
necessidade do salto se dava em função da instabilidade que esse tipo de sapato proporciona
ao corpo. Pois, a instabilidade física ajudava a atriz refletir em seu corpo a instabilidade
emocional do seu poeta-bisavô. Ainda sobre os sapatos de salto, a atriz comenta que a mistura
de gêneros (feminino e masculino) lhe agradava, uma vez que as memórias familiares sobre
“Alphonsus” eram permeadas pelo universo feminino das tias da atriz, pessoas que contavam
e recontavam essas memórias.
A partir das fotos de família, Hirson buscou no guarda-roupa
47do Lume Teatro um
lenço, uma calça e um paletó para usar durante o processo de criação. Segundo a atriz, o
paletó encontrado acabou virando parte do figurino final, pois, tinha características que ela
não encontrou em outros ternos. Uma das características encontradas por Hirson no terno era
a cor escura que para a atriz remetia às cores das fotos (em preto de branco) da família. Outro
fator da vestimenta que agradou a intérprete foi o tamanho do terno: a atriz buscava um terno
que fosse grande – para que, em certos momentos, ela pudesse parecer uma criança vestindo
roupas de adultos – mas não a ponto de sempre transmitir essa imagem. Tinha que ser um
tamanho mediano.
Assim como apontamos em “Café com queijo”, mais uma vez temos um traje que
permite ser transformado pelo ator em cena, reiterando o conceito growtoskiano de figurino
dentro do Teatro Pobre. O sentido ambíguo do terno foi resolvido pela mímesis da atriz em
cena. O signo do traje fica sob o controle da atriz, que, oras, emite com sua presença o sentido
de uma criança usando roupas de adulto, oras emite a presença do homem “Alphonsus”
usando terno.
Na figura 55, podemos ver uma fotografia do espetáculo no momento em que Raquel
faz uma criança. Na cena a menina veste o terno e brinca com o lenço, ambos encontrados
pela atriz no acervo de figurinos do Lume Teatro.
Figura 55 - Raquel Scotti Hirson em “Alphonsus” (Foto: Laura Françozo).
Figura 56 - Alphonsus de Guimaraes (fonte: <http://www.portalmariana.org/cidades/ouro- preto-mg/escritores-ouro-pretanos-sao- homenageados/#.VMJW5YFdVyI > Acesso: 27 fev 2015
Figura 57 - Raquel Scotti Hirson em Alphonsus (Foto: Laura Françozo).