Kumluca Sağlık Bilimleri Fak.(2019) (KYS) Fen Bilimleri Fakültesi
PG 4.1.3 “ Ticarileşen patent, faydalı model veya tescil sayısı”
Depois de haver discutido como a função enunciativa, trabalhada n'A arqueologia do
saber de Michel Foucault, pode ser pensada para tratar a circulação do discurso midiático em
nossa sociedade, é imperativo também que reflitamos juntamente a um importante passo tomado por Jean-Jacques Courtine ao pensar sobre esta mesma obra foucaultiana.
Em seu texto de 1981, Courtine se mostra bastante preocupado com as bases epistemológicas do que constituía o campo de atuação da Análise do Discurso: ao revelar como a noção de condições de produção tem um caráter bastante instável nos estudos visitados pelo autor, indicando uma superação deste conceito em proveito do de formação discursiva, tomado de empréstimo a Foucault, Courtine realiza uma empresa que vai se voltar sobretudo ao funcionamento de textos escritos e o modo como neles se podem realizar a retomada de domínios de memória.
Neste sentido, conforme pudemos discutir bastante brevemente ao apresentar a importância do caminho intelectual traçado por Jean-Jacques Courtine, a influência de Saussure é decisiva para o modo como se conformam os estudos em Análise do Discurso, mesmo em seus momentos inciais. Saussure, também, é retomado por Courtine como um grande mote para iniciar a discussão sobre a circulação massiva de imagens em seu funcionamento semiológico.
No entanto, Saussure é misterioso no que se refere a delimitação da semiologia. Não apenas por não fazer parte do escopo que o autor buscava contemplar naquele momento, mas também porque as especificidades de tal ciência ainda se estavam por delimitar. Assim, em um primeiro momento, pensar a semiologia proposta por Saussure para tratar as imagens no discurso
político é trabalhar juntamente ao pensamento deste autor e, ao mesmo tempo, opor-se ao que foi proposto no Curso de Linguística Geral.
No Curso, para Saussure, a tarefa de extrema urgência era sem dúvida a de esquadrinhar o escopo de atuação da linguística, afazer que em determinados momentos foi ao encontro dos contornos do que seria uma ciência semiológica. No Curso de Linguística Geral, duas passagens bastante breves se referem especificamente à semiologia, tornando a sua interpretação e recepção acontecimentos ao mesmo tempo singulares e enigmáticos. Entretanto, se compreendidas em relação ao que entendemos ser o propósito maior deste texto, estes subsídios fornecem importantes pistas para a Análise do Discurso.
Saussure, sem dúvida, não detinha as mesmas preocupações com as quais hoje um analista de discurso se depara. Ainda assim, em um momento bastante singular na história das ideias, parece-nos que Saussure ao realizar tal corte compreendia desde então a importância de delimitar não apenas aspectos do estatuto semiológico que as línguas naturais detêm, mas também o funcionamento deste em outros sistemas simbólicos, que, claramente, também fazem parte de nossa experiência como sujeitos. A língua, conforme comentamos, é apenas o principal destes sistemas, e não gratuitamente será aquele escolhido pelo grande mestre genebrino para mostrar como funciona uma semiologia que desde então o autor visualizava e, obviamente, poder delimitar o campo de atuação de uma linguística geral.
Ainda que, neste mesmo texto, Courtine evidencie um consequente afastamento do pensamento de Saussure, o enfoque proposto para tratar a emergência de imagens, assim, conservou em sua designação a questão da semiologia para remeter-nos a Saussure, bem como à problemática em relação à significação que tal filiação encerra: uma vez que Courtine inscreve sua atuação e interesse em uma problematização também cultural e antropológica, é importante esta marca da reflexão sobre a língua e a semiose colocadas por Saussure, bem como pela Análise do Discurso. A questão histórica, por sua vez, remete-nos sobretudo a Michel Foucault, em uma incessante tentativa de investigar a fundo o interesse que textos como a Arqueologia do saber reservam para a análise destas emergências.
Pensando nisso, os caminhos traçados por Courtine mostram-nos que o corpo emerge como parte de uma história das sensibilidades e dos gestos, em um nível cuja delimitação o
próprio corte saussureano já havia possibilitado algumas nuanças, ainda que a filiação a Saussure não pareça se estender além desta discussão introdutória. Courtine mostra, também, que na história das ideias a emergência do corpo como objeto de saber parece ter-se aliado a uma manifestação do inconsciente, estando, assim, “inscrito nas formas sociais da cultura” (COURTINE, 2013:7), o que marca uma preocupação da Análise do Discurso desde seu nascedouro: a relação entre o inconsciente e o funcionamento dos diferentes sistemas linguísticos. Comentando um aprendizado em relação a seu texto de 1981, Courtine diz que o discurso político “não é apenas o texto. Ele é bem mais que o texto. É um fragmento de história. E as palavras do texto, à medida em que são atravessadas pela história, cessam de ser simples unidades linguísticas” (idem, p. 18).
Courtine mostra, então, que este sujeito está diante de um fluxo incessante de informações e imagens, sobretudo se pensarmos a dinamicidade e o poder que detêm as mídias hoje. Neste sentido, o corpo do homem político faz parte do domínio de objetos de que se pôde falar quando se comentou a questão da regulação da mídia, bem como da construção de saberes (e da recusa de outros) neste mesmo campo. Em nosso trabalho, da mesma maneira como a materialidade linguística foi um lugar privilegiado para a descrição de efeitos de sentido, a imagem do homem político na mídia representa também grande interesse, sobretudo para a construção de efeitos de verdade: a imagem do corpo de Dilma Rousseff na FSP, por exemplo, manifesta determinados sentidos, que podem ou não estar em consonância com o que o verbo exprime.
Assim, os efeitos que tais imagens veiculam são, sem dúvidas, um importante problema para olhar-se a partir da Arqueologia: conforme nos ensina Foucault (2008), todo enunciado se inscreve em uma rede, sendo sua existência sempre dada em relação a outros, como é precisamente o caso dos domínios associados que a um dizer se associam. Também, estamos diante de um enunciado raro, dadas as muitas possibilidades de emergência que poderiam se dar em seu lugar. Ora, com a emergência de imagens, tais constatações não são menos verdadeiras: em relação à última delas, por exemplo, quando emerge uma figura de Dilma Rousseff na FSP, sem dúvidas não estamos diante da única imagem que foi possível aparecer naquele momento. Trata-se, antes de tudo, de determinado emprego realizado dentre uma infinidade de possibilidades de dizer.
Da mesma maneira, a imagem do homem político se inscreve em uma série de imagens. Neste breve exemplo, a imagem de Dilma se associaria imediatamente à anterior e posterior emergência do corpo de outras figuras públicas, bem como às possibilidades de dizê-lo em nossa sociedade. Estas condições de emergência são cambiantes em relação à dispersão temporal: antes de que houvesse meios massivos como a televisão ou a FSP, não estávamos diante das mesmas relações possíveis entre a emergência da imagem do homem político e a construção de efeitos de sentido. Esta série de imagens a que um enunciado imagético se pode relacionar, assim, é o que evidencia a historicidade que se faz presente na interpretação das imagens.
Estamos diante de uma discussão, assim, que têm relação direta com o modo pelo qual Courtine propõe tratar a intericonicidade, pois remetem-nos a uma série de imagens que pode ser também efetiva na circulação de um enunciado imagético. Assim, conforme nos ensinou Foucault, estamos diante de enunciados dispersos e de uma possibilidade de emergência infinita, mas que é constrangida pelo modo como em uma determinada cultura já puderam ter sido objetos de discurso e, logo, de desejo e de poder.
Na atualidade, está mais evidente a emergência do corpo como um objeto de discurso e como uma superfície de inscrição de discursos, que aparece, assim, impregnado de história. Courtine, então, relata como se deu o interesse que lhe fez retornar à Arqueologia do saber, bem como aos textos subsequentes de Foucault que lhe pareciam também sempre remeter ao corpo. Trata-se, assim, ao mesmo tempo do corpo como um lugar em que os discursos que circulam em uma sociedade e de um objeto que reproduz e transforma tais relações, colocando-se nestes jogos de vontades e desejos, produzindo saberes específicos ao mesmo tempo em que outros são negados.
Em suma, Courtine é uma figura singular nos desenvolvimentos da Análise do Discurso: ao mesmo tempo em que o autor faz parte do surgimento da disciplina, tendo participado ativamente na construção primeira de diversos conceitos, sua ação é central nos posteriores tateamentos. Neste sentido, finda aqui um capítulo teórico que se relaciona a tal percurso, mostrando as mudanças necessárias pelas quais passou a disciplina para que ela pudesse abarcar outros objetos, como a emergência massiva de imagens em nossa sociedade.
conceitos trabalhados por Michel Foucault (2006; 2008), Michel Pêcheux (1995; 2008; 2010) e Jean-Jacques Courtine (2009; 2013), valendo-nos dos subsídios discutidos em seus trajetos para descrever regularidades discursivas na instabilidade das emergências dos dizeres controle social
da mídia, regulação da mídia, democratização da mídia e regulação econômica da mídia, que
foram comentados em larga escala na FSP. Dada a densidade de tal circulação massiva, a parte inicial do capítulo quatro se centra em descrever como é possível ter acesso ao corpus em seu original, bem como mostra apontamentos para a leitura desta seção analítica e direções para eventuais investigações neste meio massivo.