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Através das canções abaixo, buscamos refletir acerca de como a metadiscursividade se manifesta no Discurso Literomusical Brasileiro para Crianças e de como esse fenômeno contribui para constituir esse discurso enquanto uma prática discursiva lúdica voltada para o público infantil. Tomemos, portanto, as canções a seguir, atentando para os trechos grifados.

A pulguinha pula a beça e belisca o seu pé / Do pé pula pra cabeça, vai fazendo cafuné / A pulguinha tão ligeira pula logo pra barriga / Tudo é uma brincadeira, você quer ser minha amiga / Da ba rriga pro na riz / Do nariz pra bochecha / Da bochecha pro umbigo / Do umbigo pro joelho / Do joelho pro pescoço / Do pescoço pra perna / Da perna pra orelha / Da orelha pra mão / A pulguinha pula a beça e belisca o seu pé / Do pé pula pra cabeça, vai fazendo cafuné / A pulguinha tão ligeira pula logo pra barriga / Tudo é uma brincadeira, você quer ser minha amiga (“Pulguinha”, Paulo Tatit / Edith Derdyk, por Palavra Cantada, 1996).

A brincadeira da pipoca já vai começar / Vai ser um ploc, ploc, ploc, ploc sem parar / E quem pular sozinho, não vai estourar / Mas se me der a mão, vamos juntos pipocar / Pipoca pra lá, pipoca pra cá / A turma da pipoca prepa rada já está / Pipoca pra frente, pipoca pra trás / No ploc, ploc, ploc, todo mundo agora vai!!! / Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc / Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, plá / Ploc,ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, / Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, plá / Quão bom e quão maravilhoso é / Que os irmãos vivam em união / A brincadeira da pipoca vai continua r / Vai ser um ploc, ploc, ploc, ploc sem pa rar / E quem

pular sozinho, não vai estourar / Ma s se me der a mão, vamos juntos pipoca r / Pipoca pra lá, pipoca pra cá / A turma da pipoca prepa rada já está / Pipoca pra frente, pipoca pra trá s / No ploc, ploc, ploc, todo mundo agora vai!!! / Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc / Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, plá / Ploc,ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, / Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, plá / Quão bom e quão maravilhoso é / Que os irmãos vivam em união (“Ploc, ploc”, Josias Teixeira / Júnior Maciel, por Aline Barros, 2014).

Vamos brinca r, tirar o pé do chão(é!) / Vamos brincar, tirar o pé do chão / Já começou a nossa brincadeira / É pique, pique alto / É pique, pique alto / Se tocar o pé no chão, cuidado! / É pique, pique alto / É pique alto / Você tem que escolher um lugar(é!) / Bem longe e no alto pra ninguém te pega r / Depois de um tempo tem que troca r(vai!) / Correr pra outro canto, tem que se ligar / Se bobear, vão te pega r / Corre, corre, muda de luga r / Tem que fugir! Tem que pegar! / Vamos brinca r! / Já começou a nossa brincadeira / É pique, pique alto / É pique, pique alto / Se tocar o pé no chão, cuidado! / É pique, pique alto / É pique alto /Não pode muito tempo espera r(não!) / Se fugir correndo, consegue escapa r / Você tem que sair do lugar(sai!) / Se não o pegador é quem vai ganhar (“Pique alto”, Vanessa Alves / Ary Dias Sperling / Leonardo Reed Sperling, por Xuxa, 2007)

Nas três canções, verificamos, através das partes em destaque, a ação do locutor tematizando o seu próprio dizer. Trata-se de uma realidade em que o enunciador faz referência à própria enunciação, particularmente, à cenografia ou cena construída textualmente a qual compreende uma brincadeira. Configuram-se, dessa forma, as três canções como metacanções.

A função da metadiscursividade nos casos referidos é construir uma identidade lúdica da enunciação, apresentando a canção de modo ainda mais articulado com o universo lúdico infantil, ou seja, como uma brincadeira. Desse modo, o enunciador direciona os efeitos de sentido que se quer instaurar, define a função a que destina a canção e ainda ofusca a cena genérica, canção.

Ao ser apresentada como uma brincadeira, a enunciação, impreterivelmente, busca se associar ao conjunto das brincadeiras cantadas culturalmente conhecidas pelo público infantil, como as cantigas de roda e os jogos de mãos. Nesse sentido, entendemos que o enunciador está legitimando condições enunciativas que extrapolam os limites do próprio discurso a partir do qual enuncia, o discurso literomusical. Essas condições apontam para um discurso ainda mais amplo no qual o discurso literomusical é contemplado. Aludem, na verdade, ao discurso lúdico para crianças, visto que se referem não a elementos próprios do discurso literomusical (gênero canção, instrumentos musicais, intérprete etc.), mas à brincadeira, atividade que perpassa as práticas discursivas lúdicas destinadas ao público infantil.

Ao denominar a enunciação como uma brincadeira, o locutor, ao mesmo tempo, demonstra consciência acerca do seu próprio discurso, valida esse discurso como sendo aquele que é legítimo para o público infantil e procura estabelecer ancoragem no repertório cultural lúdico das crianças, buscando garantir, assim, a adesão do público referido. Além disso, atesta que a cenografia, além de ser construída/mostrada textualmente, também pode ser dita.

Segundo Brougère (1998), o jogo pressupõe uma metacomunicação que o identifica como tal. Essa comunicação específica pode ser verbal ou não-verbal, implícita ou

explícita. Vai do uso de um determinado tempo condicional lúdico (“era uma vez...”, “eu era um gato...” etc.) ao simples gesto de estender um brinquedo.

Julgamos, assim, que a metadiscursividade que aparece, por exemplo, nessas canções constitui-se, no âmbito do discurso lúdico, em uma espécie de metacomunicação verbal explícita que denota: isto é um jogo, é uma brincadeira. Portanto, aquilo que é dito na enunciação deve ser compreendido a partir de uma perspectiva diferente daquelas que orientam as situações utilitárias do cotidiano.

As canções que trazem um metadiscurso que as classifica como brincadeiras apresentam, geralmente, essa identificação já no próprio título, o que favorece, desde início, a criação de uma expectativa lúdica em torno daquilo a que a canção se propõe. Alguns títulos são mais explícitos na revelação da brincadeira, como “Ciranda49” e “O que é o que é?50”, que compõem a obra da Palavra, “Pula-pula51” e “Dança do pinguim52”, presentes no repertório

49

Deixa de manha de noite, de dia / Toda criança diz que tudo é seu / Ei menino Ei menina / Larga disso lagartixa / Que nessa ciranda o mundo inteiro é meu é seu é meu é seu / Como uma vez tinha um tatu bolinha / Mas outra vez nasceu um monte de irmãos / Mais o amigo, mais a prima, o colega, a vizinha / E nessa ciranda tatu bolinha virou bolão, balão, bolão, balão” (“Ciranda”, Sandra Peres / Zé Tatit, por Palavra Cantada, 1996). 50 “O que é o que? Não desgruda do seu pé, / cresce, engorda e estica. Vou te dar mais uma dica. / Não tem cheiro, nem sabor. Não tem peso, nem valor. / Não tem brilho, mas se vê. Não consegue se esconder. / caminhando pelo chão anda sem lhe dar a mão. / E na sua brincadeira é super companheira. o que é o que é? Se parece com você. / Tem até um gesto igual, mas é bidimensional. / Se você ainda não descobriu. / Eu garanto que você já viu / E agora o que eu vou dizer / com certeza vai esclarecer. / Só na luz é que ela dança. / dança rumba, dança samba. / dança o que você dançar, / só você é o seu par. / O que é o que é?” (“O que é o que é?”, Paulo Tatit / Edith Derdyk, por Palavra Cantada, 2005).

51

Na, na... / Hoje é dia de brincar, / Pular, dançar e cantar / Vai ter festa no parquinho / Com pipoca e guaraná, / Pode aparecer a festa já vai começar / Vem brincar de pula-pula / Com a nossa turma. / Pula, pula, pula, Vem pra nossa turma! / Pula, pula, pula, Com Jesus é mais legal! / Pula, pula, pula, Vem brincar de pula! / Pula, pula, pula, Vem pra nossa turma! / Na, na, na, na, na... He, hei. / De cabeça para baixo na montanha-russa, / Dá um frio na barriga, / Curto a cada instante, / Gira-gira sem parar, / Com Deus, eu sou gigante, / Vem brincar de pula- pula / Com a nossa turma” (“Pula-pula”, Silas Júnior, por Aline Barros, 2005)

52

É assim, assim / Essa é a alegria do Senhor / Dentro de mim / É assim, assim / Eu vou te ensinar / Como é a dança do pinguim / Sabe o que inventaram agora? / Eu sei! / Tá rolando o maior buchicho! / Eu já ouvi! / Olha que esse papo é da hora! / Festa de esquimó só rola isso! / Arrasto o pezinho, quase levantando vôo / Batendo as asinhas, nesse balanço é que eu vou / Esquerda e direita / Assim, assim, / Pra lá e pra cá / Olha, que maneiro! / Ninguém vai querer parar!” (“Dança do pinguim”, Solange César / Davidson, por Aline Barros, 2005).

de Aline Barros e “Pique-alto53” e “Pararaparati54”, interpretadas por Xuxa. Outros títulos,

como “Pulguinha” e “Ploc, ploc”, por exemplo, revelam pouco ou nada sobre as canções

configurarem-se ou não em brincadeiras.

A seguir, mostramos uma outra identidade da canção construída por meio da metadiscursividade.

Benzer Belgeler