Y. Ö.K DOKÜMANTASYON MERKEZİ TEZ VERİ FORMU
II. BÖLÜM
2.3. Baudrillard’ın Tüketim Toplumu ve Simülasyon Evreni Teoris
2.3.2. Simülasyon Evreninde Nedensiz Şiddet ve Bedenin Dönüşümü
2.3.4.2. The Devils Advocate Tüketim Toplumu ve Seçim
À falta de uma tipificação que criminalize de maneira mais ostensiva o abuso sexual se soma à crítica sobre a falta de consenso em torno do conceito. O abuso
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sexual, assim como outras violências, tem sido objeto de pesquisa para diferentes áreas do conhecimento, dentre elas, a criminologia, psicologia, psicanálise, sociologia. Para Flores (1998), a variedade de campos que se detem sobre o assunto traz riqueza para o debate, mas também contribui para a diversidade de entendimentos. Exemplo são as definições adotadas por duas atuantes organizações brasileiras que se ocupam do tema: o Centro de Estudos e Atendimentos Relativos ao Abuso Sexual da Faculdade de Medicina da Faculdade de São Paulo, e a Agência de Notícias dos Direitos da Infância. Para a primeira, identificada pela sigla CEARAS, “o abuso sexual é todo o relacionamento interpessoal no qual a sexualidade é veiculada sem o consentimento válido de uma das pessoas envolvidas” (FAIMAN, 2007, p. 27). Já para a Andi:
situação em que o adulto submete a criança ou o adolescente, com ou sem seu consentimento, a atos ou jogos sexuais com a finalidade de estimular-se ou satisfazer-se, impondo-se pela força física, ameaça ou pela sedução, com palavras ou com a oferta de presentes. (ANDI, 2003, p. 27).
O primeiro conceito, utilizado pelo CEARAS, não situa esta violência como sendo praticada por adultos contra crianças. Pressupõe sim uma relação de subjugação, na medida em que um impõe a outro o seu desejo, e que pode acontecer com alguém que se sinta ou esteja numa relação desproporcional de força em relação ao outro. Já a Andi trabalha com a premissa de que o abuso sexual se refere a um jogo de poder praticado sempre por um adulto contra uma criança. Como não há, pela definição, uma sinalização clara sobre qual idade se está falando, pressupõe-se que o enquadramento seja o previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que classifica como criança quem tem até 12 anos de idade e, como adolescente, 18 incompletos. Flores (1998) traz exemplos de que estas definições podem dar mais ênfase ao abusador, por exemplo, ou ainda se preocupar em detalhar como este abuso pode ser impingido ao outro. A organização internacional a Nacional Center of Child Abuse & Neglect dos Estados Unidos, tem a seguinte definição de abuso:
Abuso sexual envolve contatos ou interações entre crianças ou adolescentes e adultos, quando a criança é usada para a estimulação deste ou de outros adultos. Também pode ser cometido por adolescentes ou crianças, quando estes são significativamente
mais velhos que a vítima, ou quando o abusador está em posição de controle de poder ou controle sobre a criança. (MARCHIORI apud FLORES, 2007, p. 27).
Já para a ASAR, uma associação de vítimas de abusos sexuais localizada no Canadá, a violência praticada só pode ser entendida como abuso se a vítima tiver menos de 16 anos de idade, e pressupõe contato sexual das mesmas com adultos: “Inclui, mas não se limita a: solicitação de contato físico, estupro oral ou genital, forçar ou assistir ou participar de ato sexual, a assistir a vídeos pornográficos, a posar para fotos eróticas, manipulação, exibicionismo, sodomia e incesto” (FLORES 1998, p. 27) A amplitude e variações de abuso incluem até mesmo o assédio sexual:
A troca e venda de material publicitário de conotação sexual na internet, o tráfico de crianças ou adolescentes para outras cidades ou países com propósitos sexuais, o voyeurismo, que versa na observação de atos ou de órgãos sexuais de outra pessoa; o exibicionismo que é a exposição intencional a uma criança de seus genitais, com a intenção de chocar a vítima; os telefonemas obscenos que podem ocorrer quando um adulto gera ansiedade em crianças e adolescentes. Podem ocorrer ainda exposição de vídeos pornográficos e o assédio sexual através de proposta de contato sexual incluindo flagelação, tortura e surras (MIRANDA E ÂNGELA, 2007, p. 169).
Flores (1998) entende que a variação de critérios utilizada para conceituar esta violência acaba por gerar também uma diversidade de indicadores no que se refere à prevalência do abuso sexual34. Outra conseqüência é de ordem semiológica. É pela mídia que os casos relacionados a abuso saem da dimensão privada para a pública e ganham significação social. A falta de consenso sobre a definição torna mais difícil o agendamento do tema na mídia, de acordo com a Andi:
Essa polifonia de mensagem pode fazer parecer que nós estamos trabalhando, nós estamos tendo ocorrências de questões aparentemente diferentes quando na verdade elas são a mesma coisa, ou o contrário também. Você nomeia coisas diferentes com a mesma questão, então de novo, a importância da terminologia tem a haver com você reforçar a agenda junto à sociedade. (Apêndice 4-Entrevista com Guilherme Canela em 06.12.07).
34 Compararam pesquisas produzidas a partir de critérios mais amplos (incluir adolescentes como
abusadores, assédios sem contato físico, etc.) e constatou que as freqüências variavam entre 51% e 16% (freqüência populacional estimada em 20%). Já entre os que optaram por critérios mais restritos (limites de três anos de diferença entre vítima e agressor, limites de idade abaixo de 18 anos para as vítimas) o intervalo foi de 22% a 1% (média estimada em 11%).
O conceito de pedofilia se enquadra nesta polifonia. Diego Araújo da Zero Hora (Apêndice 4) diz que o veículo não normatizou o emprego da palavra, e portanto, não tem regra para classificar o abusador de pedófilo35. O jornalista Carlos Etchichury (ZH) explica o critério que utiliza para adotar o termo nas narrativas que constrói:
Eu não sei se isso está normatizado no Código Penal ou no ECA, eu acho que não, mas tanto quanto eu sei qualificar, todo o pedófilo é um abusador mas nem todo o abusador é um pedófilo. Pedófilo é o cara que muitas vezes nem molesta a criança tocando, né, mas ele se utiliza dela, ele fotografa, ele olha na internet, ele pede pra dar uma voltinha, entende. O abusador não, o abusador pode abusar uma adolescente de 13, 14 anos, ele não fotografa mas abusa, então essa é a diferença que eu estabeleço e eu te confesso que não sei se isso está sistematizado em algum lugar mas eu tenho impressão
que sim. (Apêndice 4-Entrevista com Carlos Etchichury em
02.02.08).
A confusão em torno dos sentidos atribuídos na categoria pedófilo foi identificada por Landini (2006) ao pesquisar as notícias que envolvem pedofilia e pornografia infantil. A autora constatou que, via de regra, os jornais consideram pedófilo aquele que possui características36 que em nada tem a ver com doença mental, pressuposto que caracteriza a pedofilia. A pedofilia é representada pelo item F 65.4 na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde. Pela OMS, pedofilia é definida pela "Preferência sexual por crianças, quer se trate de meninos, meninas ou de crianças de um ou do outro sexo, geralmente pré-púberes ou não" (Wikipédia, 2008). Se o sujeito tiver 16 anos ou mais e tiver esta preferência por crianças na pré-puberdade (13 anos ou menos), ele é considerado pedófilo. (DUNAIGRE, 1999). A lei brasileira não possui o tipo penal "pedofilia". Entretanto, a pedofilia, como contato sexual entre crianças pré-púberes ou não e adultos, se enquadra juridicamente nos crimes de estupro e atentado violento ao pudor como foi mostrado no quadro anterior 1. Ou seja, a pedofilia não está situada como questão legal, e sim como doença. Atinge em média 1% da população adulta mundial e consiste em uma atração exclusiva por crianças, ou
35 Exemplos de notícias demonstrando o fato são revelados no capítulo 4.
36 A autora identificou que os jornais atribuíam ao agressor pedófilo atributos semelhantes, tais como:
não existência de parentesco ou conhecimento por parte da vítima e do agressor, idéia de participação em rede. Questões que serão abordadas no capítulo 4.
seja, não é considerado pedófilo aquele que se excita com adultos e crianças. Também não é necessário ter cometido violência sexual para ser dado como pedófilo.