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The archive that works against its own grain

CHAPTER 1: AN ENDEAVOR TO COMPREHEND THE

1.2 The archive that works against its own grain

Ao tratar da enunciação, importante apontar que, para Mikhail Bakhtin, a natureza dialógica é um produto da relação entre dois indivíduos organizados socialmente e que, portanto, ocorre em um contexto socioideológico.

Sendo assim, o sentido não está localizado na palavra, no sujeito ou nos interlocutores - ele é resultado da ligação entre locutor e receptor, produzido por meio de signos. Na visão do autor russo, “a verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal realizada através da enunciação” (1992:123).

O caráter de diálogo reflete correntes interlocutivas que se compõem e decompõem numa dimensão social complexa. Não existe uma instância fundadora: toda linguagem é derivada de outra numa espécie de retroalimentação. Para o autor, é nela que a comunicação social aparece mais clara, pois a palavra é o modo mais puro de relação.

A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua noção de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a esta função, nada que não tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social. (BAKHTIN, 1992:36)

A noção de constituição dos sentidos não se refere apenas à capacidade nomeadora, mas também às interfaces históricas e sociais. Neste momento, é oportuno resgatarmos o filósofo Ludwig Wittgenstein, membro da corrente de tradição pragmática da filosofia analítica inglesa, apenas para reforçar o conceito utilizado, segundo o qual o importante é a superação do olhar metafísico da linguagem como instância nominativa e a adoção da ideia de jogo entre emissor e receptor.

Para Wittgenstein, o sentido não se constitui no “cá”, na capacidade puramente nomeadora das palavras, nem no “lá”, no plano da natureza, e sim no jogo entre o lugar da linguagem e a organização da sociedade. As significações nascem no movimento entre o “cá” e o “lá” em função de contextos e usos. “Todo signo, sozinho, parece morto. O que lhe confere vida? – Ele está vivo no uso” (2005:173). De acordo com o filósofo, a linguagem não é um mecanismo fixo, fechado, ela está em permanente mudança, “podemos dizer, novos tipos de linguagens, novos jogos de linguagem, surgem, outros são esquecidos. A expressão ‘jogo de linguagem’ deve salientar que falar uma língua é parte de uma atividade” (2005:27).

Na visão do autor, a própria língua apresenta inúmeras variações, que seriam sublinguagens. Elas permitem a elaboração de consensos comunicacionais, ou seja, a possibilidade de transição de conceitos, palavras e ideias. O autor entende o consenso como algo provisório, que pode se abalar a qualquer momento.

Os “jogos” de Wittgenstein e o dialogismo de Bakhtin são conceitos direcionadores da pesquisa, principalmente por estarem ligados aos processos do jornalismo e publicidade no fazer em sala de aula.

Antes de verificar a dimensão das ações pedagógicas no contexto escolar em relação às referidas linguagens, resgatamos a noção histórica de gênero, conceito já explicitado anteriormente por Helena Brandão e que, desde os gregos Platão e Aristóteles, é uma constante preocupação. A distinção de lírico, dramático e épico, na concepção platônica, como as três formas fundamentais da Literatura é uma classificação válida até os dias atuais.

Eles seriam formados, respectivamente, por obras em que: somente o autor fala; a fala se restringe aos personagens; ambos têm direito ao uso da palavra.

A retórica antiga também classificou três tipos discursivos, de acordo com as circunstâncias em que são pronunciados: deliberativo, judiciário e epidítico. O primeiro, dirigido a uma espécie de auditório, assemelha-se ao discurso político; no judiciário, o orador acusa ou defende uma ideia; o último é uma mensagem de elogio ou repreensão às atitudes dos cidadãos.

Bakhtin em sua obra Estética da Criação Verbal, expõe a oposição entre a concepção da língua e os meios.

Para o autor, qualquer enunciado (oral ou escrito) considerado isoladamente é individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso o que denomina gêneros do discurso. Segundo o russo, estes devem ser compreendidos como um modo de conceber a vida, formados por três importantes componentes: conteúdo temático, estilo e construção composicional, diretamente ligados aos valores e funções sociais do processo de comunicação.

O querer dizer do locutor se realiza acima de tudo na escolha de um gênero do discurso. Essa escolha é determinada em função da especificidade de uma dada esfera da comunicação verbal, das necessidades de uma temática (do objeto de sentido), do conjunto constituído de parceiros. (BAKHTIN, 2000:231)

Valendo-nos da ótica bakhtiniana, é possível afirmar que, apesar de um conhecimento abrangente da língua, alguns indivíduos acabam desamparados em certas situações comunicacionais por não exercerem o domínio, na prática, de determinados gêneros em uma dada esfera.

Bakhtin distingue os gêneros do discurso em dois tipos. Os primários ele define como “simples”: podem ser exemplificados como diálogo, carta, situações de interação face a face, e são constituídos em contextos de comunicação ligados ao cotidiano. Dos secundários, que ele considera mais “complexos”, podemos citar como exemplos: o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico; a complexidade aparece em circunstâncias de uma comunicação cultural, relativamente mais evoluída, principalmente escrita; acrescenta: “durante o processo de formação esses gêneros absorvem e transmutam os gêneros primários” (2000:281).

Em outras palavras, a conceituação bakhtiniana acerca da questão genéricaé de grande valia para os diálogos com a pesquisa. No entanto, incluímos pensadores contemporâneos que analisam o assunto na instância escolar caso da professora Helena Nagamine Brandão e dos agrupamentos propostos pelos teóricos de Genebra. Estes estudiosos, por sua vez, fundamentados em Bakhtin, elaboram diversificadas organizações e modos de leitura da prática pedagógica quanto à tipologização dos gêneros na escola.

Benzer Belgeler