E quem é o autor do Salmo 23? Este é um assunto complicado de responder concretamente. Vejamos porquê. Um antigo costume era atribuir escritos significativos, neste caso, os salmos, aos personagens relevantes da história de Israel. Esta é uma das razões pela qual se atribui a Davi a autoria do Salmo. Todavia no momento basta dizer que o Salmo 23 não é de autoria de Davi, e sim uma homenagem a ele.
Um detalhe a observar é que escribas e levitas estavam envolvidos diretamente na cotidianidade litúrgica e cultual do templo. Eles colecionavam canções religiosas advindas tanto de dentro quanto de fora de Jerusalém, surgindo assim uma espécie de folheto que servia de material litúrgico.94
94 Erhard Gerstenberger, Psalms – Part 1 with an introduction to cultic poetry – The forms of the Old Testament literature, p.27.
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Estas personagens responsáveis pelo culto, especialmente levitas, testemunhavam numerosas experiências dos crentes que ali se encontravam. Neste nosso caso, a experiência de um asilado no templo, que tinha recebido um oráculo de inocência e salvação. É possível que esse fato de vida tenha marcado a sensibilidade de algum levita, intelectual orgânico, e lhe provocara inspiração poética.95
2.7.3. Aproximação ao contexto do Salmo 23
Considerando nossa teoria, a de que o Salmo 23 é um texto de asilo, vamos fornecer algumas informações que ilumine a nossa pesquisa. O principal, neste momento, é repensar o templo de Jerusalém como lugar de refúgio para pessoas que, sendo inocentes, eram perseguidas e ameaçadas de morte. É oportuno abrir espaço para esta exposição, pois ela condiciona diretamente o eixo transversal desta poesia.
2.7.3.1. O templo de Jerusalém como lugar de asilo
Neste trabalho, quando falamos do templo de Jerusalém nos referimos ao primeiro santuário localizado no monte Sião, construído na época do reinado de Salomão, ao redor do ano 952 antes de Cristo, que depois se converteu no centro religioso de todo israelita (1Rs 6).
A presença da arca da aliança no templo foi propicia para que este ganhasse honra e fama: “os sacerdotes conduziram a arca da aliança de Javé ao seu lugar, ao Debir do templo, a saber, ao Santo dos Santos, sob as asas dos querubins” (1Rs 8,6). Estes querubins eram figuras que representavam o trono divino (1Sm 4,4).
Toda a simbologia da arca, especialmente as duas tábuas, que remetiam ao período mosaico (1Rs 8,9), evocava o lugar da misericórdia e do senhorio real de Javé, de onde recebia a exp iação e emitia a sua vontade (Ex 25,22; 2Sm 4,4).
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Possivelmente, segundo a tradição, desde os inícios esta arca era conduzida encabeçando a marcha dos israelitas. Era o símbolo ambulante da presença de Javé caminhando entre eles, partindo tanto para as guerras como para os lugares de fertilidade e repouso (Nm 10,33; 14,44).
A mobilidade local da arca, desde este começo, foi o motivo para que estudos mais recentes duvidassem do acerto de sua centralidade no templo de Jerusalém. Para essa afirmação, considerou-se a existência de santuários portáteis entre as tribos pré-islamicas da Arábia, que podia refletir o sentido verdadeiro da arca da aliança dos israelitas.96
Na realidade, a arca no templo, seja pela influência da herança nômade ou pela herança da terra de cultivo, foi-se convertendo para os israelitas na visualização da morada de Javé.97 A consciência da atmosfera divina no santuário vem justificada desde os primórdios. A tradição considerava que o mesmo Javé teria escolhido esse lugar para colocar o seu nome, fixar a sua residência, e facilitar o encontro (Dt 12,5; Sl 132,13).
Esta questão, da existência da presença de Javé no templo, tem uma explicação razoável por Antonius Gunneweg. Ele considera que o templo foi entendido como símbolo visível da misericórdia e do favor de Javé. Ou seja, com este santuário, o Deus dos israelitas facilitava seu encontro com seus fiéis, ali se deixava achar para aceitar as oferendas, atender as orações e falar, mediante pessoas escolhidas. Para este autor, isso significa que o templo não reduzia nem controlava a presença de Javé.98
Poderíamos considerar que o templo era parte da pedagogia humano-divina. Era como uma ponte de união entre as esferas profana e sagrada, como núcleo de intersecção entre o transcendente e imanente, onde o terreno e o celeste se concentravam numa
96 John Mackenzie, Arca da aliança, em Dicionário bíblico, p.70.
97 Werner H. Schmidt, A fé do Antigo Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 2004, p.194.
98 Antonius Gunneweg, Teologia bíblica do Antigo Testamento – Uma história da religião de Israel na perspectiva bíblica-teológica, p.180-181.
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totalidade envolvente. Neste sentido, tornava -se compreensível que Javé, mediante pessoas inspiradas, facilitara sua relação com o povo escolhido.
O templo converteu-se assim, oficialmente, na sede da presença de Javé. Quando a arca, após os triunfos de guerra, voltava a ser introduzida no templo (Sl 24,7), o Deus dos israelitas se apoderava de sua casa: “a glória de Javé enchia o templo de Javé” (1Rs 8,10).
Esta percepção (1Rs 8,10) unida à tradição mostra o objetivo da edificação do templo: construir uma morada para Javé, uma residência em que habite para sempre (1Rs 8,13). Isso contribuiu para que todo fiel israelita assumisse a presença real de seu Deus no santuário de Jerusalém. Além disso, a tradição afirma que foi o lugar escolhido por Javé para que seu nome resida ali (2Rs 23,27).
Com a morada de Javé no templo, tornou-se plausível a tradição cultual, refletida muito bem nos salmos: “começo a recordar as coisas e minha alma em mim se derrama, quando eu passava, sob a Tenda do Poderoso, em direção a casa de Deus, entre os gritos de alegria, a ação de graças e o barulho da festa” (Sl 42,5).
Todas estas considerações tornam-se necessárias para entendermos o poderoso significado do santuário de Jerusalém como lugar sagrado que servia de asilo. A lei de asilo era uma necessidade muito antiga, que pode ser remetida ao mundo nômade. Depois, passou a ser uma virtude sagrada e inviolável, com caráter de hospitalidade.99
É prudente aclarar que o substantivo miqlat, “asilo”, no hebraico, denota o local para onde uma pessoa se refugiava quando era ameaçada de morte. É distinto de mahseh, que significa “local de refúgio para pessoas e animais”, “lugar para onde alguém foge”, “local forte ou elevado”.100
99 Roland de Vaux, Instituições de Israel no Antigo Testamento, p.29.
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Segundo Erhard Gerstenberger, o termo miqlat “asilo”, vem a ser sinônimo do vocábulo hebraico hsh “refugiar-se”, que pode ser entendido como “salvar-se”, “esconder- se”.101 Também pode evocar “confiar-se a alguém” (Sl 31,6), “ficar em” (Sl 91,1).
Sendo assim, o contexto mais próximo dessas expressões refere-se, metaforicamente, à busca de um lugar seguro, como um santuário (Sl 7,2; 36,8; 57,2).102 A confiança expressada, além de indicar a busca de um lugar de asilo, manifesta a postura interna da comunidade em questão.103
De onde vem a designação de um local como lugar de asilo? Um dos fundamentos se acha no código da aliança. O livro do Êxodo 21,13 indica um lugar de amparo para pessoas que tenham cometido homicídios involuntários, e que fossem perseguidas por causa de vingança de sangue.104
O ponto de referência para refugiados era, sem dúvida, um santuário. Antes da reforma religiosa do rei Josias existiam muitos deles, com altares oficiais, dedicados a Javé (2Rs 23,4-14). Contudo, o principal entre eles sempre foi o santuário central da federação das tribos, onde estava, como vimos, a arca da aliança (Sl 122,3).105
O templo de Jerusalém era, especialmente, o lugar destinado para asilo, onde se tratavam os casos mais difíceis (Dt 17,8). Ali se confirma a presença de pessoas refugiadas: “Adonias, temendo a Salomão, levantou-se e foi se agarrar aos chifres do altar” (1Rs 1,50). Outras referências em: 1Rs 2,28-31; Sl 27,2-5; 61,4-6; Is 14,32.106
101 Erhard Gerstenberger, Refuriarse, em Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, p.861. 102 Erhard Gerstenberger, Refuriarse, em Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, p.862-
863.
103 Erhard Gerstenberger, Refuriarse, em Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, p.864. 104 Em Jz 6,26 se prevê a construção de um altar que ofereça proteção aos fugitivos. As dívidas e as vinganças
pessoais também poderiam provocar na pessoa a condição de asilado (Sl 56,11-12).
105 Roland de Vaux, Instituições de Israel no Antigo Testamento, p.196.
106 Relativo às cidades de refúgio consultar Js 20,1-6; Nm 35,9-34. Estas cidades eram destinadas a abrigar
pessoas que cometiam homicídios involuntários. São consideradas três cidades na Transjordânia e três na Cisjordânia. Destas cidades nos limitamos a fazer só referência, porque nosso objetivo é estudar o templo de Jerusalém como lugar de refúgio. Conferir informações sobre estas cidades refúgio: Roland de Vaux,
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A exclusividade narrada em Ex 21,13, indicando que somente o inocente pode refugiar-se no santuário, deve -se a que o ser humano, sujeito de impiedade, não podia ser considerado hóspede de Javé (Sl 5,5). Pelo contrário, se uma pessoa buscava refúgio, sendo culpada, podia ser arrebatada do altar para que morresse (Ex 21,14).
Para lograr refúgio no templo, o acusado tinha que entrar no santuário antes que seus acusadores e perseguidores o capturassem para executá- lo. Uma vez no lugar sagrado, os inimigos não podiam fazer- lhe nada. Imediatamente, o caso era deixado nas mãos da jurisdição divina, mediante os sacerdotes (Sl 4,9; 34,9).107
Hans-Joachim Kraus aclara que a proteção divina no santuário era só na ante-sala, ali se preparava o perseguido mediante súplicas, sacrifícios e purificações: “Javé, meu Deus, se eu fiz algo... se em minhas mãos há injustiça...” (Sl 7,4). No dia seguinte, se esperava o veredicto de Javé, que podia ser emitido mediante um oráculo através do sacerdote (Sl 26,1-2).108
As pessoas que se refugiavam no templo eram pobres, porque os ricos ao invés de Javé, tinham suas riquezas como escudo (Sl 27,2; 52,9; 54,5; Pr 10,29). Isso reflete a idéia de que o essencial para a proteção não eram as muralhas do santuário e sim quem residia dentro dele, o defensor dos desamparados, Javé, e a comunidade cultual (Dt 32, 37).
Queremos dizer que foi a presença de Javé, junto à comunidade fiel, que tornou o templo sagrado. Neste sentido, falar do templo como lugar de asilo, é o mesmo que falar de Javé como lugar de refúgio.
A partir destas indagações podemos entender algumas expressões usadas para designar Javé nos salmos: abrigo na sombra de asas (36,8), fortaleza (59,10), escudo salvador (18,36), torre forte à frente dos inimigos (61,4), lugar de amparo (61,5), forte rochedo (62,7), rocha acessível de hospitalidade (71,3), asas de abrigo, refúgio (91,4.9).
107 Hans-Joachim Kraus, Teología de los salmos, Salamanca, Sígueme, 1985, p.176. 108 Hans-Joachim Kraus, Teología de los salmos, p.177.
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Se buscar refúgio ressaltava a insuficiência e a insegurança do indefeso e, por sua vez, enfatizava o aspecto defensivo ou externo da salvação de Deus, então se refugiar em Javé podia significar experimentá- lo como fonte de fortaleza e proteção nos momentos de perigo (Sl 46,2-4). 109
O livro dos salmos apresenta um significante número de pessoas que experimentaram os favores de Javé. Essas pessoas libertadas das ameaças puderam, após seu resgate, cantar hinos de agradecimentos ao Deus de sua salvação (Sl 23).
Em suma, com o exposto abrangem-se perspectivas para estudar o Salmo 23 como um texto que nasce numa situação de asilo. A forma e o conteúdo deste poema indicam que nas entrelinhas existe uma pessoa asilada e proclamada inocente no templo de Jerusalém.