No que tange à categorização e análise dos dados, encontrei diversas abordagens e operacionalizações. Como afirma Minayo (2010, p. 351), "na produção de análises sobre questões sociais e mesmo de abordagens qualitativas não há consenso, há sim vários caminhos de possibilidades à escolha do pesquisador". A mesma autora reconhece, ainda, que os procedimentos adotados pelos pesquisadores qualitativos nas análises deste tipo de dados muitas vezes não condizem com aquilo que os livros sobre o assunto preconizam: "o que se escreve ou se fala sobre o trabalho de investigação, geralmente é uma ‘lógica reconstruída’ que se distancia da ‘lógica em uso’, utilizada no decorrer do trabalho” (id., p. 351). Além disso, para Lankshear e Knobel (2008), diferentes procedimentos de análise de dados produzem resultados similares.
Dadas as características deste estudo apresentadas anteriormente, adotei a seguinte definição:
Análise é o processo de fragmentar as coisas em partes menores, a fim de entender devidamente essas partes e as suas relações com as outras
partes. Feito isso, conseguimos reuni-las, sob a forma de um relato que demonstre nossa maneira de entender o que estivemos investigando, explicando seus aspectos relevantes ou, ao contrário, proporcionando esclarecimentos e interpretações que permitam ações ou reações adequadas (LANKSHEAR e KNOBEL, 2008, p. 260).
Estes autores afirmam, ainda, que toda análise de dados de pesquisa, por sua própria natureza, envolve sua rotulação em um primeiro momento e, após isso, algum tipo de categorização. Em um terceiro momento, categorias similares unem- se de tal modo que somente algumas delas permanecem.
Minayo (2010) descreve uma sequência operacional de análise de dados que foi utilizada nesta pesquisa. Em primeiro lugar, a autora afirma ser necessário realizar uma ordenação dos dados coletados. Esta etapa consiste em transcrever os dados (no caso deste estudo, dados observados), realizar uma releitura das transcrições e organizá-los em determinada ordem.
Após isso, a autora afirma ser necessário realizar uma classificação dos dados. Essa etapa é subdividida em outras três. Em um primeiro momento, o pesquisador realiza uma leitura horizontal e exaustiva dos textos, buscando primeiras impressões acerca dos dados registrados. É importante que, nessa leitura, não se separe: a ideologia da realidade material do signo; o signo das formas concretas de comunicação; e a comunicação e suas formas da base material em que ela se sustenta. O objetivo desta ação é construir categorias empíricas, ou seja, categorias que emergem dos próprios dados e, depois, confrontá-las com categorias analíticas, aquelas que já existem desde o início do estudo e são oriundas da(s) teoria(s) que embasa(m) a pesquisa, buscando inter-relações e interconexões entre elas.
Em seguida, afirma a autora que se deve realizar uma leitura transversal, na qual os dados serão recortados em “unidades de sentido por estruturas de relevância, tópicos de informação54 ou temas55” (MINAYO, 2010, p. 358), colocando- se as unidades similares juntas e classificando-as. Isso feito, deve-se aplicar uma
54 A autora utiliza, nesta parte do texto, os termos “unidades de sentido”, “estruturas de relevância” e “tópicos de informação” que podem ser compreendidos, no nosso entender, como “conceitos”, da forma como define a autora: “conceitos são unidades de significação que definem a forma e o conteúdo de uma teoria. Podem ser considerados como operações mentais que refletem pontos de vista verdadeiros e construídos em relação dinâmica com a realidade (sempre dentro de um quadro teórico determinado)” (MINAYO, 2010, p. 176).
55 “A noção de tema está ligada a uma afirmação a respeito de determinado assunto. Ela comporta um feixe de relações e pode ser graficamente apresentada através de uma palavra, de uma frase, de um resumo” (MINAYO, 2010, p. 315).
lógica unificadora, agrupando tudo em um número menor de unidades de sentido. Por último, é realizada uma análise final por meio de um movimento circular: dos dados empíricos para o campo teórico e vice-versa. Terminando-se a sequência operacional de análise de dados descrita por Minayo (2010), escreve-se o relatório de pesquisa, que deve “configurar-se como uma síntese, na qual o objeto de estudo reveste, impregna e entranha todo o texto [...] será um trabalho incompleto o que apenas descreve, ipsis litteris, o processo de trabalho do investigador” (id., p. 359).
Para os fins deste estudo, as categorias analíticas adotadas foram criadas a partir de três das quatro categorias básicas do mapa conceitual da educação intercultural (apêndice I) elaborado por Candau (2010; 2012e). As categorias consideradas são: sujeitos e atores; saberes e conhecimentos; e práticas socioeducativas. A quarta categoria do mapa de Candau, denominada de políticas públicas, não foi utilizada como tal porque a tese não abordou diretamente a questão das políticas públicas. Contudo, isso não quer dizer que a dimensão política do ensino não tenha sido contemplada na pesquisa, como ficará evidenciado na Parte II deste documento. Na tese, houve a compreensão de que essa dimensão é transversal às três categorias adotadas e permeia todo o processo de intervenção, enquanto prática socioeducativa. A par disso, mesmo não tendo figurado como categoria analítica, o trabalho traz, nas considerações finais, indicativos para a construção de políticas públicas em diferentes âmbitos.
Utilizando-se então das subcategorias e das palavras de ligação do mapa conceitual da educação intercultural elaborado por Candau (2010; 2012e), cheguei à seguinte síntese das categorias analíticas:
1. Sujeitos e Atores
1.1. Fortalecer identidades abertas, plurais e dinâmicas 1.2. Estimular Emancipação e Autonomia
1.3. Potencializar empoderamento 2. Conhecimento
2.1. Discutir universalismo e relativismo
2.2. Contextualizar historicamente e socialmente o conhecimento científico 2.3. Reconhecer conhecimento cotidiano
3. Práticas Sócio-Educativas
3.1. Questionar (desconstruir) dinâmicas habituais 3.2. Favorecer dinâmicas participativas
3.3. Visibilizar conflitos
3.4. Promover relações democráticas 3.5. Valorizar múltiplas linguagens e mídias 3.6. Promover diferenciação pedagógica 3.7. Basear-se em construção coletiva
Na seção a seguir, detalharei a disciplina na qual os dados foram construídos.