BÖLÜM 1: HATİCE SULTAN VAKFİYESİ VE KİTAP SANATLARI
1.3. Vakfiyede Yer Alan Sanat Unsurları
1.3.3. Tezhip
As dissertações de Direito Civil apresentadas como requisito
parcial de avaliação no âmbito da Faculdade de Direito de São Paulo fornecem elementos
para uma nova análise não apenas do ensino jurídico no Império, mas também do processo
de desenvolvimento da cultura jurídica no Brasil. As obras publicadas a respeito do
ambiente e cotidiano dos cursos jurídicos abordaram diversos aspectos, desde a formação
dos professores até as atividades extracurriculares desenvolvidas pelos alunos. Dos dados
levantados, foram apresentadas variadas conclusões, muitas delas no sentido de identificar
os cursos jurídicos como um ambiente de displicência acadêmica no qual os alunos
estavam mais interessados em atividades paralelas como forma de introdução a carreiras
que desenvolveriam após a formatura, tais com jornalismo e política.
Por esse tipo de relato, bem como pelos debates parlamentares a
respeito da criação dos cursos jurídicos no Brasil, uma vertente de análise concluiu que a
orientação pragmática do estudo impediu o desenvolvimento da cultura jurídica. São
citadas também as atividades desenvolvidas pelos lentes catedráticos, que, tendo ocupado
diversos cargos na política nacional, passavam boa parte do ano licenciados e,
desenvolvendo documentos e relatórios governamentais, apresentavam uma produção
bibliográfica que acaba sendo caracterizada como inexpressiva. Também, uma corrente de
análise se desenvolveu para identificar que, na verdade, o centro formador da cultura
jurídica no Brasil não estava no ambiente acadêmico, mas, na verdade, no Conselho de
Estado. Desta forma, as acentuadas críticas que são dirigidas ao ensino jurídico no Império,
mesmo se procedentes, não teriam um maior impacto no desenvolvimento da cultura
jurídica.
O presente trabalho analisa uma fonte que não foi considerada
pelos trabalhos anteriores a respeito do desenvolvimento da cultura jurídica no Brasil.
Mesmo nas obras a respeito dos mais renomados doutrinadores do Império, tais como
Teixeira de Freitas e Lafayette, a ênfase está na produção bibliográfica específica após a
graduação e doutoramento, deixando-se de lado eventual carreira docente e produção
durante a graduação. A análise das dissertações fornece importantes elementos para a
análise do ensino jurídico, uma vez que, na medida em se trata de elemento de produção
obrigatória, fornece um espaço amostral mais amplo e com alto grau de controle. O tema
da dissertação sendo previamente definido pelo docente fornece um elemento para mais
uniformidades das informações colhidas, com menos espaço para manifestação de
preferências pessoais, pelo menos, no que diz respeito a escolha do tema. Ainda, o cotejo
entre as dissertações analisadas permite identificar os elementos que foram transmitidos
em sala de aula e aquilo que é a contribuição pessoal de cada um dos estudantes para a
construção do raciocínio jurídico.
Em seu já mencionado texto tratando de Cultura Jurídica e
Codificação no Brasil, Ricardo Marcelo Fonseca aponta quais seriam os fatores que levaram
a que o Brasil aprovasse seu Código Civil muito depois de todos os outros países da América
Latina. Ainda, como o próprio texto das dissertações analisadas revela, da forma como
descrita por Samuel Rodrigues Barbosa, algumas obras de doutrina, tais como as Ordenações
Filipinas na edição de Cândido Mendes, e a Consolidação das Leis Civis de Teixeira de
Freitas, assumiram o lugar do Código no direito brasileiro. A Consolidação de Teixeira de
Freitas é expressamente citada em algumas das dissertações analisadas, ressaltando esse
aspecto dúplice de doutrina e legislação. Ao mesmo tempo em que é citada ao lado de outras
formas de direito oficial, tal como o próprio texto das Ordenações Filipinas ou Alvarás e
Decretos, são mencionadas, ainda, a reputação de Teixeira de Freitas como sendo um
argumento de autoridade, e as notas explicativas ao próprio texto da Consolidação das Leis
Civis. Ainda, Ricardo Marcelo Fonseca (2004:69) desataca que as diferenças em relação ao
resto da América Latina fazem o Brasil afastar-se também do modelo francês de codificação,
que é considerado paradigmático no estudo da elaboração e implementação de códigos.
Uma vez descritas, ainda que muito brevemente, as vicissitudes da legislação privada brasileira desde fins do século XVIII até o século XIX, convém identificar e sistematizar alguns dos fatores que explicam as razões pelas quais o Brasil, afinal, ao contrário de praticamente todas as demais nações latino-americanas (e também da Europa continental), acabou por adotar tão tardiamente a codificação de sua legislação civil, bem como, ao fazê-lo, distanciou-se um pouco (ao contrário de seus vizinhos latino-americanos) do paradigmático modelo da codificação francesa.
As dissertações analisadas mostram um uso ostensivo de doutrina
nacional e estrangeira a respeito dos mais variados assuntos. Também, o papel da doutrina
foi extensamente discutido nas dissertações na medida em que um dos temas foi para situar
o direito científico entre as fontes do direito, como sendo uma fonte autônoma, ou apenas
uma manifestação do direito costumeiro. Diversas dissertações destacaram o panorama
histórico de mudança de tratamento da doutrina entre as fontes do direito, sendo por diversas
vezes mencionada a experiência da Roma Antiga em que a influência dos Jurisconsultos foi
se desenvolvendo de tal forma que conquistaram a autoridade de responder a consultas com
força vinculante em nome do Imperador. Da Roma Antiga, tem-se um salto até o século
XVIII no que se refere ao tratamento da doutrina, em que, com o desenvolvimento da escola
dos Glosadores e dos Comentadores, a doutrina não passa apenas a ter força de lei, mas passa
a prevalecer contra disposições expressas de lei, um dos fatores que motiva a reforma do
Marquês de Pombal, que culmina com a edição da chamada Lei da Boa Razão e a proibição
do uso dos trabalhos dos Glosadores e Comentadores. Se, por um lado, como destaca José
Murilo de Carvalho, após a morte do rei D. José I
Um segundo fator importante foi o fato de que a incipiente cultura jurídica brasileira da segunda metade do século XIX, malgrado não tivesse sido infensa a influências francesas, sofreu muito mais o impacto da cultura alemã. Esse fato não deixa de ser até certo ponto curioso, uma vez que em outros âmbitos culturais que não o jurídico (inclusive o filosófico), a influência francesa – e sobretudo do positivismo de Comte – mostrou-se predominante no Brasil. De fato, a assim chamada “Escola do Recife”, como é conhecido esse movimento da cultura jurídica capitaneado por Tobias Barreto (e que contou com nomes como o de Sílvio Romero e Clóvis Beviláqua – o autor do projeto do código de 1916), tinha franca orientação cultural alemã. Além disso, não é desprezível o fato de que Teixeira de Freitas, cuja ‘Consolidação das Leis Civis’, como vimos, tornou-se a referência de consulta da comunidade jurídica brasileira, tenha uma forte influência da cultura jurídica alemã. Como esclarece Miguel Reale, embora se note um certo ecletismo em Teixeira de Freitas (onde o elemento inovador não pode ser desprezado), havia em seus escritos um casamento, embora sem um explícito tratamento filosófico unitário, de elementos da Escola Histórica e do direito natural. Apesar de certamente os autores franceses e de relevantes conceitos da Escola da Exegese não lhe serem desconhecidos, é à ciência jurídica alemã (que ele aduz ter “alcançado os mais brilhantes triunfos”) e de modo particular a Savigny (por ele chamado de “profundo” e “sábio”). (FONSECA, 2004:70)
As dissertações analisadas, especialmente no que se refere ao tema
da escravidão e toda a legislação associada ao tema da Abolição, contribuem para a
construção do entendimento que se verificava entre o discurso e a prática do liberalismo no
Brasil. Conforme mencionado por Emília Viotti da Costa, as reformas ecoavam os princípios
liberais que nortearam as revoluções burguesas na Europa. Tais reformas levariam não
apenas à abolição da escravatura, que já era uma paute defendida inclusive por falta de
viabilidade econômica da mão de obra escrava, mas também à construção de um sistema
jurídico harmônico e coerente. O que se percebe, contudo, pela análise do texto das
dissertações é que o movimento codificador, e a produção legislativa brasileira de um modo
geral, tiveram um desenvolvimento tímido no Brasil, conforme já era no próprio século XIX
ressaltado pelo Conselheiro Lafayette.
Um quarto fator que certamente contribuiu para a ausência da codificação no Brasil no século XIX já foi citado no item precedente: a contraposição das elites agrárias brasileiras à ideia de um sistema jurídico coerente, harmônico e plenamente inspirado nos ideais liberais que nortearam as revoluções burguesas. Um código certamente não era algo adequado à conformação dos interesses econômicos das arcaicas elites econômicas e sociais do império brasileiro. Apesar de formalmente ser o Brasil uma monarquia constitucional, o liberalismo recebido no Brasil, como já mencionado, sofreu especiais “adaptações” para servir de estofo a uma estrutura sócio-política autoritária e escravista, de modo que os princípios contidos na Carta Constitucional de 1824 podiam conviver de modo mais ou menos harmônico com a desigual sociedade imperial brasileira. É conhecida a afirmação de Sérgio Buarque de Holanda que, nos anos 30, ao tentar decifrar a democracia brasileira num dos textos mais representativos da interpretação sociológica produzidos no país, vai dizer que “a democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal entendido. Uma aristocracia rural e semi-feudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas”. Nesse contexto, a promulgação de um código civil – com princípios definidos e coerentes e com pretensões de completude e certeza – certamente não era algo que contribuiria para ajudar na insidiosa forma com que os princípios liberais vigentes no Brasil eram conformados às atrasadas estruturas sociais brasileiras. De modo especial, como já vimos, havia a rejeição das elites à ideia de uma “unificação do direito privado”, que era ínsita ao projeto de codificação de Teixeira de Freitas, bem como ao modo problemático (do ponto de vista da aristocracia rural) como a questão da escravidão – que era crucial em toda a discussão política da segunda metade do século XIX – era abordada pelo jurista. (FONSECA, 2004:71).