4. GÜVENLĐ DENEY YÖNETĐM SĐSTEMĐ
4.4. Tez Çalışmasının Literatürdeki Çalışmalarla Karşılaştırılması
A leitura que se faz em torno da questão da criação do Estado do Tocantins está referenciada, sobretudo, nas falas de Siqueira Campos na ocasião da Assembléia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados nos períodos de 1987 e 1988, além das entrevistas que concedeu aos meios de comunicação, como os jornais O Popular e Folha de São Paulo, entre outros. Em todos eles, o ex-deputado Siqueira Campos atribui a si a missão de dar um fim a uma luta iniciada há mais de cem anos e torna-se o “pai fundador” de uma unidade da federação.
Partindo das perspectivas criacionista, messiânica e milenarista, Siqueira Campos reveste-se de uma aura mitológica e busca a legitimação de seu discurso fundador em Joaquim Theotônio Segurado, colocando-se como um ser predestinado a levar adiante, até o fim, uma luta iniciada no século XIX.
Assim, Siqueira Campos incorpora a mitologia do Moisés bíblico que guia “seu povo” à “Terra Prometida” e torna-se o “pai fundador”, o grande Messias, de uma unidade da federação repleta de “altiva gente morena” (CAMPOS, 1987, p. 163). Carregadas de um poder simbólico, essas falas e atribuições de papéis remontam à construção de um mito político no qual o ritual manifestado de diversas formas articula, perfeitamente, o religioso e o político.
Pelo ritual religioso, o político opera e se constrói perfeitamente e pelos caminhos do político, os ritos sagrados se tornam realidades objetivadas, históricas e habitantes do imaginário popular. Para Ribeiro (2001, p. 26-27), no que diz respeito ao papel de Siqueira Campos de “pai fundador” do Estado do Tocantins, o autor considera que
a relação intima de sua posição de sujeito diante do Estado, suas promessas de um futuro melhor, o constitui, no imaginário social, um personagem idealizado, como ‘pai primordial’, o portador/representante das
virtudes tocantinenses, porta-voz do desenvolvimento.
Ribeiro (2001) não é o único a fazer essa leitura do papel e da participação de Siqueira Campos na criação do estado do Tocantins. Campos (2006, p. 161), em uma obra que o próprio autor afirma ter sido apreendida diversas vezes, afirma que
Siqueira Campos financiava com dinheiro público escritores medíocres que se dispunham a narrar a epopéia do pau-de-arara que chegou magro e pobre em Colinas de Goiás há trinta anos e que acabou gordo e rico no Estado que ajudou a criar. Ele participou do movimento de criação do Tocantins, desmembrado de Goiás, como dezenas de históricos lutadores, mas se considera a avó, o pai, a mãe e a outra do Estado. Quer toda a glória para si e exige que continuem tratando-o como governador.
Ao analisarmos 43 discursos realizados pelo então deputado federal Siqueira Campos entre os dias 06/02/1987 e 15/12/1988 na Assembléia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), acerca da criação do Estado do Tocantins, notamos que em todos eles o autor faz menção aos ícones sagrados judaico- cristãos e coloca-se como um herdeiro de uma luta histórica pela criação do estado.
Além disso, sempre fala em nome do “povo” tocantinense referindo-se a ele como “minha gente”, “meu povo”. Exemplo disso está no discurso que faz em agradecimento à criação do estado, ao mencionar “[...] a gratidão imorredoura da minha gente, da gente nortense de Goiás [...]” (CAMPOS, 1988, p. 11.047). Entretanto, esse “povo” a que o autor dos discursos sempre se refere em seus textos não possui voz. Ele apenas comparece nos discursos fundadores políticos como formado por homens e mulheres detentores de “[...] alto grau de consciência política [...] [n]o Norte-nordeste de Goiás” (CAMPOS, 1987, p. 861), mas a esses homens e mulheres nunca foi dada a palavra. Em outro momento, Siqueira Campos menciona que esse mesmo “povo” aguarda com emoção e ansiedade a votação, na Assembléia Nacional Constituinte, da emenda que, entre outras propostas, inclui a criação do estado e “[...] o destino de um milhão e duzentas mil pessoas que há cento e setenta e nove anos lutam por sua autonomia política” (CAMPOS, 1988, p. 10.861).
Essa última questão apresentada também é fato corrente nos discursos de Siqueira Campos: a continuidade de uma luta histórica feita por homens “heróicos” e que tem nele o último herdeiro com o dever de ir além de suas forças para criar o Estado do Tocantins, cujas áreas são “[...] belas e ricas planícies entrecortadas por cursos perenes de águas límpidas e por cordilheiras com grandes jazimentos minerais, conta com riquezas incalculáveis” (CAMPOS, 1988, p. 10.870).
A construção dos discursos que tratam dessa continuidade histórica é identificada nas falas do movimento de criação do estado na década de 1980. Entretanto, o que o movimento não deixa claro é que há uma diferenciação de contextos temporal e espacial entre as reivindicações iniciadas por Joaquim Theotônio Segurado e Siqueira
Campos. O contexto que originou as ações de Segurado foi bem distinto daquele no qual se deu a participação de Siqueira Campos. Além disso, há diferentes interesses econômicos e distintos atores políticos envolvidos com esta campanha pela criação do Estado do Tocantins em seus diferentes tempos e espaços.
Mas esse fato pode ser explicado pela construção do próprio mito que deu origem à criação do Estado do Tocantins. Para Armstrong (2005, p. 15), “à medida que as circunstâncias mudam, precisamos contar as histórias de modo diferente, para expor sua verdade intemporal”. E é essa intemporalidade que produz um sentido ao mito na medida em que o reatualiza constantemente por meio da elaboração de símbolos, festas populares, feriados e outros itens que tornam o tempo cíclico, permitindo-o reproduzir-se constantemente no imaginário social.
Essas questões tornam-se claras nos discursos de Siqueira Campos quando ele insiste em considerar a criação do estado como uma constante luta, um enfrentamento entre atores distintos. Mas não se trata de uma luta qualquer. O ex-deputado faz questão de mencionar em suas falas que a criação do Estado do Tocantins é o resultado de uma luta libertária de um povo sofrido e explorado pelo sul de Goiás.
Essa luta libertária sempre foi conduzida pelos que ele considera como os “melhores líderes do nosso povo” (CAMPOS, 1988, p. 14.140), de ontem e de hoje. São lideres de ontem personagens como Joaquim Theotônio Segurado, Manoel Antônio de Moura Teles, José Zeferino de Azevedo, José Vitor de Faria Pereira, Francisco Joaquim Coelho de Matos, Francisco Xavier de Matos, Luiz Pereira de Lemos, Joaquim Rodrigues Pereira13, Visconde de Taunay, Cardoso de Menezes, Feliciano Machado Braga, Francisco Ayres da Silva, João D’Abreu, Jayme Farias, Francisco Japiassu, Adeuvaldo de Moraes, Darcy Marinho, Mário Cavalcante, Osvaldo Ayres da Silva e Fabrício César Freire. (CAMPOS, 1988, p. 14.140).
Os líderes de hoje são: Darci Martins Coelho, Henrique Santillo, José dos Santos Freire, Júlio Resplandes, Pedro Soares Correia, José Roberto da Paixão, José Maia Leite, Vagner Maia Leite, Antônio Maia Leite, José Carlos Leitão, Adão Bonfim Bezerra, Mário Cavalcante, Raimundo Gomes Marinho, Hagaús Araújo, João Ribeiro, Brito Miranda e João Cruz, entre outros. Essas personalidades são membros da Magistratura, do Ministério Público, dos meios de comunicação (como as Organizações Jayme Câmara, afiliadas da
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Siqueira Campos denomina-os de “[...] os grandes e imortais heróis do povo tocantinense” (CAMPOS, 1988, p. 3.002).
Rede Globo de Televisão14), da iniciativa privada, da intelectualidade, da representação política e da administração pública, congregando no Comitê Pró-Tocantins (CAMPOS, 1987, p. 274).
Além dessa exaltação do passado e da nomeação de heróis para dar sentido de luta histórica à criação do estado do Tocantins, a constante apelação para os elementos sagrados da tradição judaico-cristã também foi forte. Eliade (2004, p. 66), quando discute a questão dos movimentos milenaristas, aponta como uma de suas características o fato de serem suscitados por fortes personalidades religiosas proféticas ou organizados e amplificados por políticos ou para fins políticos.
As falas de Siqueira Campos em seus discursos apresentam um Tocantins equiparado a uma “Terra Prometida”, um local composto por “formosas planícies entrecortadas de lagos e cursos permanentes de águas abundantes”, composto por uma natureza “pródiga” onde tudo é “propício à produção de grãos”, repleto de “terras férteis, úmidas e planas”, com clima estável e cujo ciclo de chuvas é regular. Além disso, as terras são de preços baixos e possuem uma “notável infra-estrutura viária”, com “centros urbanos dotados de condições satisfatórias de vida e de trabalho” (CAMPOS, 1988, p. 12.272). Era o que ele dizia.