Série 4ª
Sexo Masculino Diversão e poeira
Para falar do meu lugar Fico um pouco encabulado Ao mesmo tempo me sinto De certa forma muito honrado Foi considerado ―cidade das flores‖ Terra de encanto e muitos amores Em suas praças se via
Pássaros de todas as cores. Um dia o progresso chegou E muitas coisas mudaram Infelizmente as ―flores‖ Poucas se restaram.
O meu bairro não é asfaltado Quando chove fica complicado Sujo toda minha roupa
É barro por todo lado. Mas se fica sem chover Fico nervoso até falo besteira Quando os carros passam Jogando bastante poeira Lá tem um campo de terra Planejamos um campeonato legal Teve que ser adiado
Por causa de um marginal
Minha turma é animada Nos reunimos para conversar Discutimos sobre os problemas Que acontecem no lugar Lá tem um terreno baldio Onde as pessoas jogam lixo Fizemos um mutirão Deixando tudo no capricho. Apesar de tudo isso
Tenho orgulho do meu lugar As pessoas aprendi
a amar e respeitar Nos finais de semana Minha turma gosta de agitar Me ajudam conquistar uma menina Que pretendo namorar
A pureza das pessoas O sorriso e a sinceridade Me faz acreditar
Que lá tenho verdadeiras amizades. É numa rua esburacada
Que curto minha infância De muitos sonhos e realizações É lá que quero crescer
E viver inesquecíveis emoções
O poema ―Diversão e poeira‖ apresenta estrutura semelhante à dos outros analisados. Há uma flutuação na métrica cuja aproximação com a poesia popular garante, pelos ecos da memória do gênero, um reconhecimento de algo que nos versos não está. Da mesma forma que o aluno-poeta ouve as reverberações dos poemas ouvidos e lidos em sala de aula, o leitor fica envolvido na rede sonora que preenche espaços, garantindo menor porosidade ao texto.
Diferentemente dos outros poemas, neste sequer é mencionado o nome ou a história do lugar onde o aluno-poeta vive. A alusão, que corresponde à forma marcada de heterogeneidade, é ―cidade das flores‖, entre aspas. Esse sintagma garante a entrada da voz dos outros envolvidos no local e no percurso de elaboração do poema. No verso ―foi considerado ―Cidade das flores‖, é possível ainda observar que o agente da passiva não é explícito, indicando o isolamento de outras perspectivas. Evidencia-se, nessa citação de discurso alheio, a indicação de que houve pesquisa, de que houve trabalho a respeito do local
e essa foi a forma que o enunciador escolheu para ceder à voz do outro um espaço encapsulado.
A presença da antonomásia (―cidade das flores‖) não será recuperada pelas informações gerais que caracterizam o município em questão; não é dado da página inicial do site oficial da cidade40. Trata-se de uma voz institucionalizada, do hino de Suzano, como se observa em sua primeira estrofe: ―Desperta a cidade das flores / que almeja um porvir triunfal / bandeira de todas as cores / no peito um só ideal.‖ A apresentação do hino parece entrar em consonância com o poema nesse aspecto, pois indica que houve a passagem de cidade das flores para cidade industrial: ―O hino foi vencedor de um concurso municipal e foi estabelecido como símbolo oficial pela Lei nº. 2347, de 30 de junho de 1989. Em sua marcha de cadência vibrante trata da formação do município e de suas características, entre a flor e a chaminé. Seu refrão marcial busca impulsionar a gente para a vitória diária do trabalho.‖ (grifo nosso) 41
Nesse aspecto, ao recuperar informações que veiculam institucionalmente na escola, o poema, nas primeiras estrofes, apresenta uma etapa que se institui como obrigatória em função das orientações dadas na oficina. Novamente como em outros poemas do Pólo São Paulo, o enunciador anuncia qual sua avaliação da tarefa. O ethos hesita entre a grandeza da tarefa e a honra que ela proporciona. Ao invés de retroceder para uma posição entre outros, deixando que falem por ele, o enunciador passa a descrever o lugar sempre tendo a si próprio como ponto de referência. Esse é o ponto de ruptura com os outros poemas e indica uma resistência quanto à manutenção da voz. O ethos se mantém até o fim do poema como potente para opinar (―Fico bravo falo até besteira‖), avaliar (―tenho orgulho do meu lugar‖, ―discutimos sobre os problemas do lugar‖) e planejar suas ações (―planejamos um campeonato legal‖, ―minha turma gosta de agitar‖, ―É lá que quero crescer‖) a serem desenvolvidas no lugar onde vive. Essa potência indica um dos primeiros movimentos em direção da posição autoral.
Embora seja ainda insuficiente, pois como observa Faraco (2005):
A linguagem não desdobrada (isto é, se a voz do escritor como pessoa permanece como tal) é, para Bakhtin, ingênua e inadequada para a autêntica criação estética. O escritor é, então, a pessoa capaz de trabalhar numa linguagem enquanto permanece fora da linguagem.‖ (p. 40)
40 http://www.suzano.sp.gov.br
41 Essas e outras informações sobre os símbolos de Suzano encontram-se em
A imagem de si desenvolvida no poema indicia um quase desdobramento, não em relação a sua própria vida, pois a mudança se efetiva na assunção de uma posição que lhe permita desenvolver o sistema de valores em que o lugar não mais utópico, é simplesmente cenário para suas ações. Ora o lugar onde vive traz problemas (poeira, marginais, lixo...) para o enunciador, ora traz prazeres, mas quem ao fim permite que o prazer permaneça e o desconforto seja anulado é o grupo, como é possível verificar nas estrofes 7 e 8:
7
Minha turma é animada Nos reunimos para conversar Discutimos sobre os problemas Que acontecem no lugar
8
Lá tem um terreno baldio Onde as pessoas jogam lixo Fizemos um mutirão Deixando tudo no capricho.
A primeira pessoa do plural, nesse caso, se configura como nós exclusivo, pois os moradores da cidade não estão nesse grupo. A autonomia do enunciador é a primeira etapa de uma tomada de posição que, aos poucos, poderá se refletir na elaboração da linguagem. No poema, ela se evidencia por uma auto-centração que se descola da imagem da cidade, ao denominá-la simplesmente com o hiperônimo ―lugar‖. A cidade não assume metonimicamente os seus moradores. Não é personificada, nem adjetivada. Permanece como terra, campo, terreno baldio, rua esburacada...
A imagem projetada nos versos coloca o enunciador no centro das atenções, ao lado das pessoas que ele conhece e para as quais reserva um espaço - ao lado dele. As pessoas, embora sinceras, puras, amadas por esse enunciador não podem assumir sua voz e a cidade será uma memória da infância e um cenário para as suas realizações, daí o valor do título ―Diversão e poeira‖, como a assinalar a coordenação das percepções do aluno-poeta. Sem se configurar como uma oposição de extremos, os sintagmas nominais indicam espaços alheios entre si, como apresentados ao longo dos versos.
A importância do título, nesse caso (embora seja possível estender a importância dessa atribuição a outros poemas), indica uma primeira posição axiológica do enunciador que sintetiza os movimentos centrais do poema. O caminho encontrado pelo aluno-poeta é a inversão do tema. De ―Lugar onde vivo‖ chega-se a ―eu vivo num lugar‖, com ênfase à presença do sujeito explícito. Seria essa uma possível saída para a questão autoral na proposta? Ressignificar o espaço a partir da visão do sujeito?