A microestrutura de uma obra lexicográfica refere-se à “fórmula para descrição do verbete” (FAULSTICH, 1992, p. 213). O verbete, por sua vez, é a menor unidade da organização de dicionários e glossários. Também chamado artigo lexicográfico, ele é formado pelo lema ou palavra-entrada, que é a “unidade léxica a ser tratada” e por uma série de informações sobre essa unidade. Segundo Murakawa (2007, p. 238), essa série de informações varia de acordo com os objetivos da obra lexicográfica e com o público ao qual a obra se destina:
Reúnem-se, no verbete, informações sobre etimologia, pronúncia, ortografia, classe gramatical, restrições de uso (se a palavra-entrada está em uso, se é empregada em determinada região geográfica, se é de área de especialidade ou se está restrita a um determinado registro linguístico), sinônimos, antônimos, combinações léxicas, aspectos sintáticos relevantes, irregularidades morfológicas e principalmente a definição das diversas acepções e exemplos.
Os glossários, segundo Barbosa (2001, p. 39), pertencem ao nível da fala e possuem como unidade linguística a palavra. De acordo com a autora, a microestrutura do verbete em glossários pode ser esquematizado da seguinte forma:
Artigo = [+ Entrada (palavra-ocorrência) + Enunciado lexicográfico (+Par. Inform. 1 (categoria, gênero, número, pronúncia, etimologia etc.) + Par. Definicional (sentido da palavra naquele discurso concreto) – Par. Pragmático, +/– Par. Inform. n, +/– Remissivas (circunscritas ao texto em questão)].
Em nosso glossário inspiramo-nos no modelo de Barbosa (2001), realizando algumas adaptações na formulação do verbete, de modo a ficar com a seguinte organização:
[+Entrada (palavra-ocorrência) + Informações gramaticais ± Variante ± Domínio + Campo conceitual + Indicação de dicionarização da lexia ou não dicionarização da lexia + Acepção dicionarizada + Definição + Contexto ± Remissivas ± Notas Linguísticas ± Notas enciclopédicas]
COCO1 s.m.
var. morfossintática: coco de roda
[música, ciranda e coco-de-roda, LDAD]
Dança de roda executada ao som de músicas cadenciadas, a partir da batida da percussão. “Aqui em Caiana, tem quatu tipo de dança. Tem dois tipo de ciranda e dois tipo de coco.” (Inf. 13A-II)
Cf. ciranda1.
Notas linguísticas – do latim coccus.
Notas enciclopédicas – Gênero de dança e canção da tradição afro-nordestina, tendo no centro um solista, e cantada sob a forma de interpelação e resposta, frequentemente com solos no estilo da embolada. A roda gira da direita para a esquerda, e os dançarinos marcam com uma pisada forte de ambos os pés a sílaba tônica do final do verso, enquanto balançam o corpo para um lado e para o outro.
Os elementos que compõem o verbete do glossário em questão são os seguintes: a. Entrada
Segundo Barros (2004), a entrada ou lema é a forma escolhida, segundo as convenções da lexicografia, para representar uma palavra. É a lexia propriamente dita, em torno da qual circulam conceitos e informações. À identificação e ao agrupamento conceitual dos lemas é dado o nome lematização. Assim, tanto entradas verbais como nominais aparecem na forma lematizada: os verbos em sua forma infinitiva e os nomes, como substantivos e adjetivos, aparecem no masculino e singular (exceto quando o feminino e o plural constituem-se como traços semânticos distintivos).
A entrada selecionada foi a lexia mais recorrente no discurso dos informantes. Sinônimos e variantes dessa lexia figuram como elementos da formação geral do verbete. Utilizando a nomenclatura de Pottier (1978), o lema, em nosso glossário, pode ser uma lexia simples ou derivada, uma lexia composta (palavras com integração semântica) ou uma lexia complexa (sequência lexemática, com dois ou mais lexemas25). Não há siglas, nem acrônimos
em nosso estudo.
As lexias simples, derivadas, compostas e complexas foram citadas no glossário exatamente como figuraram no discurso dos informantes, com exceção das entradas verbais, que como dito, foram representadas em sua forma infinitiva.
b. Informações gramaticais
Elementos que representam as categorias lexical (substantivo, adjetivo e verbo) e gramatical (gênero e número de uma lexia). Em nosso glossário, as informações gramaticais são representadas pelas seguintes abreviaturas:
s. – substantivo m. – masculino
f. – feminino s.c. – substantivo comum de dois gêneros
v. – verbo adj. – adjetivo
As lexias complexas, que em nosso trabalho foram tratadas como formas lexicalizadas (sintagmas), apresentam-se representadas pelas seguintes abreviaturas:
sint. nom. fem. – sintagma nominal feminino sint. nom. masc. – sintagma nominal masculino sint. v. – sintagma verbal
c. Variante
Uma determinada lexia pode apresentar-se em formas linguísticas alternativas, denominadas variantes. Essas costumam ser classificadas, de acordo com a nomenclatura sociolinguística, de variáveis internas e externas à língua. No conjunto das variáveis internas, segundo Mollica e Braga (2003), temos os fatores de natureza fono-morfo-sintáticos, os discursivos e os lexicais. No tocante às variáveis externas, temos os fatores de ordem regional, social e contextual. Por tratar-se do estudo do falar de uma comunidade rural quilombola, subordinamos nossa análise ao que Preti (2003) chama de plano horizontal da língua ou às variedades diatópicas26. Dessa forma, consideramos as seguintes variantes:
a. Variantes fonéticas (var. fonética): modos diferentes de realizar determinado som.
b. Variantes morfossintáticas (var. morfossintática): alterações na forma ou na estrutura de uma unidade lexical.
26 Que se distribui geograficamente (diz-se, p.ex., de variante linguística, p.ex., o s "chiado" dos cariocas e o s
c. Variantes lexicais (var. lexical): quando unidades lexicais diferentes têm significados semelhantes.
d. Domínio
Na formulação de um verbete, devemos adaptar a definição de uma unidade lexical a um domínio ou área do conhecimento específico ao qual o conceito descrito pertence. Segundo Pottier (1978), cada morfema lexical27 está ligado a uma série de zonas semânticas possíveis.
É no ato da comunicação, que algumas zonas se atualizam, fazendo assim, esse morfema funcionar dentro de um domínio especificado. Ainda segundo o autor, a primeira orientação para o ouvinte/receptor é, justamente, a identificação do domínio conceitual ao qual o morfema lexical pertence naquele evento de comunicação.
Em nosso estudo, recolhemos unidades lexicais de diferentes domínios, que foram arrolados dos dicionários eletrônicos Houaiss (2009) e Ferreira (2004) e da Classificação Decimal Universal (CDU) que divide os conhecimentos humanos em dez classes, a saber: Generalidades, Filosofia/Psicologia, Religião, Ciências Sociais, Classe vaga, Matemática, Ciências Aplicadas (Medicina e Tecnologia), Arte, Linguagem e Geografia/Biografia/Historia, considerando as subdivisões dessas classes.
e. Campo conceitual
Após a primeira visita à comunidade de Caiana e algumas leituras sobre a realidade social, cultural e histórica do remanescente de quilombo, desenvolvemos nossa pesquisa sobre os aspectos léxico-semânticos da comunidade, a partir de sete campos conceituais:
a. Identidade quilombola: formado por lexias que discutem o que é “ser quilombola”, viver num remanescente de quilombo, além de vocábulos que tratam do passado de Caiana e dos tempos de fome.
b. Racismo: composto por alguns insultos dirigidos aos moradores de Caiana.
c. Ciranda e coco de roda: formado por lexias que descrevem ritmos e danças encontrados em Caiana, instrumentos musicais utilizados nessas práticas, bem como os participantes que compõem às brincadeiras.
27Na terminologia de Pottier, morfema lexical é a unidade de base do léxico (o lexema ou a lexia) (HOUAISS,
d. Lendas caianenses: composto por lexias que descrevem a lenda da pedra do reinado encantado, bem como outras histórias fantásticas do universo narrativo da comunidade.
e. Casamento: formado por lexias que descrevem a peculiar cerimônia de casamento em Caiana, bem como os espaços de realização da festividade, objetos e práticas emblemáticas do rito. f. Religiões: esse campo é formado por lexias que descrevem as práticas e entidades da religião católica, bem como das religiões de base africana: candomblé e umbanda.
g. Curandeirismo: campo representado por lexias que descrevem doenças e plantas medicinais utilizadas para cura na comunidade estudada.
f. Indicação de dicionarização ou não da lexia mais a acepção dicionarizada
As lexias que compõem o glossário vieram dos nossos informantes. Optamos por conferir os conceitos colhidos em dois dicionários populares e de uso mais geral: Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa e Dicionário Houaiss Eletrônico da Língua Portuguesa.
Indicamos, pois, se a lexia-entrada por nós selecionada foi encontrada ou não nos dicionários supracitados, informando, quando encontrada, similaridade ou dissimilaridade nas referidas acepções apresentadas. Essas informações foram organizadas em siglas:
a. LND: lexia não dicionarizada.
b. LDAD – lexia dicionarizada com acepção diferente ao sentido fornecido pelos informantes. c. LDAE – lexia dicionarizada com acepção equivalente ao sentido fornecido pelos informantes. d. LDAC – lexia dicionarizada com acepção complementar ao sentido fornecido pelos informantes.
g. Definição
Constitui-se, conforme Murakawa (2007, p. 238), a parte mais importante do verbete, considerada a “arte suprema em lexicografia”. Nas definições procuramos informações de ordem científica, técnica, cultural e histórica de fenômenos e elementos das diferentes áreas do conhecimento.
Diversos lexicógrafos e terminólogos propuseram regras para elaboração de definições, de modo a haver certa convergência entre eles, sobre o que não deve haver numa definição, como: “inclusão da palavra definida, ser incompleta, ser circular, ser tautológica, ser escrita na negativa, ser excessivamente ampla, ser definida a partir de sinônimos” (COUTO, 2003, p. 21)
Segundo Couto (2003, p. 22), da mesma forma, muitos concordam sobre o que deve haver na definição:
Consistir numa única frase;
estar adaptada aos utilizadores aos quais se dirige;
incluir as características essenciais que permitem identificar o conceito dentro do sistema conceptual;
usar conceitos que já são conhecidos pelo destinatário ou que pelo menos se encontrem definidos no mesmo glossário ou dicionário;
ter uma estrutura lexical e sintáctica coerente; ser clara e concisa, evitando ambiguidades;
permitir a distinção entre o conceito e conceitos similares no mesmo domínio ou em domínios distintos;
reflectir as relações sistemáticas que o conceito estabelece com outros conceitos do mesmo domínio;
estar de acordo com os objectivos do projecto onde vai ser inserida.
Contudo, conforme lembra Dubuc (1992 apud COUTO, 2003), não há um modelo único de definição que satisfaça todas as situações, e a obediência a todas essas regras pode ocasionar a produção de uma má definição. Por causa disso, uma regra que foi abandonada algumas vezes, foi a elaboração da definição em uma única frase, prática que muitas vezes deixa o enunciado longo. Da mesma forma, nem sempre é respeitada a regra da não inclusão da palavra definida na definição, pois algumas vezes, a raiz do vocábulo é o vocábulo genérico (hiperônimo), e por isso, o mesmo é utilizado na definição.
Assim sendo, baseando-nos nas recomendações lidas, consideramos alguns critérios na elaboração das definições que compõem o glossário:
a. Formulação de um enunciado claro e objetivo.
b. Formulação da definição a partir do conjunto das informações definitórias recolhidas. c. Utilização de conceitos mais conhecidos pelos destinatários (público-alvo).
d. Escolha pela definição por compreensão, ou seja, definição clássica com indicação de gênero próximo (conceito genérico supostamente mais conhecido) e diferença específica (características distintivas que delimitam o conceito). Optamos por essa definição sempre que foi possível.
e. Formulação de definições na forma afirmativa, sempre que possível.
f. As palavras que iniciam as definições têm a mesma classe gramatical e o mesmo número (singular e plural) da lexia que se define, de forma a termos as seguintes matrizes de definição: - nome (substantivo): nome com mesma classe gramatical ± descrição ± funcionalidade. - nome (adjetivo): diz-se de ± descrição ± funcionalidade.
g. Utilização de estruturas lexical e sintática coerentes.
h. Formulação de definições de acordo com os objetivos do trabalho. h. Contexto
Segundo Correia (2000) é apenas no contexto em que a palavra se encontra que podemos determinar com precisão seu significado, resolvendo casos de ambiguidade na interpretação do vocábulo. Nas palavras de Aubert (2001, p. 31), o contexto é “o veículo dos traços semânticos que permite associar termo e conceito em uma situação precisa”. Consoante esse autor, os contextos de ocorrência dos termos podem ser repartidos em três categorias:
(a) Contextos associativos: apresenta o termo como pertinente ao tema objeto da pesquisa, mas não indica os traços conceptuais específicos destes termos; (b) Contextos explicativos: apresentam alguns traços conceptuais pertinentes específicos do termo sob observação, frequentemente relativos à materialidade, finalidade, funcionamento, e similares.
(c) Contextos definitórios: proporcionam um conjunto completo dos traços conceptuais distintivos do termo (AUBERT, 2001, p. 68 e 69).
Com base nessa categorização, adotamos em nossa pesquisa os três tipos de contextos, sendo os mais utilizados, os associativos e os explicativos. Como todos os contextos foram selecionados dos discursos dos informantes, nem sempre foi possível apresentar um contexto definitório, com um conjunto objetivo e completo de traços conceituais da lexia em análise. i. Remissivas
São as relações estabelecidas pelas lexias dentro da obra lexicográfica, mantendo uma coerência semântica. Segundo Cabré (1993), as remissivas podem ser: informativas ou prescritivas. Nas remissivas prescritivas, um termo remete a outro para mostrar o uso prioritário; nas informativas, as lexias relacionam-se com o objetivo de aumentar suas conceituações, sendo inseridas dentro de contextos de equivalência ou contraste semântico:
Equivalência (sinonímia): variantes, siglas e respectivas formas completas e
respectivas abreviações, termo e seu nome científico, termo e o símbolo que o representa. Contraste ou inclusão: antônimos, hipônimos e co-hipônimos (CABRE, 1993, p. 314).
Em nosso verbete, a remissiva aparece com a forma abreviada: cf. (conferir) e indica as relações de equivalência, contraste ou inclusão.
j. Notas linguísticas
As notas linguísticas referem-se aos dados linguísticos de forma geral, podendo trazer informações sobre etimologia, processos de formação de palavras ou explicações de possíveis fenômenos fonéticos que compõem a lexia. Nossas notas linguísticas foram retiradas dos dicionários eletrônicos que consultamos: Houaiss (2009) e Ferreira (2004), bem como, de informações presentes no segundo capítulo desse trabalho.
l. Notas enciclopédicas
As notas enciclopédicas trazem informações de natureza histórica e/ou sociocultural, bem como curiosidades sobre a lexia. Essas notas objetivam contribuir para uma compreensão mais ampla da lexia estudada. As informações presentes nessas notas foram retiradas das enciclopédias de Cascudo (2012), Lopes (2004) e Morgan (1979).
As perspectivas gráficas dos elementos formadores dos verbetes foram organizadas no esquema a seguir:
4ª linha: definição em caixa baixa (exceto primeira letra) em célula com
sombreamento na cor cinza.
3ª linha: entre colchetes, na ordem – 1º: domínio ou área de aplicação da lexia (caixa baixa), 2º: indicação do campo conceitual da lexia (caixa baixa), 3º: indicação de dicionarização ou não das lexias, com acepção dicionarizada (caixa alta).
2ª linha: variantes – caixa baixa.
1ª linha: lexia-entrada em negrito e caixa alta, seguida por indicação
gramatical abreviada, em negrito e em caixa baixa. Célula com sombreamento na cor marrom.
5ª linha: contexto em itálico, entre aspas, com indicação em negrito e itálico
da lexia-ocorrência.
6ª linha: remissivas em caixa baixa, indicadas pela sigla Cf: conferir. 7ª linha: notas linguísticas vêm dentro de célula com bordas em linhas
pretas – o nome ‘notas linguísticas’ vem em negrito e caixa baixa (menos primeira letra) junto as informações escritas em caixa baixa (exceto primeira letra)
8ª linha: notas enciclopédicas vêm dentro de célula com bordas em linhas
pretas – o nome ‘notas enciclopédicas’ vem em negrito e caixa baixa (menos primeira letra) junto as informações escritas em caixa baixa (exceto primeira letra)
var. morfossintática: coco de roda.