2. KURAMSAL TEMELLER
2.4 Borun Çevresel Etkileri
2.4.3 Ters Osmoz
Ainda em São Paulo, levei a narrativa para uma casa de atendimento a moradores de rua mantida por uma instituição católica e localizada no bairro do Brás. Entrei em contato com essa casa por intermédio de uma amiga que ali trabalhava e que estava tentando
115 organizar uma programação cultural diversificada. Sentia-me motivado a atuar junto a um público que, como os pescadores da história, também vive à margem da sociedade, sofrendo discriminações e violências diversas.
Ao chegar à casa, encontrei um contexto bem diferente das intervenções que eu havia realizado no parque: um salão fechado, apesar de amplo, cujo espaço já estava formatado para uma apresentação, com cadeiras dispostas em semicírculo voltadas para um palco sobre o qual, curiosamente, estava um aparelho de televisão desligado. Outra diferença em relação às intervenções no parque é que ali o público já estava me aguardando: eram uns cinqüenta homens sentados nas cadeiras e, fiquei sabendo depois, um pouco contrariados porque preferiam assistir televisão, ao invés da atividade programada para aquele dia. No momento em que entrei no salão, minha amiga estava justamente explicando que o contador de histórias estava para chegar e que por isso não ligaria a televisão. Nesse instante, ela me viu na porta e anunciou aliviada: “Ele chegou!”. Eu havia levado um tambor e imediatamente comecei a tocá-lo. O grupo reagiu com entusiasmo, batendo palmas ao ritmo do tambor. Atravessei o longo salão e me aproximei da roda. No entanto, ao invés de emendar aquela recepção com a narrativa, hesitei: eu ainda não havia cumprimentado minha amiga e queria entregar a ela uma câmera fotográfica para que a narrativa fosse regisrada. Essas ações, que duraram menos de um minuto, quebraram a atmosfera da entrada por mais que, em seguida, eu voltasse a tocar o tambor com animação. De alguma forma, aquela quebra acabou marcando a relação que estabelecemos durante a narrativa: eu havia rompido a energia que havíamos começado a estabelecer para cumprimentar a “funcionária” da instituição e entregar-lhe uma câmera – tudo isso diante de seus olhos; tudo isso, cena. A partir daí, senti que a maioria deles passou a me observar um pouco à distância, ainda que fisicamente continuássemos próximos.
No entanto, alguns se mostraram bastante interessados pela história, especialmente quando anunciei que era sobre pescadores cearenses. Perguntei se alguém tinha nascido no Ceará. De fato, havia alguns cearenses no grupo que, por sinal, conheciam a Praia de Iracema. “Muito bonita”, um deles disse. Outro homem afirmou já ter pescado naquela praia. Contei, então, que há cem anos atrás ela era uma vila de pescadores e se chamava Praia do Peixe. Com a chegada do turismo, as casas de veraneio foram substituindo as palhoças dos pescadores; estes foram proibidos, por um decreto da Prefeitura, de venderem seu peixe na praia; por fim, após uma campanha encabeçada pelas famílias ricas de Fortaleza e apoiada por jornais e revistas a elas associados, a Praia do Peixe passou a ser chamada Praia de Iracema, em homenagem ao escritor cearense José de Alencar. Com essas informações, sintetizei
116 alguns dos motivos que levaram os quatro pescadores a viajarem de jangada até o Rio de Janeiro para falar diretamente com o Presidente Getúlio Vargas.
O fato de ter levado um tambor acabou fortalecendo as referências à religiosidade afrobrasileira, muito presente entre os homens do mar na figura de Iemanjá. Para ilustrar um episódio da viagem, em que os moradores de uma vila fizeram promessa para que os pescadores sobrevivessem a um forte temporal, cantei Promessa de pescador, de Dorival Caymmi, que assim evoca Iemanjá:
Alodê Iemanjá odoiá!
Senhora que é das águas,
tome conta de meu filho, que eu também já fui do mar. Hoje tô velho, acabado, nem no remo sei pegar... Tome conta de meu filho, que eu também já fui do mar.
Alodê Iemanjá odoiá!
Quando chegar o seu dia,
pescador véio promete, pescador vai lhe levar um presente bem bonito para dona Iemanjá... Filho meu é quem carrega desde terra inté o mar!
Alodê Iemanjá odoiá!
Ao cantar a canção, tinha consciência de estar atuando em um espaço mantido por uma instituição católica, que nem sempre vê com bons olhos manifestações de outras religiões, sobretudo as de origem africana. Justamente por isso, considerava importante a presença dessa canção na narrativa: para lembrar que vivemos em um país com religiosidades muito diversas, cuja colonização passou, inclusive, pela aculturação religiosa. Ajoelhado, tocando o tambor, cantei a canção procurando evocar verdadeiramente as energias ligadas ao mar e que ali levavam o nome de Iemanjá.
Com esse grupo, consegui narrar mais detalhes da viagem em si, o que incluía os encontros com outros pescadores ao longo de todo o litoral nordestino e a solidariedade que encontraram entre seus iguais, que se sentiam representados pelos quatro jangadeiros. Ao descrever a chegada ao Rio de Janeiro, voltei a fazer o discurso de Jacaré. Apenas nesse momento subi ao palco, utilizando um microfone que havia ali para recriar a situação do pescador discursando pela primeira vez em um palanque, diante de uma multidão.
Ao narrar o encontro com Getúlio Vargas, repeti a frase que este havia dito aos pescadores: “Contem tudo, não tenham medo”. Após uma pausa, perguntei o que eles diriam ao Presidente da República se ele lhes pedisse que “contassem tudo”. A resposta foi um grande silêncio. Ninguém disse nada. Estariam pensando? Teriam ficado inibidos diante da
117 exposição que seria falarem de si naquele espaço? Não insisti: passei a narrar o que os pescadores tinham contado ao Presidente e algumas garantias que tinham conseguido junto a ele, inclusive o reconhecimento legal da categoria como trabalhadores.
Não estava sendo uma interação muito fácil e eu achei melhor finalizar a narrativa. Batendo ritmadamente o tambor, anunciei que em 1951, 1958, 1968, 1972 e 1993, outras viagens tinham sido feitas pelos mesmos motivos por outros jangadeiros nordestinos, como um ritual de persistência de diferentes gerações de pescadores. Agradeci a atenção de todos e me despedi. Mal terminei de dizer as últimas palavras, os homens se levantaram correndo com suas cadeiras, disputando um lugar junto ao palco: a televisão ia ser ligada. Admito que fiquei um tanto chocado com a cena. A impressão que tive é que eles estavam o tempo inteiro esperando o fim da narrativa para, finalmente, assistirem televisão. E não se tratava de algum programa específico: o interesse era mesmo a televisão. Minha amiga me contou que isso sempre acontecia e que era justamente por esse motivo que ela queria criar programações diversificadas. Alguns deles, no entanto, vieram conversar comigo – não por coincidência, os que eram cearenses – dizendo que nunca tinham ouvido falar daqueles pescadores e que tinham gostado de conhecer a história da Praia de Iracema.
Essa experiência me fez refletir sobre a importância do que Hassane Kouyaté chamou de “o início do começo da palavra”: o momento que antecede a história a ser narrada, em que narrador e público se encontram e começam a estabelecer um vínculo, a criar conjuntamente um encontro. Nas intervenções que realizei no parque, esse vínculo se deu mais facilmente, de forma espontânea, a partir da aproximação de algumas pessoas que se identificaram com as canções que eu estava cantando ou com a atitude que eu estava tendo no parque. Já nessa instituição, a narrativa não se deu como consequência de uma aproximação, e sim como parte de uma programação previamente estabelecida e que contrariava, de certa forma, os interesses imediatos daquele público. Essa constatação levou-me ao seguinte questionamento: como estabelecer esse vínculo mais pessoal e espontâneo com o público em situações diversificadas, e não unicamente em intervenções?