2.3 Kompozit M alzemelerin Temel Bileşenleri
2.3.1 Matris Malzemeleri
2.3.1.1 Termoset Matris Malzemeleri
Tendo pesquisado, assistido ao workshop, conversado com a equipe, e de posse do roteiro
72 Depoimento concedido à autora em 9 de maio de 2005.
escrito, Luís Alberto de Abreu elaborou um enredo (sinopse), apresentando uma sugestão de história. Esse enredo foi baseado nas sugestões encenadas e registradas pelo grupo, de idéias próprias e de elementos dramatúrgicos que julgava necessários. O documento recebeu o título de “ENREDO
pocket” :
A Companhia de Teatro Musicado Alcantil das Alterosas não anda muito bem das pernas. O País está em crise, a economia está em crise, o teatro está em crise e dentre todas essas crises a do Alcantil é a maior. A Companhia já teve alguma glória, há tempos, quando “mambembava” pelo interior ( e mesmo quando se fixou num bairro afastado do centro ) mas agora o público rareia e a troupe mal ganha para a subsistência. Depois de considerarem a dissolução da Companhia, convenceram o empresário Sandoval a tentar uma última cartada: a montagem de uma revista musical chamada “De Curral Del Rey a Belo Horizonte”, de autoria de Praxedes, ponto da Companhia. Os atores repassam os principais números musicais pouco antes da estréia e nesse ensaio percebe-se no elenco tanto conflitos pessoais quanto conflitos relacionados à própria visão teatral e à condução da Companhia. Estréiam a revista com um grande número de abertura. Ao fim do número percebem que os poucos gatos pingados presentes foram embora. A desolação é transformada em euforia, não sem custo e conflito, quando o empresário Sandoval consegue convencer o elenco a fazer um filme. O assunto do filme – a questão do corno e do adultério - tem certa simetria com a vida real do elenco o que provoca algum mal estar logo superado em razão do objetivo maior que é chegar as telas. Os atores são ensaiados com dificuldade em razão da nova linguagem artística. No dia da estréia do filme, Sandoval reúne o elenco para um comunicado: foi compelido, em função do gosto do público, a incluir, na película, alguns atores famosos, em algumas pequenas cenas. Na projeção do filme o elenco percebe que foi substituído na maioria das cenas ficando apenas com a figuração. Após imensa discussão que termina com a destruição do projetor, o elenco em respeito ao público presente resolve encenar o restante do filme, fundindo o assunto do filme com a própria história da Companhia.
Percebe-se que, como o workshop abordou apenas até a cena do cinema – comentários do elenco sobre as filmagens – Abreu deu prosseguimento e conclusão à trama. Enquanto estrutura, o enredo permaneceu o mesmo durante todo o processo.
Na seqüência, Luís Alberto de Abreu elaborou um canovaccio – roteiro de ações detalhado, cena a cena, uma sugestão de desenvolvimento do texto a partir do que fora proposto no enredo. Um detalhe importante: o documento recebeu o nome de “CANOVACCIO Um big, extra large pocket” – sinal de que a idéia original de se fazer uma peça curta mostrava-se cada vez mais distante.
O trecho a seguir, referente às duas primeiras cenas apresentadas pelo grupo no workshop, dá uma idéia do que permaneceu das sugestões do grupo e dos acréscimos sugeridos pelo dramaturgo:
CENA 1
Seu Coisinha, um velho figurante e contra-regra da Cia de Teatro Musicado Alcantil das Alterosas prepara o palco para a estréia que acontecerá mais tarde. Ele tem uma ligação quase fetichista com relação ao teatro. Gosta das cadeiras, dos instrumentos musicais, das cortinas, da maquinaria, gosta até das pulgas e do cheiro velho, às vezes de mofo, que impregna o teatro. O cheiro é de arte, dos fantasmas que habitam os velhos tablados. Seu Coisinha abre a caixa do trombone carinhosamente e revela seu amor por Gracinha, a trombonista. É um amor “sui generis”, que não pode ser sensual em razão de sua idade e insiste em não ser
platônico. Lamenta ter perdido a potência sem perder o desejo. Lembra-se rapidamente de seu tempo de figurante e factótum de circo mambembe no começo do século.
CENA 2
Entra o maestro e compositor Madeira. Coisinha dirige-se pressuroso a ele e pergunta-lhe, com algum malícia sobre Gracinha. Madeira responde-lhe irritado que não quer mais uma amante na Companhia. Estranha o empenho de Coisinha em querer arrumar-lhe amantes já que este foi seu pombo-correio entre Madeira e Florisbela, mulher de Meireles. Coisinha confessa-lhe que foi um grande amante no passado, por isso lhe admira. Madeira retruca que ser amante é um árduo trabalho e que pensa que, às vezes, é melhor ser corno, que é a vocação natural do homem. Coisinha pede-lhe dinheiro emprestado e ao ouvir a negativa, espertamente insinua que vai pedir a Meireles, marido de Florisbela, amante de Madeira. Este acaba lhe emprestando. Madeira pergunta por Florisbela. Esta surge com uma postura de mulher fatal e tem início uma cena musical na qual a música é tocada por Coisinha, Madeira e Florisbela. A cena começa com Florisbela representando uma princesa oriental que tenta conquistar o sultão de todas as arábias, sultão já velho e cansado de satisfazer tantas concubinas. A princesa, a custo, consegue conquista-lo quando, dançando um maxixe ou samba, revela-se uma morena brasileira de Governador Valadares que foi aos Estados Unidos e acabou vendida como escrava branca para o Oriente Médio.
Pode-se notar que, na sugestão apresentada como primeira cena, o dramaturgo acrescenta ao esboço do workshop dados de ação e de composição da personagem Seu Coisinha - alguns desses elementos serão aproveitados pelo diretor musical na canção de abertura. Abreu mantém o amor do contra-regra pelo teatro, acrescenta erotismo na sua paixão por D. Gracinha e dá a ele um passado. Como poderá ser visto adiante, Abreu irá lançar mão de Lopes (anteriormente chamado Provisório) para transformar a primeira cena numa espécie de prólogo.
Na segunda cena apresentada no canovaccio, Abreu sugere que Seu Coisinha é o cupido da companhia, reforçando sua malícia. Mantém a chantagem entre as personagens, o pedido de dinheiro, e adianta a chegada de Florisbela, antes reservada à cena 3, abordando a traição. Finalmente, sugere o tema musical a ser desenvolvido – a princesa oriental que é, na verdade, uma mulata.
Percebe-se ao longo do canovaccio que o trabalho do dramaturgo consistiu em dar unidade ao que antes era uma sucessão de cenas em que os atores sugeriam situações e apresentavam suas personagens. Aprofundaram-se as caracterizações, antes esboçadas por meio de alguns traços marcantes (a tímida, a amante, as gêmeas opostas, o ponto arraigado à tradição, o grande ator, etc). Desenvolveu-se um encadeamento mais orgânico entre as cenas, mudaram a ordem e o motivo de entrada de algumas personagens, envolveu-se de teatralidade a inserção cinematográfica pretendida para o bloco final do espetáculo.
Depois de analisado e aprovado o canovaccio, diretor e elenco passaram a trabalhar as sugestões do dramaturgo por meio de improvisações. Chico Pelúcio devolvia impressões, sugestões e resultados
para Abreu, via telefone ou internet 74. Em seu trabalho de estruturação, o dramaturgo havia proposto
alguns cortes nas sugestões dos atores. Lydia Del Picchia comenta a respeito:
Me lembro que a Fofinha tinha uma relação com todas as personagens femininas, ela era meio sacoleira, e vivia vendendo batons, meias finas, bijuterias baratas e sei lá o que mais para suas colegas. É claro que isso foi “sumido” no texto, pois realmente não contribuía com o roteiro, eram situações que dispersavam as cenas, etc., mas até a gente entender e engolir demora um pouco (...). 75
Paralelamente, Abreu desenvolvia uma sugestão de texto que ia sendo apresentada ao grupo e “confrontada” com as cenas produzidas a partir do canovaccio. Assim, a equipe improvisava, desenvolvia as personagens e situações por si própria, com base no workshop e nas sugestões primeiras do dramaturgo. Em seguida, começou a surgir o texto (com desenvolvimento de ações, diálogos e rubricas) - que era, ele também, um desenvolvimento do canovaccio e das improvisações, passadas ao dramaturgo pelo diretor.
O fato de o texto ser desenvolvido paralelamente às improvisações pode sugerir, à primeira vista, uma certa “inutilidade” destas. Num outro tipo de metodologia, poder-se-ia pensar que, com a chegada do texto, é ele que deve prevalecer – o mito da letra impressa e “definitiva”. Ocorre que um texto no processo colaborativo, nunca pode ser considerado definitivo antes de ser experimentado na prática, de ser confrontado com outras instâncias criativas, de ser analisado/comentado/interpretado criticamente pelo grupo. No caso de Um trem chamado desejo, era justamente da operação de cotejamento entre improvisações e texto que ia surgindo o espetáculo.
Ou seja, tanto soluções cênicas quanto referentes ao texto surgiram dessa conjunção. Ao mesmo tempo, à medida que as músicas iam sendo compostas, o grupo tinha mais um elemento a ser trabalhado. Por vezes, a letra repetia o que estava sendo dito no texto – ou vice-versa. Aos atores e ao diretor cabia, muitas vezes, selecionar algum trecho de uma ou de outro para ser cortado. As letras iam sendo passadas também para o dramaturgo que, eventualmente, fazia ele mesmo uma pré-edição antes de mandar o texto para o grupo.
No que se refere às sugestões do dramaturgo, de maneira geral as elaborações do grupo coincidiam, senão ipsis literis, ao menos em boa parte do sentido, confirmando a eficiência do trabalho
74 Em conversa com Vilma Campos, Mestre em Artes com a dissertação A criação literária e o jogo teatral. (2003), em que
aborda a escrita a partir da cena improvisada, ela salientou o papel das novas tecnologias a serviço da criação teatral. Segundo Vilma, esse tipo de experiência (colaboração à distância e, às vezes, em tempo real) não seria possível tempos atrás, assim como a utilização de gravação de ensaios para ser assistida pelo dramaturgo ausente (caso ocorrido no processo de Apocalipse 1,11, por exemplo) ou para ser analisada posteriormente pela equipe. A mediação tecnológica, nesse caso, constitui um elemento quase que fundamental para a realização do projeto, principalmente devido à distância física entre os participantes.
com o roteiro de ações. Durante todo o tempo Chico Pelúcio mantinha contato com Abreu, retornando comentários e o andamento do processo e, via de regra, esses comentários refletiam no texto que ia sendo escrito.
A seguir, um trecho dessa primeira versão, referente às duas primeiras cenas que são já de conhecimento do leitor, fará perceber mudanças em relação ao próprio canovaccio – o que pode ter sido determinado pelas contribuições do elenco, direção e equipe. As músicas originais compostas por Tim Rescala, por exemplo, são fundamentais para a caracterização das personagens e das situações perante o público, bem como para a ambientação pretendida pelo grupo.
CENA 1 – Do amor ao teatro e de outros amores.
SEU COISINHA ENTRA, ARRUMA ALGUNS OBJETOS DE CENA, DÁ OS TRÊS SINAIS CARACTERÍSTICOS DO INÍCIO DO ESPETÁCULO E SAI PARA QUASE IMEDIATAMENTE ENTRAR ALTIVO, TRANSMUTADO EM UM PERSONAGEM NOBRE E DRAMÁTICO. CAMINHA EM PASSOS LARGOS EM DIREÇÃO À PLATÉIA, ESTACA E DECLAMA COM INUSITADA FORÇA DRAMÁTICA.
COISINHA Pudesse eu parar a roda do tempo
E fazer retornar os minutos fugidios
Juntar os fios do passado
À eternidade do presente momento;
Ah!, pudesse eu retornar à minha juventude,
Àqueles serenos dias!
E sorver agora aquele sincero amor de ontem
Que em minh’alma como fonte se abria.
(COISINHA PÕE A MÃO EM PALA) Mas quem vem lá? (CORRE A OUTRO LUGAR E COMPÕE A PERSONAGEM E A VOZ DE UMA MULHER. A PARTIR DE AGORA COISINHA ENTRA EM FRENESI INTERPRETANDO NUM ÚNICO FLUXO TODOS OS PERSONAGENS.) Não me reconhece, pústula! Vim do passado fazer justiça! (PAI) Não creio em meus olhos! (FILHA) Pai! Pai! (PAI) Não entre aqui, Madalena! (FILHA) Quem é essa mulher? (MULHER) Sou sua mãe. Sua verdadeira mãe! (PAI) Meu Deus! (MULHER) É em nome desse mesmo Deus, que não devia estar em sua boca, que estou aqui. (FILHA) Então era verdade? Era verdade o que a velha ama me contou? (PAI) Posso explicar! (MULHER) Negue se tem coragem! (PAUSA DRAMÁTICA) (PAI) Filha! (FILHA) Saio hoje dessa casa pra nunca mais lhe ver! (BATE PALMAS) (MENSAGEIRO) Trago más notícias, senhor! Seu sócio deu desfalque em sua empresa! (PAI) Fui traído! As desgraças caem sobre mim como chuva! (CAI AO CHÃO) (MULHER) Vai, tenha uma longa vida para que nela rasteje até o fim de seus dias! (PAI) Infâmia! Deus sabe que não fui culpado! (COISINHA RETOMA SEU PRÓPRIO CARÁTER E VIBRA.) Lindo! Lindo! Lindo! Me emociona... (VÊ A CAIXA DO TROMBONE DE GRACINHA E A TOMA) me emociona como isso! (ABRE A CAIXA) Gracinha! Fosse eu um ator e lhe amaria como meu maior personagem! (CANTA)
Antes, bem antes do elenco chegar / E começar a ensaiar Me ponho logo a arrumar / Pois tudo tem seu lugar (...) Meu esfregão se transforma / Na espada de um cavaleiro Ou minhas roupas se tornam / Os trajes de um rei justiceiro
Eu me imagino em lugares / Bem longe, onde eu nunca pisei E até me vejo nos braços / Do amor que eu nunca terei.
(COISINHA RETOMA O PERSONAGEM DO PAI, SE CONFRANGE E COMEÇA A SOLUÇAR. ERGUE-SE, COM EXPRESSÃO DETERMINADA) Repudiado, rejeitado, envilecido! À minha frente só se abre o caminho negro da morte! Mas, não! (NUM CRESCENDO) Hei de mudar o destino que as estrelas me querem impor. Hei de recobrar o respeito de minha família e recuperar o amor de outrora. Brando armas, luto agora e venço. Ou hei de morrer tentando.
Mas logo retorno à vida real / Pois tudo volta ao normal Não posso me transformar / Num Cinderelo a sonhar. (...) Antes do elenco chegar / Tudo retorna ao normal
Tudo eu arrumo / Tudo eu ajeito / Antes de dar o sinal. COISINHA Ah!, o teatro! Quero morrer neste palco! (ENTRA LOPES)
LOPES Eu, não, Seu Coisinha! Quero morrer bem longe desse tabladinho fuleiro! COISINHA Ah, seu Lopes! Faz tempo que o senhor está aí?
LOPES Cheguei agora. Nem vi sua ardente declaração de amor ao trombone de dona Gracinha. Vou dizer uma coisa, seu Coisinha: Falar sozinho leva à loucura. COISINHA Não falo sozinho. Só relembro cenas.
LOPES E esse palco já teve cena que prestasse?
COISINHA Como não, seu Lopes? Cada cadeira, cada velha cortina, cada objeto... Até o suor das paredes, até o ar, tudo aqui lembra os velhos atores e as grandes atrizes.
LOPES O ar me traz cheiro de mofo!
COISINHA Esse lugar tem vida, seu Lopes. À noite, as vigas estalam, as tábuas do palco rangem e mais de uma vez eu já vi naquele canto o fantasma do diretor Furtado Coelho, acredita?
LOPES Acredito. Eu também tenho visto, à noite, durante o espetáculo, muito fantasma... lá na platéia. Gente viva que é bom, que paga ingresso, nada!
COISINHA É, a coisa vai mal, o público anda sumido. Mas a estréia de hoje vai ser sucesso!
LOPES Amém pra nós todos que estamos precisados!
COISINHA É, uns mais outros menos. Sucesso, casa cheia, fila na bilheteria, ingressos vendidos... O senhor por acaso não teria algum pra me emprestar por conta do nosso sucesso de hoje à noite?
LOPES Estou liso, seu Coisinha. E dona Abigail? O senhor poderia dar uma mão...
COISINHA Ih, não tem por onde! Já tentei facilitar Dona Abigail para o Meireles, para o Praxedes, até pra mim eu tentei!
LOPES (RI) Pro senhor, seu Coisinha?
COISINHA (MALICIOSO) É, o homem perde os dentes, mas nem por isso perde a fome. LOPES Ontem à noite... Quase, seu Coisinha, quase!
COISINHA Ah!, “Quase” não sai no jornal.
COISINHA É. E pensar que deixei uma ótima companhia mambembe, de casa sempre cheia, pra entrar nessa companhia. O que um homem não faz por um par de olhos de uma mulher. Principalmente quando o par de olhos tem atrás um corpo daqueles! LOPES O senhor respeite Abigail, seu Coisinha!
COISINHA Respeito, meu filho! Contra minha mais íntima vontade e minha mais expressa intenção, respeito! De uns tempos pra cá não tenho feito outra coisa senão respeitar toda e qualquer mulher.
LOPES Onde meu coração foi amarrar minha égua, seu Coisinha! (SAI)
COISINHA Em pasto que não brota água nem nasce capim, seu Lopes. Vai por mim. (REINICIA A CANTAR. ENTRA MADEIRA).
Nesta primeira cena, o dramaturgo desenvolveu quase que ponto por ponto o que estabelecera no canovaccio. O texto demonstra a “veia trágica” – ou melodramática - de Seu Coisinha, e suas frustrações e antecipa a entrada de Lopes, apresentando seu interesse por Abigail. No diálogo entre eles, adianta-se a cupidez de Seu Coisinha e mantém-se o erotismo da personagem, caracterizando-o também como ardiloso. Como se pode ver, Tim Rescala já havia composto o tema musical da cena.
A cena 2, elaborada dramaturgicamente, ficou com a seguinte configuração:
CENA 2 – Sobre amantes e sobre uma hiperbólica cena musical.
MADEIRA (ENTRANDO) Bom dia, Seu Coisinha! Meireles já chegou?
COISINHA Não, mas dona Florisbela já está se trocando. MADEIRA Ótimo.
COISINHA Ah, seu Madeira... E sobre Gracinha?
MADEIRA Pensei bem e resolvi que não. Gracinha é um pedaço de mulher, mas está envolvida com o Sandoval, o produtor. Não é bom mexer nem com mulher de patrão nem de delegado.
COISINHA O senhor é que sabe.
MADEIRA Me diz uma coisa: Por que o senhor que já trabalhou pra me juntar com Florisbela quer agora me juntar com Gracinha?
COISINHA É que eu amo o teatro dramático, as atrizes e as grandes histórias, seu Madeira. Gracinha é especial, foi feita para os grandes amores. Eu mesmo se ainda tivesse competência para esses assuntos ousaria sonhá-la pra mim.
MADEIRA O senhor é um perigo, Seu Coisinha!
COISINHA Fui. Mas ela merece uma história melhor do que a que tem com o Sandoval.
MADEIRA E o que é que eu tenho com isso?
COISINHA Na vida e na arte os amantes são grandes personagens.
MADEIRA Obrigado pela consideração, mas estou satisfeito com meu caso com Florisbela. COISINHA Pois eu, não! Seu caso se transformou num ramerrão insosso. Está faltando na sua vida
o risco das grandes histórias! O risco é o alimento da paixão, seu Madeira! O que seria de Romeu e Julieta sem o risco da tragédia? Um casamentinho trivial!
MADEIRA E eu vou correr risco para o seu divertimento? Ser amante é uma coisa séria, seu Coisinha. É um trabalho árduo, atribulado, cansativo.
COISINHA Eu também acho, mas qual é o interesse que tem o seu caso com a Florisbela se o Meireles nunca descobrir?
MADEIRA Que é que o senhor está querendo? Ver minha caveira no necrotério, seu Coisinha? COISINHA Só quero um pouco de ação, uma história que possa ser lembrada, contada, talvez até
escrita e representada!
MADEIRA O senhor é contra-regra não é dramaturgo, seu Coisinha! COISINHA A paixão é a mesma na vida e no palco!
MADEIRA Só que na vida um corno furioso faz um estrago bem maior. E quieta que esse assunto me dá arrepios.
COISINHA Está bem, mas será que o senhor não teria uns dez mil réis...
MADEIRA Não, não tenho!
COISINHA Está bem, deixa estar! Vou falar com o Meireles ...
MADEIRA (ASSUSTADO) Falar o que?
COISINHA Talvez ele se mostre mais amigo e me empreste.
MADEIRA (RECONSIDERA) Não tenho dez, mas dois posso lhe adiantar no momento.
COISINHA Serve, obrigado. Quem encontra um amigo, encontra um tesouro! (PEGA O DINHEIRO E SAI. SURGE FLORISBELA VESTIDA DE ODALISCA).
FLORIS Meu suspiro!
MADEIRA Meu Bombom!
FLORIS Não, não me toque!
MADEIRA Meireles ainda não chegou!
FLORIS Então, me toque, me toque! Agora chega, que eu também não sou uma qualquer! Não é hora nem lugar!
MADEIRA Você me enlouquece! Porque não veio ontem ao nosso encontro?
FLORIS Não pude. O Meireles me requisitou para ensaios dramáticos de morte morrida e morte matada. Morte morrida repentina, acidente, longa agonia e enfarte. Morte matada a punhal, a tiro, suicídios variados por envenenamento, enforcamento, ai! Eu não agüento mais o Meireles!
MADEIRA Amanhã, então?
FLORIS Não vai dar! Ele me requisitou para ensaio de riso louco, riso trágico, riso irônico, riso satânico e sardônico!
MADEIRA Deixa o Meireles para lá. Você está linda! Esse número ainda vai fazer sucesso no Rio de Janeiro!
FLORIS Ah, o meu sonho! Estrelar um musical no Rio de Janeiro! (MADEIRA TENTA
BEIJÁ-LA) Depois! Depois, quantos beijos quiser, meu Sultão! (CANTAM) Eu sou uma princesa / Uma princesa oriental
Dos homens a fraqueza / Maliciosa e fatal. (...)
Eu sou mais que uma princesa / Sou mulata com certeza Mulata brasileira / Fogosa e faceira
É esse meu segredo / Eu só vou contar pro meu sultão (...) Mas hoje, já liberta / Respiro outros ares
E nunca mais porei / O meu pé em Valadares. 76
Nesta segunda cena, acentuam-se a malícia e as artimanhas de Seu Coisinha, tornando-o temível, pois sabe de tudo o que ocorre na companhia – principalmente os detalhes sórdidos. Do diálogo, mantém-se o comentário sobre o romance de Madeira com Florisbela e o misto de pedido de empréstimo e chantagem. No trecho do casal, o dramaturgo tirou o bilhete que, na idéia do workshop, seria usado,