Uma reflexão teórica introspectiva a partir da qual o pesquisador descreva a experiência fenomenológica de construção de sentidos que emergem da produção e do uso comunicativo de cenários discursivos intertextuais pode decorrer, nos termos propostos por Talmy (2006), da “consciência de segundo nível”. Para fins de produzir essa descrição teórica, o pesquisador dedica atenção consciente, volitiva e dirigida para o trabalho de identificação e de análise de conteúdos discursivo-cognitivos implicados na manifestação do fenômeno em estudo. Como
veremos, essa é a essência metodológica do modelo da integração conceptual da Escola de Aarhus, utilizado para fins de descrição da experiência fenomenológica da construção de sentidos.
Neste trabalho de pesquisa, o método da introspecção, caracterizado pela consciência de segundo nível, nos permite descrever teoricamente diferentes formas de conhecimento que o falante/ouvinte pode evocar no processo de construção e de compreensão de um cenário discursivo intertextual. Essa descrição teórica pode ser realizada com base na observância de três fatores: a situação comunicativa em curso; as condições atencionais dos sujeitos envolvidos nessa situação e a própria categoria do objeto de análise.
Esses três fatores convergem para os fundamentos teóricos e metodológicos do modelo proposto pela Escola de Aarhus.
A mesclagem é um evento cognitivo semiótico e a cognição semiótica é representacional. As representações são essenciais para a vida mental dos seres humanos como agentes semióticos; nós representamos conteúdos para nós mesmos, sempre que estamos conscientes e, entre nós, na comunicação. Agentes semióticos também não ignoram a situação em que sua comunicação se realiza. Tanto a representação da situação da comunicação quanto as representações do conteúdo semântico/pragmático da interação comunicativa são experienciadas pelos participantes da situação comunicativa — e pelo semanticista, depois de ter compreendido o significado daquilo que foi expresso. A diferença entre produzir dados e analisá-los é que o evento cognitivo original da experienciação do sentido de um signo é meticulosamente reconstruído em uma simulação mental lenta. A Semiótica Cognitiva, portanto, propõe uma abordagem fenomenológica do significado: os fenômenos a serem descritos pertencem ao mundo da experiência humana. (Brandt e Brandt, 2005, p. 243, tradução e grifos da autora)
No que se refere à natureza do objeto em estudo, retomemos, de maneira breve, argumentos que permitem caracterizá-la da forma como esse objeto é compreendido neste trabalho de investigação. Como vimos no Capítulo 1, a análise do fenômeno da intertextualidade aqui proposta se baseia em um conjunto de quatro premissas. Para fins de facilitar a retomada dessas premissas, transcrevo-as em seguida.
i. Apesar de manifestado e identificado na materialidade de textos de diferentes gêneros e funções e em situações comunicativas diversas, o fenômeno não se restringe à materialidade textual;
ii. esse é um fenômeno que está implicado no processo de enunciação, sendo assim, no ato mesmo de os seres humanos inter-agirem, de (co)referirem e produzirem sentido através do discurso;
iii. a manifestação da intertextualidade pressupõe a (re)contextualização de um cenário discursivo constituído e identificado em outro contexto sociocomunicativo; assim, esse cenário “conhecido” passa a ser “recordado”, “recontado”, tomado em outra perspectiva, em um cenário discursivo novo, atual;
iv. o processo de encenação discursiva intertextual se institui como forma de manifestação concreta, material, do princípio dialógico da linguagem humana.
Dentre essas premissas, uma merece maior atenção, neste momento do trabalho: aquela que aponta para o fato de que a manifestação da intertextualidade pressupõe a (re)contextualização de um cenário discursivo constituído e identificado em outro contexto sociocomunicativo e, assim sendo, pressupõe que um cenário já “conhecido” pelo falante/ouvinte passe a ser “recordado”, “recontado”, “evocado”, “tomado em outra perspectiva”, em um cenário discursivo novo, atual.
Por essa premissa, podemos constatar que a investigação do fenômeno em estudo não pode ocorrer sem que consideremos as situações concretas de uso — ou de possibilidade de uso — da linguagem e, portanto, de manifestação do fenômeno. A construção de sentidos que emergem de cenários discursivos intertextuais só pode ser desencadeada em uma concreta situação de uso da linguagem — o que corresponde, no modelo de análise, a uma situação semiótica base. Essa situação concreta é instituída pelos sujeitos do processo comunicativo.
A situação semiótica base é um elemento constitutivo da produção de cenários discursivos intertextuais e, por isso, determinante para o trabalho de análise introspectiva a ser realizado pelo pesquisador que vise descrever, na perspectiva cognitiva aqui adotada, os sentidos que emergem desses cenários. Cada cenário discursivo em análise demandará do pesquisador um cuidadoso trabalho de descrição da situação semiótica a partir da qual a construção de sentidos é experenciada, ou seja, redes de espaços mentais passam a ser criadas.
No que se refere às condições atencionais, essas estão inextricavelmente implicadas na configuração da situação concreta em que o fenômeno da intertextualidade se manifesta. A descrição introspectiva dos sentidos que emergem de um processo de encenação discursiva intertextual pressupõe da parte do analista esforço atencional para identificar, com base em elementos relevantes para aquela situação semiótica em questão, diferentes tipos de conhecimento implicados no ato de o falante/ouvinte “recordar”, “recontar”, “evocar”, em um cenário discursivo atual, um cenário discursivo “já conhecido” para fins de construir novos sentidos. Esses diferentes tipos de conhecimentos desencadeiam a construção de uma rede constituída de diferentes tipos de espaços mentais.
Como veremos no capítulo seguinte, como base no trabalho de reflexão teórica introspectiva, o modelo de integração conceptual da Escola de Aarhus permite ao investigador a descrição de uma rede de espaços mentais desenhada, em forma diagramática, para refletir como produzimos mesclas conceptuais de caráter intertextual.
Neste momento, é importante enfatizar que a rede de integração de espaços mentais é um modelo teórico hipotetizado para ser aplicável, de forma generalizada, para todas as integrações virtuais de sentido. Como nos explicam Brandt e Brandt (2005, p. 242), o diagrama do espaço mental semiótico base reflete o fato de que mesclas semióticas (em que um espaço input torna-se signo de outro) são construídas on-line. Como vimos no capítulo anterior, de acordo com esse
modelo teórico, as mesclas conceptuais, além de ocorrerem na cognição on-line, são contextualmente sensíveis, tanto com relação à maneira como o conteúdo descrito nos espaços de entrada é construído como no que diz respeito à relevância semântica e pragmática da própria mescla para a situação interacional em questão. Em seu trabalho de análise de dados, o pesquisador precisa dispor de esforço atencional consciente, dirigido e volitivo para descrever, em termos teóricos, os aspectos constitutivos da criação de mesclas conceptuais.
Discutidos os fatores que parametrizam o trabalho de reflexão teórica introspectiva a ser sistematizado no processo de análise, passemos à definição dos critérios utilizados no trabalho de identificação, documentação e seleção dos dados desta pesquisa.