• Sonuç bulunamadı

Durante todo o processo de adoecimento, esses pacientes ficam submetidos a um comprometimento fisiológico considerável, que os levaram a uma incapacidade laboral, causando inevitavelmente uma perda das condições de empregabilidade.

Vivenciar a perda de sua independência financeira, de suas referências profissionais, de sua rotina pessoal, acaba sendo mais uma adaptação dentro desse processo imposto e inesperado.

“Tenho mais medo de barata e lagartixa do que de prender bandido. Se chamar prá ir, no meio da noite, estourar a casa de traficante, eu vou sem medo. O cabra ta lá dormindo, a gente já vai armado, com um monte de policial, não tem perigo. Vivi assim 20 anos. Tô aposentado faz 5, mas até hoje faço uns bicos de segurança.” (J.)

“Eu trabalhava na rua, no sol, era serralheria e montagem de placas luminosas. Quando tudo começou era uma dorzinha no lado esquerdo, descia pelo braço, aí eu mexia o braço, levantava e abaixava, respirava e continuava. Se eu sentia alguma dor, sempre dizia que não era nada...de primeiro até passava, depois foi piorando.” (R.)

Perder a visão de futuro, conviver com a insegurança e os riscos que essa situação limite impõe, é determinante para se repensar a vida e os valores. “É muito ruim não poder fazer planos, antes (da cirurgia) eu não tinha perspectiva de nada.” (E.S.)

“Depois da primeira crise, comecei a trabalhar de novo, mas de vez em quando eu me sentia muito mal, eu piorava de novo, acho que a poeira, não sei, aí mudava os remédios e eu voltava a trabalhar” (J. I.)

Como todos os pacientes tiveram que parar de trabalhar e entrar com o pedido de aposentadoria, todo o processo da doença ocasionou uma mudança na esfera produtiva e formal, na vida dessas pessoas. Uma forma de relacionamento social se dá através de algo que é publicamente valorizado, tendo como exemplo socialmente típico o trabalho, pois se trata de uma relação que se estabelece com as pessoas pelo simples fato haver um vínculo profissional. Ou seja, estamos numa sociedade em que não se trabalha só por subsistência, muito menos uma sociedade extrativista, mais sim uma sociedade do tipo capitalista, que produz, portanto, excedentes para terceiros. Por meio desse tráfego, entre produtos e serviços, criam- se laços: através do trabalho.

A perda de uma função socialmente reconhecida, longe de ser um desejo ardente para quem imagina um mundo sem o trabalho, é mais uma forma de desconexão com ele. Viver num mundo, e se ocupar com algo que transcenda o mero ato físico do corpo, que não gere um produto dotado de um sentido mais amplo do que a própria necessidade do indivíduo, coloca o ser humano numa situação de apartamento social.

Nos relatos aparecem insinuações, comuns a todos os entrevistados, de que é muito difícil alguém (um empregador) contratá-los. A quebra dos vínculos trabalhistas formais indica que a imagem que os outros tomam do indivíduo que vivenciou o processo de transplante se transformou. O não-reconhecimento de alguém, ainda em condições de assumir responsabilidades de trabalho, é provável que traga novos enquadramentos para o que o mundo do trabalho espera deles.

Cada um, à sua maneira, após a aposentadoria recorreu a “bicos”, (J.) ou trabalhos temporários, na economia informal.

E. S. é o único que teve a habilidade e os recursos necessários para dar continuidade a um bar que já possuía enquanto exercia outra função. Esse empreendimento lhe ajuda no orçamento doméstico, embora nem sempre ele possa manter uma constância de funcionamento, devido a recaídas cuja causa inicial foi uma infecção hospitalar.

J.I. também está em processo de aposentadoria, mas não pode mais trabalhar formalmente, pois seu antigo ofício, pedreiro, exige certo esforço físico que os empregadores não querem impor a J.I. Ele sobrevive exercendo a profissão de maneira informal e esporádica.

R.B. não apresentou nenhuma iniciativa para além da condição atual de aposentado. Alega não haver mais condições de assumir compromissos, já que a única atividade que sabe desempenhar é muito desgastante e cansativa, além do fato de acreditar que os empregadores temem contratar transplantados.

F.L. atualmente aposentada, também menciona que o empregador teme contratar alguém que foi submetido ao transplante. Além disso, diz que sente medo de comprometer o seu estado de saúde pelo esforço que uma nova atividade profissional exigiria. Relata já ter trabalhado demais e que agora tem outras prioridades, não estando disposta a assumir nenhum compromisso.

De modo geral, os transplantados apresentam diminuição de atividades profissionais em virtude dos cuidados que o atual estado físico exige. Apenas J., que foi aposentado por invalidez, trabalha informalmente numa atividade que exige relativo esforço físico. A saída do mercado de trabalho não aparece como queixa para os entrevistados, e sim como uma constatação. Eles aparentam ter recebido bem a condição de aposentados. Os vínculos antigos de trabalho tinham um peso menor para os transplantados, não constituindo uma perda considerável na vida deles.

Houve referência aos questionamentos quanto à capacidade laboral, quando se iniciou o processo de solicitação de aposentadoria. Se, por um lado clinicamente todos estão curados, podendo, portanto, voltar a trabalhar normalmente, por outro lado existe um cuidado constante, o uso de medicação criteriosa e regular, além do monitoramento permanente do processo de rejeição.

“Tem uma coisa que é injusta: a gente transplantada não é considerada mais doente, não consegue se aposentar, tem que ficar passando na perícia. Mas por outro lado não estamos bons: temos que tomar um monte de remédios para o resto da vida, temos medo o tempo todo, não podemos fazer esforço, tem coisas que são difíceis para nós.” (L.F.)

Benzer Belgeler