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Seria impensável aceitar hoje uma autoridade calcada na experiência e não no conhecimento. A legitimação pela experiência nos parece distante: só damos legitimidade para aquele que nos prova ter conhecimento. E a experiência tem em si a particularidade de

com a tua própria. Desaparecem assim a máxima e o provérbio como formas legítimas da experiência para dar lugar ao slogan,à ueàága e à ha aàdoà p o ioàdeàu aàso iedade ueà pe deuà aà e pe i ia .à U aà so iedadeà ueà deseja,à usa doà oà slogan como exemplo, impor uma experiência manipulada e guiada. Nesses casos, Agamben coloca a recusa dessa experiência como constituinte de uma defesa legítima.

Para Jorge Larrosa, já não existem experiências porque vivemos nossas vidas como se não fossem nossas. O filósofo também conversa em seu livro Tremores, escritos sobre experiência (2014), com os escritos de Agamben, relativos à experiência: a primeira ideia que Larrosa nos aponta é sobre a destruição da experiência e a nova experiência que nos é dada, uma experiência falsa. Justamente nos encontramos nesse ponto da conversa com Agamben logo acima. Para que nossa música possa continuar, Larrosa segue refletindo com a segunda ideia, correlata à primeira: é que não há linguagem para elaborar a experiência, já que nos faltam palavras (em breve tocamos nessa questão). A terceira ideia é que não podemos ser alguém, pois que tudo o que somos, foi fabricado fora de nós, sem nós.

Um exemplo bastante emblemático sobre a recusa da experiência em Agamben, é que as experiências do homem contemporâneo passam a ocorrer fora dele (a terceira ideia). E, ao que parece, o homem olha para isto aliviado. Ele se recusa a experimentar e o faz através de aparatos, como uma máquina fotográfica, por exemplo.

[...] não significa que hoje não existam mais experiências. Mas estas se efetuam fora do homem. E, curiosamente, o homem olha para elas com alívio. Uma visita a um museu ou a um lugar de peregrinação turística é, desse ponto de vista, particularmente instrutiva. Posta diante das maiores maravilhas da terra [...] a esmagadora maioria da humanidade recusa-se hoje

a experimentá-las: prefere que seja a máquina fotográfica a ter experiência delas. (AGAMBEN, 2008: p.23)

E se pensarmos ainda com a voz do professor Jorge Larrosa, ouviríamos algum clamor que poderia nos dizer algo assim: na ciência moderna o que ocorre com a experiência é que ela é objetivada, convertida em experimento [...] com isso, elimina o que a experiência tem de experiência e que é, precisamente, a impossibilidade de objetivação e a impossibilidade de universalização. A experiência é sempre de alguém, subjetiva, é sempre daqui e de agora, contextual finita, provisória, sensível, mortal, de carne e osso, como a própria vida (2014, p. 40).

Existem diferentes visões acerca da palavra experiência. Mas se focarmos na ideia de experiência como a que estamos considerando por aqui, poderíamos dizer que, com a leitura de alguns filósofos aqui são citados, essa experiência de carne e osso nos parece uma ideia antiga ou, no mínimo, se considerarmos o hoje, essa experiência seria algo elaborado somente por aqueles que buscam um tremor de vida (mesmo que por um instante) na contramão do mundo que nos destrói em relações de desafetos. Porque vivemos nossas vidas como se não fossem nossas, porque não elaboramos aquilo que nos acontece, já que não estamos ali para viver a vida. E, para que vivêssemos as nossas vidas, para que perguntássemos, talvez: essa vida é minha? Teríamos que, talvez, refletir em como nos tornamos compradores de sentidos, em como existem ofertas de vendas de sentidos para qual ue àesp ieàdeà e essidade ,àe à o oàes uta osàeàfala osàpala asà de vendas de sentidos. E isto é certo: aàe pe i iaàda uiloà ueà osàa o te eà à ueà oà sabemos o que nos acontece, porque a experiência de nossa língua é que não temos língua,

que estamosà udos,à po ueà aà e pe i iaà deà ue à so osà à oà se osà i gu à (LARROSA, 2014, p. 54).

Como ninguém, talvez, nos assumindo assim, poderíamos talvez, i te o pe àalgoà na vida que corre e, poderíamos talvez, encontrar outra lente fotográfica, muito mais próxima de um olhar poético que clama por outras paisagens e que nos permite a assunção de quem se é: este sujeito abortado de si, para início de conversa. Então, talvez, em desespero de viver com(o) palavras, precisaríamos do silêncio. Sugiro este exercício fotográfico para quem sabe, talvez, agitar alguma lembrança primal:

O Fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei. Eu conto: Madrugada a minha aldeia estava morta.

Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã. Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.

Preparei minha máquina. O silêncio era um carregador? Fotografei esse carregador.

Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim numbeiral de um sobrado.

Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra. Fotografei a existência dela.

Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.

Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre. Foi difícil fotografar o sobre.

Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.

Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva. A foto saiu legal.

(BARROS, Manoel. Ensaios Fotográficos (2000). In: Poesia Completa. 2010: p. 379-380)

Agamben, ao contrário do que parece num primeiro momento, se mostra otimista, pois entrevê a possi ilidadeàdeà ue,à aà e usaàdaàe pe i ia,àpossa osàadi i ha àoà ge eà deàu aàe pe i iaàfutu a ,à o oàse ainda estivesse em hibernação. Eleà olo aà ueà a tarefa que este escrito se propõe – eto a doàaàhe a çaàdoàp og a aà e ja i ia oà daàfilosofiaà ueà e à – é a de preparar o lugar lógico em que este germe possa atingir maturação à (2008: p.23).

Agamben descreve o processo no qual a partir da ciência moderna fundou-se a união entre experiência e ciência num único sujeito, noção que herdamos até hoje.àáàideiaàdeàu aà e pe i iaà sepa adaà doà o he i e toà to ou-seà pa aà sà t oà est a haà aà po toà deà esquecermos que, até o nascimento da ciência moderna, experiência e ciência possuíam cada uma seu lugar próprio. A ciência moderna desconfia da experiência, convenhamos. A experiência não pode ser o meio do saber, ela torna-se o método para adquirir o conhecimento. A experiência, conforme sua trajetória histórica lança vozes com ritmos bastante distintos. Nesta conversa sobre experiência, Agamben busca, com inúmeros auto es,àt aça àu àpa o a aàte i oàdoà ueàeleà ha aàdeà pe daàdaàe pe i ia ,àpassa doà por Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Montaigne, Hegel, Heidegger, Bacon, Bleuer, Dilthney, Bergson, Husserl, Scheler, Benveniste, Baudelaire, Freud, Humboldt, entre outros muitos, e não necessariamente nesta ordem exata. Trata-se de uma grande orquestra, sim? Escutemos...

Benzer Belgeler