• Sonuç bulunamadı

2.2 ALTI SİGMADA İYİLEŞTİRME METODOLOJİLERİ VE AŞAMALARI

2.2.3 Analiz Aşaması

2.2.5.2 Tepki Planı

O silêncio pessoano não é o implícito. Considerando que o implícito não está restrito à palavra literária, mas é característica de toda

enunciação, o silêncio exposto no Livro do desassossego afasta-se dessa idéia, pois não está refletindo sobre os dizeres do dizer, mas exatamente sobre aquilo que foge a essas restrições impostas pelo dizer - mesmo quando não diz.

Considerado um subproduto do silêncio, o "implícito" é, conforme Orlandi (1995), um resíduo da fala e a diferença gritante entre o primeiro e o segundo é que o implícito estabelece uma relação de dependência com o dizer para que possa significar.

Em Ducrot (1987), o implícito se manifesta através do pressuposto e do subentendido. Enquanto o pressuposto é expresso como um componente lingüístico, parte do enunciado, o subentendido mantém-se exterior ao mesmo, surgindo ao ouvinte num momento posterior, na "reflexão" do referido enunciado.

O pressuposto é tão gritante quanto o dizer, obedecendo aos mesmos códigos, enquanto o subentendido volta-se para o "tu", para o pensamento do destinatário. O pressuposto e o subentendido são a fala da margem do discurso, o que acreditamos ser o contrário do silêncio pessoano que representa justamente o discurso da margem, o entremeio do discurso. Ou seja, o pressuposto, conforme visto em Ducrot, é da ordem da fala, do não-silêncio, já que estabelece a continuidade do discurso tomado anteriormente. Por sua vez, o subentendido, domínio do destinatário, é a ressonância dessa fala, mas ainda está imerso naquilo que Barthes (2003), em O Neutro, estabelece como tacere (calar), instância distinta do silere (silêncio), como mostraremos mais detalhadamente no próximo capítulo.

Por outro lado, quando, dentro de uma análise literária, preocupamo-nos com os "vazios" que o texto literário impõe obrigatoriamente e o que poderia "preenchê-los", automaticamente voltamos nossa atenção ao implícito, o que, acreditamos ser uma tarefa já delineada por alguns métodos literários que não dialogam com a nossa proposta teórica.

Cabe-nos, aqui, uma digressão a respeito desses métodos: dentro da teoria da literatura, a idéia de implícito foi desenvolvida principalmente através das reflexões da Estética da Recepção, que afirma a participação do leitor na construção da obra. Os estudos relacionados a essa linha teórica tiveram início em 1967, na Universidade de Constança, e centravam-se no chamado “terceiro estado”, propondo o leitor não mais como agente passivo diante da relação comunicacional que é o texto, mas tão ativo quanto os outros dois aspectos (autor e obra), cabendo-lhe parte, inclusive, na produção do mesmo. Assim, a teoria proposta por Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser manterá um aspecto revisionista e anti-dogmático, situando-se aquém de fórmulas fechadas, propondo alternativas que estarão sempre prontas a serem questionadas, mesmo em torno do próprio grupo agregado a esta teoria inicial.

Outras escolas e autores também se preocuparam, antes da Estética da Recepção, com a importância do leitor na construção de sentido do texto literário, tais como a Reader-responde-criticism, reação à radical orientação imanentista do new criticism, ou Riffaterre, que criará um conceito, o “arquileitor”, categoria advinda através do texto, sem rastrear a questão através da historicidade, o que será bastante criticado por Jauss. Detenhamo-nos, porém, somente nos aspectos que estabelecem diálogos com a nossa investigação, centrando-nos nos dois mais significativos representantes da Escola de Constança: Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser.

Jauss (1983) reflete sobre os três planos do "efeito" causado pela recepção literária: 1) a poiesis, que é o prazer do leitor em se sentir co- autor da obra. Essa seria uma exigência nas criações do século XX, pois os experimentalismos estéticos da arte moderna exigem a participação do leitor; 2) aisthesis, mais relacionado à experiência estética propriamente dita, em que a percepção do mundo é renovada através do contato com o objeto estético; 3) e o último plano, a karthasis, que é definida como um processo de identificação que leva o leitor a uma mudança em seu

comportamento social. A catarse, então, para Jauss, não é só momento de identificação entre receptor e mensagem, mas representa a força da categoria estética como agente de mudança interior que leva à ação.

Wolfgang Iser (1979), por sua vez, postulará sobre a concepção do literário. Em "A interação do texto com o leitor", tradução parcial de O ato da leitura, Iser vai discutir os "vazios" apresentados no texto, denotando a assimetria entre texto e leitor, baseada nos modelos de interação desenvolvidos pela psicologia social e pela pesquisa psicanalítica a propósito da comunicação. Esse conceito de "vazio" é desenvolvido através de duas categorias teóricas: a "contingência", condição ideal para a interação e categoria desenvolvida por Edward E. Jones e Harold B.Gerard19; e o "no-thing", teorizado por R.D.Laing, H. Phillipson e

A.R.Lee em Interpersonal perception: A theory and a method of research, que é o "nonada", o "entre" entre a minha percepção e a percepção do outro20.

A relação texto-leitor traz uma nova perspectiva ao assunto, pois nela não há a situação face a face da relação diádica, em que os

19 Em relação à teoria da interação, Iser examina a obra Foundations of social

psychology, de Edward E.Jones e Harold B. Gerard, que apontam para quatro tipos de

interação: 1) A pseudocontingência, que acontece quando os parceiros conhecem bem o plano de conduta (behavirol plan) do outro, e as réplicas são perfeitamente previsíveis, tais como uma peça de teatro bem encenada. 2) A contingência assimétrica, que ocorre quando há uma adaptação de um dos parceiros ao outro, e a estratégia de um prevalece sobre o outro. 3) A contingência reativa, em que os "planos de conduta" são submetidos à reação momentânea e a contingência é dominante, pois a reação do momento prevalece. 4) a contingência recíproca, na qual há uma adaptação ao "plano de conduta" e as reações do parceiro. Essa atitude pode levar ao triunfo total, em que um enriquece o outro, ou ao fracasso pela hostilidade. Para Iser (1979, p. 85), os modelos propostos levam a concluir que

a contingência é a base constituinte da interação, que lhe é subjacente e que, portanto, não pode ser compreendida como a causa prévia de um efeito subseqüente. Ao contrário, a contingência deriva da própria interação, pois os "planos de conduta" de cada parceiro são concebidos separadamente e, assim, é o efeito imprevisível sobre o outro que provoca tanto as colocações táticas e estratégicas, quanto os esforços interpretativos.

20 Diante deste vazio relacional, Laing, Phillipson e Lee tentaram desenvolver um

método, procurando distinguir o coeficiente de pura percepção e o coeficiente de fantasias projetadas e de interpretação desses vazios. A conclusão a que Iser chega dessa leitura é a de que nossas relações precisam ser todas baseadas em uma interpretação do outro e não existe percepção pura.

parceiros perscrutam os sinais de reação do outro. Assim, a mesma é regulada pelos "vazios" do texto:

Aqui como ali, esta carência nos joga para fora, ou seja, a indeterminabilidade, ancorada na assimetria do texto com o leitor, partilha com a contingência - o nonada (no-thing) da inter-relação humana - da função de ser constituinte da comunicação. Os graus de indeterminação da assimetria, da contingência e do nonada (no-thing) são, portanto, as formas diferentes de um vazio constitutivo, através do qual se estabelecem as relações de interação. Este vazio, contudo, não é apresentado como um fundamento ontológico, mas é formado e modificado pelo desequilíbrio reinante nas interações diádicas e na assimetria do texto com o leitor. O equilíbrio só pode ser alcançado pelo preenchimento do vazio, por isso o vazio constitutivo é constantemente ocupado por projeções. (ISER, 1979, p. 88-89).

Os "vazios" seriam, então derivados da indeterminação do texto, e não precisam ser preenchidos, mas propiciam um processo de combinação, pois com a inter-relação dos esquemas, o objeto imaginário é formado. Eles funcionam, então, como "articulações do texto", e ligam os segmentos dos textos, desaparecendo quando os atos de projeção (Vorstellungsakte) se realizam. Se a conectabilidade é um traço fundamental de textos em geral, principalmente em textos expositivos e argumentativos, ela se mostra falha nos textos literários, e o vazio que provém daí causa o "estranhamento" teorizado pelos formalistas russos. Aqui, então, a busca dessas articulações levará o leitor a inferir sentidos que não foram ditos, mas que só ele, dentro de sua historicidade e experiência estética, poderá alcançar.

Apesar de reconhecermos a contribuição valiosa dessa vertente teórica para essa discussão, pensamos que nossas reflexões emergem de outra perspectiva. No trabalho aqui desenvolvido, apesar de admitirmos a idéia de que há um silêncio do leitor e um silêncio do autor, como Jean-Paul Sartre (1989) afirma em Que é literatura, optamos por verificar e apreciar o silêncio do texto, em sua tessitura e seu significar, uma vez que o Livro do desassossego nos permite essa atividade, já que,

como dissemos anteriormente, apresenta-se como uma obra que se faz refletindo-se no próprio ato de sua produção.

2.3.2 O SILÊNCIO NÃO É FALTA DE PALAVRA MAS A