3.3. Otomotiv Camlarının Temperlenmesi Ve Şekillendirilmesi
3.3.2. Temperleme
Nesta pesquisa junto à análise das temáticas que compõe cada capítulo, já empreendemos um processo de interpretação dos elementos teóricos e dos dados empíricos observados no decorrer desta história, no entanto, neste momento, existem algumas considerações finais que gostaríamos de apresentar, ou apenas reafirmar, sobre o estudo do universo em questão.
Analisar o mundo que se forma sob a denominação de uma economia solidária é uma maneira de se aproximar do homem em seu cotidiano de trabalho. O que se justifica na impossibilidade de interpretar estas iniciativas a partir de uma delimitação precisa que verse sobre sua ocorrência prática, pois, falar em trabalhadores organizados em empreendimentos coletivos é falar, também, de histórias de vida e de trabalho que confluem para as fronteiras ainda fluidas deste universo. Um movimento que em sua ”reinvenção” representa também a percepção de diversos atores sobre a necessidade concreta de ”buscarmos uma forma de organização social e econômica que ultrapasse as potencialidades oferecidas à humanidade pelo capitalismo”. (Lula, 2001).
Princípios que compõem para Singer o contexto para a reinvenção da economia solidária. Segundo o autor a indícios de que existe uma efervescência deste modo de organização do trabalho em diferentes segmentos e partes do mundo. A manifestação da economia solidária no caso nacional ocorre sob a denominação de economia popular e solidária, faceta determinada, em alguma
medida, pelas transformações que se gesta na categoria trabalho, em que as iniciativas de auto-gestão são compostas, muitas vezes, por um conjunto de homens e mulheres com uma história pregressa de deriva social, moral e econômica, ocasionada pela perda do trabalho e inflexibilidade no que se refere à possibilidades de retorno ao “ambiente protegido da carteira assinada”. Portanto, torna-se válida a afirmativa de que se vivencia em meio a um mundo em desconcerto, onde o resultado do processo histórico de ressignificações empreendido pelo sistema capitalista, leva à desordem do trabalho e a difusão em escala planetária do sentimento de desalojamento social.
Mas, por outro lado, verificamos também que o universo do trabalho não é composto exclusivamente de personagens que vivenciam um cotidiano de apatia e de resignação, falar em economia solidária enquanto alternativa de organização possível, é se remeter a trajetórias de resistência, de protesto, de organização, de mobilização em torno de sonhos que envolvem a busca por uma vivência mais digna da condição de ser humano e de viver do resultado de seu trabalho.
Na reflexão empreendida nesta pesquisa, observamos que o processo que se estrutura na prática dos indivíduos, ligados a formas alternativas de inserção no tecido social, se caracteriza por um “vir a ser”, e neste ponto não incluiríamos apenas os trabalhadores organizados em empreendimentos solidários, mas também os informais, os desalojados sociais, os que se encontram em situações precárias, enfim, os trabalhadores para os quais volta-se a atenção da academia, dos diversos movimentos sociais e esperamos que em um futuro bem próximo, envolva também os sindicatos em uma intensidade maior do que a que se realiza hoje, para que este segmento esteja unido pela luta não de ganhos para determinada categoria, mas pela dignidade para o conjunto dos trabalhadores.
Ao observarmos as experiências até agora mapeadas como parte do universo da economia solidária um dos elementos que vem à tona com mais força é a dimensão participativa desta proposta, para além das dificuldades de manutenção desse tipo de comportamento é elevada a ocorrência de interseção de suas iniciativas com movimentos comunitários e sociais, meio encontrado e valorizado pela economia solidária como forma de atuar para além da geração de
renda em prol também do aprofundamento e expansão de laços sociais entre trabalhadores e destes com sua realidade.
No caso da economia solidária onde aparentemente a geração de renda para indivíduos em situação de instabilidade deveria ser o impulso principal, observamos uma convivência complexa deste e outros elementos que se tornam cada vez mais significativos, entre eles, a confiança dentro e fora dos grupos, a participação na comunidade e no espaço público mais amplo, a solidariedade e a ajuda-mútua. Princípios, que conforme apresentamos, não são inéditos na história das relações no mercado e economia, e muito menos exclusivos destas iniciativas, fazem parte do repertório de ressignificações empreendido pelo capitalismo, que torna menos discerníveis os laços sociais, mas que, no entanto, não consegue eximi-los da ocorrência nas relações entre os indivíduos.
Uma vez que o que se projeta não é o indivíduo isolado, mas o seu coletivo. Neste sentido é a união que faz a força, que dá voz a esses homens e mulheres, que amplia as fronteiras de seu local de origem e os auxilia a transpor barreiras e limites através da interlocução com o poder público e mercado.
Na história especifica que narramos em virtude do trabalho de campo, das mulheres da comunidade de Manejo, a limitação do fator renda representou o aumento das relações, das dádivas circulantes naquele espaço, revolucionando em sentido inverso ao empreendido pelo capitalismo as “noções de espaço e tempo em que o indivíduo se formou” (IANNI, 1995). Sendo possível que apresentemos como parte fundamental dos resultados alcançados nesta pesquisa, a percepção de que na sociedade de mercado na qual vivemos a reciprocidade, para além do acesso à renda, também opera a inclusão social.
A história que origina a Mãos Mineiras antecede e sobrepõe a história da Associação, o que leva ao encontro de trajetórias que dão origem a este grupo são os processos de instabilidade que se vivencia no universo do trabalho, por isso, para contar o percurso destas mulheres foi preciso falar do cotidiano de crise e de deriva que assola os indivíduos na cidade. Se fez necessário narrar a trajetória dos migrantes, assim como de quem permanece no meio rural. Foi preciso ilustrar o sofrimento dentro das fábricas e a angustia por não fazer parte dela, assim como foi fundamental enfatizar a existência de trabalhadores que
recriam suas possibilidades de obtenção de renda, e que assumem o desafio de tomar as rédeas do processo em curso para direcioná-lo através das próprias mãos.
A história da Associação Mãos Mineiras não pôde ser fechada nesta dissertação, pois a cada dia ela se renova, se reelabora, se reconstrói. O virtuosismo dos momentos iniciais do processo de criação desta iniciativa, retratado com um tempo sem conflitos de união e solidariedade a serviço da geração de renda, concluímos estar relacionado ao envolvendo afetivo com esta história, assim como a legitimidade de ação encontrada por um agente externo que mais do que a organização do grupo alcançou o reconhecimento destas mulheres, uma dádiva circulante que ecoa no não-dito pela comunidade.
A importância desta Associação no que se refere à vida das associadas e de suas famílias deriva de vários fatores: Para além da geração de renda, gostaríamos de enfatizar a noção de pertencimento a um todo social, de reconhecimento e valorização de saberes e práticas tradicionais, do aprendizado como forma de interação coletiva, e do processo de projeção no espaço público desta iniciativa graças a sua legitimidade e importância para o processo que ainda se gesta de elaboração de uma nova ordem social. No caso do universo onde ela se inscreve, de uma economia solidária e de movimentos sociais que lutam pela valorização do indivíduo, a experiência desta Associação mostra que é possível fazer parte de um mercado que tenda a outros princípios que não o ganho utilitário e individual.
Uma experiência que como tantas outras traz a tona o papel ocupado pelos mediadores na organização e manutenção de grupos e que, assim como estas, não apresentam indícios sobre formas de reverter o foco deste tipo de relação, pautado muitas das vezes na condição de dependência. Até o momento o que nos é lícito afirmar é que a economia solidária em seus princípios se reelabora, mas mantém como principal bandeira a luta por estabelecer relações entre iguais, pautada na autogestão de suas organizações. Desta forma, para que possa realizar-se à partir de seus princípios, precisa atuar inicialmente em prol para o fortalecimento da sociedade e dignidade dos trabalhadores.
Uma vez que o material humano com que lida chega muitas vezes até essa perspectiva, aniquilado pela situação de deriva, e por isto tende a apostar todas as suas fichas em redentores capazes de transformar sua realidade. Talvez em virtude disto os próprios empreendimentos acabam por ser, diretamente, responsáveis pelo fato de que “o maior inimigo da autogestão é o desinteresse dos sócios” em decidir os rumos do próprio negócio (Singer, 2002), e, como vimos, na Mãos Mineiras não foi diferente.
No entanto o processo de mudança está inteiramente relacionado ao aprendizado, para Singer se as pessoas não são naturalmente inclinadas para a autogestão, não o são para a heterogestão, e ainda, segundo o autor, a prática da autogestão tem como principal mérito “não a eficiência econômica (necessidade em si), mas o desenvolvimento humano que proporciona a seus participantes” e neste sentido, a Mãos Mineiras, enquanto representante do universo da economia solidária, operou incríveis resultados.
Outro aspecto que gostaríamos de ressaltar, é que os grupos que se organizam a partir da perspectiva da economia solidária têm desempenhado o papel de interlocutores de realidades diversas em ambientes institucionais como o poder público, o que pôde ser explicitado pela criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, que dinamiza esta proposta principalmente a partir das demandas de indivíduos organizados em coletivos mais amplos, como os Fóruns regionais, estaduais e municipais de economia solidária. A história de trabalho das mulheres em Manejo não é a mesma dos trabalhadores em empresas recuperadas pela Anteag, mas o espaço de negociação e reação a insustentabilidade em curso é partilhado, porque estes dois universos participam do mesmo espaço de negociação.
O que implica que a tarefa da economia solidária em sua “reinvenção” não é a de criar sentidos diversos aos do capitalismo para o mercado, o trabalho e a economia, mas o de trazer a tona dimensões que foram “deformadas” em meio a farsa de uma sociedade em que impera o homoeconomicus.
Neste trabalho o que buscamos foi defender a existência da unidade em meio a contextos e vivências mais diversas. O fato de afirmarmos que o principal feito do modo de produção capitalista não foi o de criação, mas o de
ressignificação do sentido e forma de categorias como mercado, trabalho e economia, nos permitiram olhar para a história como um tempo contínuo, onde tudo é passível de mudança e transformação. O sentido do trabalho na experiência da Mãos Mineiras não é distinto do que pode ser em condições valorativas de trabalho no sistema capitalista, mesmo porque a economia solidária só será realmente uma alternativa superior a capitalista, nos termos apresentados por Singer “quando puder oferecer a parcelas crescentes da população oportunidades concretas de autosustento, usufruindo do mesmo bem-estar médio que o emprego assalariado proporciona”. (Singer, 2002), Por enquanto já representa a busca de homens e mulheres por autosustento com união e dignidade, e, especificamente no caso da Mãos Mineiras, com a ampliação dos laços reciprocitários.
Neste sentido é que se tornam cada vez mais significativas as experiências que têm se organizado sob a perspectiva da economia solidária que, em síntese, representa mais do que uma iniciativa de criar no mercado, espaço para a geração de renda sob bases mais éticas, o que de certa forma abordamos nas ressalvas sobre como tem se desenvolvido a perspectiva do comércio justo. A economia solidária apresenta-se também como um projeto para outra sociedade, onde haja espaço para uma “economia territorializada, um discurso territorializado [para] uma
política territorializada” (Santos, 2004), condições que viabilizem projetar-se em
escala ampliada amanhã, a partir do que é construído hoje na práxis dos indivíduos.
Neste sentido, as trajetórias que se constroem neste universo são representativas de que existe, na forma como as pessoas vivenciam o contexto de crise, uma sensibilidade que é impossível captar através de análises quantitativas, e, ainda, de que é por meio das histórias de vida que se percebe que historicamente sempre houve muito de antiutilitário no “estar no mundo” das pessoas, o que traduz a inferência deste trabalho: de que o espaço econômico não se estrutura através da ruptura com seus princípios fundantes, mas a partir de ressignificações nas dimensões que compõe o tecido social.
Gostaríamos finalmente de reafirmar que para além da geração de renda um universo se constrói, através de espaços voltados às trocas em torno das
relações cotidianas. O que mantém a Associação Mãos Mineiras viva em decorrência das dificuldades? A dimensão afetiva com a história que está colocada na fala de suas mulheres, e que deve ser compreendida pelas organizações que dinamizam estas iniciativas. Desta forma, o desafio que envolve a economia solidária e as organizações que a viabilizam é enorme, pois não basta pensar estratégias para a inclusão de trabalhadores em posições diferenciadas no mercado de trabalho, é sua função compreender o tempo próprio que se manifesta nestas iniciativas para a mobilização e aprendizado, assim como, é de fundamental importância compreender o valor que tem para o indivíduo o simples ato de “tomar a palavra” e ter coragem de manifestar suas angustias e aspirações em público.
Mas ao mesmo tempo é preciso dinamicidade para se estruturar e fugir do amadorismo que lhes é associado, ficar atento para o risco de cooptação de suas histórias pelo mercado capitalista, e estar pronto para expressar em sua fluidez a riqueza de seu processo de construção. O movimento por uma economia solidária tem mostrado que não existe uma forma específica de se fazer economia e de se relacionar no mercado, e que “o mundo é formado não apenas pelo que já existe (aqui, ali, em toda a parte), mas pelo que pode efetivamente existir (aqui, ali, em toda a parte)” (Santos, 2004). Vivenciamos um tempo histórico em que as possibilidades se tornam reais, concretas, factíveis através da práxis de homens e mulheres que se articulam e compartilham espaços de negociação, como os que tem sido viabilizado por uma economia solidária, e é neste sentido que afirmamos que esta desempenha um papel de transformação fundamental na história contemporânea.