No meio da predominância de teólogos estrangeiros, encontramos um brasileiro, o Padre Aloísio Guerra, autor de A Igreja está com o povo? Uma provocação as posturas do Catolicismo brasileiro. Este volume fazia parte da coleção Cadernos do Povo Brasileiro que “... Eram escritas em palavras simples, para popularizar os temas da revolução brasileira, com tiragem de 20 mil exemplares, em parte distribuídos pela UNE, que ficava com 50% do preço de capa, segundo o editor Ênio Silveira..”. 241 Para termos uma idéia do que representava esta série editorial, os títulos são ilustrativos. Que são Ligas Camponesas? de Francisco Julião, Quem é o povo brasileiro, do historiador Nelson Werneck Sodré, Por que os ricos não fazem greves? do filósofo Álvaro Vieira Pinto, O que é reforma Agrária? de Paulo Schilling, Como atua o imperialismo ianque? 242
Além destes títulos explicitam mais claramente os objetivos da coleção, Quem pode fazer a revolução no Brasil? De Bolívar Costa, Como seria o Brasil socialista? De Nestor Holanda, Que é a Revolução Brasileira? de Franklin de Oliveira. 243
No texto de Aloísio Guerra, as intervenções escritas de Tito se resumiram a um comentário sobre paz e justiça, porém as sublinhações foram inúmeras, em praticamente todo o livro. Vamos então nos remeter e dar prioridade ao capítulo em que houve a intervenção gráfica, para depois aprofundarmos os trechos sublinhados. Esta parte da publicação é uma exceção a regra, pois enquanto a média é de quatro páginas por capítulo, este que debate a relação entre Marxismo e cristianismo possui dez laudas, constituindo-se como o maior do livro. Nele Frei Tito adentra no texto riscando o trecho “Porque a Igreja é o Evangelho, é Cristo...”, além de um comentário sobre o estoicismo de Karl Marx destacado pelo Padre Aloísio Guerra:
“O homem Karl Marx é, sob certos aspectos, admirável. Em vez de viver tranquilamente como Professor numa universidade alemã, com todas as honras, bem
241 GUERRA, Aloísio (Padre). A Igreja está com o povo? 1ª edição. Rio de Janeiro. Editora
Civilização Brasileira. 1963; RIDENTI, Marcelo. Op. Cit. p. 114. Ênio Silveira era proprietário da Editora Civilização Brasileira, militante do PCB e do Comando dos Trabalhadores Intelectuais.
242 Esta frase não é Bíblica, mas é muito utilizada por cristãos das mais variadas denominações
religiosas como se lá existisse.
alimentado e bem pago, preferiu ocupar-se do proletariado oprimido da Alemanha, França, Bélgica, Inglaterra, enfim, no mundo inteiro.” 244
No desenrolar do texto novas opiniões sobre Karl Marx e o marxismo continuam nesta linha, da abertura para o diálogo sempre acompanhado por elogios que impressionam por saírem da cabeça de um sacerdote católico. Vejamos outras citações destacadas pelo Tito:
“Os cristãos não são obrigados a acusar o marxismo e os marxistas, mas antes obrigados a examinar como foi possível que o marxismo tenha chegado a considerar o cristianismo como uma potência de opressão”. E ainda “Os cristãos tem muito que receber dos marxistas, mas esses tem mais ainda que receber do cristianismo, o qual, em princípio, deve ser comunicado pelos cristãos aos seus irmãos marxistas”. 245
A intervenção escrita ficou por conta de uma afirmativa quando acima de um início de parágrafo que dizia ser o Cristianismo pela paz, mas não menos pela justiça, O Tito escreveu em cima “Não há paz sem justiça !” portanto existe uma reinterpretação do escrito pelo autor, pois enquanto ele dá primazia a pacificação para depois defender a justiça, o Frei funde uma coisa com a outra, tornando-as carne da mesma carne. Ao lermos este capítulo podemos nos lembrar das bruscas diferenças entre o Padre Aloísio Guerra e as opiniões do Papa Leão XIII sobre o comunismo e o socialismo explicitadas em Documento Oficial apontado nesta dissertação, que fazia parte do acervo deixado por Frei Tito. Enquanto naquele os comunistas são chamados de pestes, entre outros impropérios ofensivos, neste são adjetivados como irmãos. Outra fonte de inspiração para o Tito pode ter sido o próprio Padre Aloísio Guerra que quero deixar claro não é um marxista-leninista tipo Vietcongue Bolchevista, apesar de ser mais aberto para com os comunistas do que grande maioria dos clérigos, mesmo naquela oportunidade histórica marcada pela intolerância de mão dupla. Alguns trechos mostram isso: “Creio firmemente na instituição episcopal como de origem divina. Minha crença chega a veneração ao considerar o Bispo teologicamente
244 GUERRA, Aloísio. Op. Cit. pp. 38 e 39; O título deste capítulo foi retirado de um jornal do
PCB, o semanário Novos Rumos, que naquela oportunidade publicara o artigo de um sacerdote francês chamado Claude Tresmontant que se intitulava Marxismo e cristianismo.
como o pastor da comunidade (mesmo sendo o Arcebispo Coadjutor de Natal, ou o bispo de Campos e Diamantina). 246
Talvez a chave para entendermos o desencontro de A. Guerra e a comunhão entre este texto e Frei Tito tenham sido os justamente os três últimos capítulos do livro, Creio no Bispo, Na história do Brasil e Conclusão inacabada, onde estranhamente não existe nenhuma participação do Frei, seja escrita ou em destaque.
Em creio no Bispo além da profissão-de-fé de lealdade a Igreja existe outro comentário que destaca um trecho da Encíclica Mater et Magistra do Papa João XXIII que reconhece na socialização algo inevitável na contemporaneidade, o que deu margem ao Padre para associar esta observação papal com o comunitarismo cristão da Igreja Primitiva, para em seguida perguntar: “Qual o sistema que lhe é mais contrário?”.
Já em Na história do Brasil citou vários sacerdotes partícipes de momentos vitais da nossa constituição, como José de Anchieta, que seria cheio de tantos méritos que se tivesse aceitado as índias oferecidas pelos caciques como gratidão pelos benefícios feitos as tribos, teria montado um harém. Ou Antônio Vieira que utilizou sua pena e talento literário para denunciar os exploradores.
A lista ainda tem o Padre Francisco Ferro, assassinado com mais de oitenta fiéis pelos holandeses e seus aliados índios potiguares em 1645, Frei Caneca, mártir da emancipação nacional e da Confederação do Equador e Padre Feijó que como deputado constituinte nas Cortes de Lisboa lutou pela independência do Brasil.
Passando para a Conclusão inacabada, que possui este título porque segundo o Padre A. Guerra o leitor deve juntar e julgar todos os casos cá apresentados fez o autor questão de se referir ao capítulo Marxismo e cristianismo onde estava a importante lembrança de que a Igreja era o Evangelho, no qual Cristo definiu sua posição assim: “Eis que vim evangelizar os pobres”.
Neste ponto já podemos pensar, inclusive atendendo pedido do autor, que o marxismo foi o verniz que encobriu o verdadeiro estímulo destes homens, o Cristianismo. Claro que Tanto A. Guerra e muito mais Tito foram mais ousados, o primeiro ao chamar os comunistas de irmãos e o segundo ao entrar na ALN, quando tudo indicava que seu caminho seria a Ação Popular (AP), a filha desgarrada, mas legítima da filial brasileira do Catolicismo.
246 Ibid. Idem. p. 93; Já sabemos quem eram os Bispos de Campos - RJ e Diamantina - MG,
quanto ao arcebispo Coadjutor de Natal em 1963 era D. Eugênio Sales que apoiou o golpe civil-militar de 1964.