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Noëlle Lechat (2006) faz uma analogia entre as raízes históricas da ES e as várias nascentes do rio Nilo para enfatizar a impossibilidade de se pensar uma única e verdadeira origem para um fenômeno social complexo: “uma visão processual e dialética da história não permite falar do surgimento de uma nova realidade com início datado e registrado” (LECHAT, 2006, p. 4). A questão da origem é sempre problemática e incontornável, porque ainda que se queira reconstruir ‘apenas’ uma cronologia, não há como escapar à pergunta sobre as origens do fenômeno estudado. Lechat (2006, p. 4) sugere levar em conta o que ensina a antropologia:

“... a história das origens é sempre mitológica”. Um comentário de Eugène Enriquez (1990, p. 156) sobre a questão, vale aqui como orientação geral: “no mundo não existe jamais ‘tempo reencontrado’, só a literatura pode engendrar tal ambição. Todo estudo da origem deve, por conseqüência, ser considerado como cientificamente não pertinente”.

Longe de negar a existência de uma origem, o que se quer colocar em relevo é a inerente dificuldade de uma conhecida tese de Paul Singer (2000; 2002a; 2002b) de que a ES nasceu na época da revolução industrial, de que guarda íntima relação com o movimento cooperativista dos pioneiros de Rochdale e com o pensamento socialista utópico. Singer ignora as mediações que se intercalam entre o passado e o presente, ao afirmar que a ES nasceu no século XVIII, e renasceu no Brasil contemporâneo. Atualmente presencia-se um revival do passado (ATTIE, 2007):

A Economia Solidária nasceu pouco depois do capitalismo industrial, como reação ao espantoso empobrecimento dos artesãos provocado pela difusão de máquinas e da organização fabril [...]. (SINGER, 2002a, p. 24 e 109). [...] a partir da segunda metade dos anos 70, quando o desemprego em massa começou seu retorno... ressurgiu com força cada vez maior a economia solidária. Na realidade, ela foi reinventada. Há indícios da criação em número cada vez maior de novas cooperativas e formas análogas de produção associada em muitos países. O que distingue este ‘novo cooperativismo’ é a volta aos princípios, o grande valor atribuído à democracia e à igualdade dentro dos empreendimentos, a insistência na autogestão e o repúdio ao assalariamento. (SINGER, 2002a, p. 111, grifo no original)

Outra proposição acompanha e dá suporte a estas primeiras:

A economia solidária não é a criação intelectual de alguém, embora os grandes autores socialistas denominados ‘utópicos’ da primeira metade do século XIX (Owen, Fourier, Buchez, Proudhon, etc.) tenham dado contribuição decisiva ao seu desenvolvimento. A ES é uma criação em processo contínuo de trabalhadores em luta contra o capitalismo; como tal ela não poderia preceder o capitalismo industrial, mas o acompanha como uma sombra, em toda sua evolução .(SINGER, 2000, p. 13).

Se forem examinadas com atenção, a dificuldade em compreender estas idéias torna-se considerável. A tese da reinvenção explica quase nada a respeito da contemporaneidade da ES, porque é muito discutível – como veremos, adiante – a afirmação de que os

empreendimentos transpirem princípios cooperativistas ou pratiquem a democracia. Também é duvidosa a afirmação de que a ES não seja uma criação intelectual de alguém, mas dos próprios trabalhadores. O argumento é perigoso, porque apaga o incontestável caráter de criação intelectual da ES, o perigo está na mensagem de que o trabalho intelectual realizado sobre o fenômeno coincide integralmente com ele, isto significa que a teorização seja legítima por princípio, e que nada haja a desvelar que já não esteja posto por ela. É o perigo de se pensar uma teoria sem mediação, imediatamente identificável ao fenômeno estudado, como se o pensamento teórico fosse uma expressão espontânea e reveladora da realidade. A atitude teórica de negar a criação intelectual atribuindo-lhe transcendência é indício de tendência ao messianismo. A afirmação que diz serem os trabalhadores criadores da ES faz aquele que fala assumir a posição de mero narrador, um enunciador neutro: faz de suas palavras simples fatos narrados, eliminando delas qualquer conteúdo interpretativo. Além disso, revela-se a pretensão de se assumir o papel de porta-voz dos criadores.

É importante destacar a fecundidade da idéia de que a luta dos trabalhadores acompanha o capitalismo “como uma sombra”. Mas, infelizmente, Singer a abandona ao grifar a noção de “uma criação em processo contínuo”. Enfatizando que há algo posto e sempre presente na dinâmica social capitalista, deixa de problematizar sua (des)continuidade. A idéia da sombra traz consigo outra temporalidade (encoberta), a sombra acompanha os movimentos do que é iluminado, é a contracena do roteiro. A tese da sombra é enunciada, mas não é desenvolvida. De qualquer modo, ela parece ser mais central que as idéias sobre as origens da ES, porque permite estabelecer uma correlação entre as crises econômicas e a emergência de movimentos de resistência como a economia social e a ES: organizações sociais alternativas gestadas por movimentos deste tipo surgem “geralmente em cachos, sob o impulso de uma dinâmica sócio- econômica fruto de uma grande crise econômica”. (LECHAT, 2006, p. 5).

Finalmente, vale destacar que Singer sugere que a ES seja um fenômeno contemporâneo, uma vez que é “uma criação em processo contínuo” relacionada à dinâmica da luta dos trabalhadores que caracteriza as relações sociais capitalistas. A ES é criação de uma sociedade em dado período histórico, isto significa que a ES é um processo ou construção cuja especificidade está em sua situação social e histórica. Este aspecto fundamental pode ficar apagado pela idéia da atemporalidade da ES, como algo que sempre existiu. Perde-se de vista as especificidades de um fenômeno que é brasileiro, criação intelectual de um grupo específico de pensadores, com interesses, ideologia e inserção política na sociedade, que

descrevem fenômenos situados historicamente, produzidos por sujeitos sociais que têm uma história, uma cultura, etc.

Benzer Belgeler