Esta dissertação tem como foco analisar o desenvolvimento de um telejornal frente às reconfigurações televisivas atuais, com a inserção de telas auxiliares e o deslocamento dos noticiários para ambientes digitais e em rede. Este estudo não tem por finalidade endossar a concepção de que a forma que a Televisão é vista hoje, como uma nova mídia, é melhor que o espaço ocupado por ela no passado. O que buscamos entender é a formação dessa passagem, que se caracteriza como um processo repleto de modificações que trouxe diversos significados não só para o meio, mas também para a construção dos seus gêneros, como o telejornalismo.
Neste tópico vamos discutir sobre os espaços ocupados hoje em dia pelo telejornalismo. Apontando para novos formatos, encontramos os telejornais não mais na TV apenas, eles passaram a ser comentados, assistidos e experimentados também na Internet. A linguagem e as rotinas são as mesmas? Por enquanto nenhuma grande mudança, mas já é possível notar pequenos detalhes que fazem dos noticiários televisivos também hipermidiáticos, como por exemplo, a presença em páginas das redes sociais, a busca por audiência também na Internet, os canais possíveis para a realização da interatividade, todos estes são fatores que somam para a reconfiguração do gênero televisivo.
Na visão semiótica de Yvana Fechine (2008, p. 02) o telejornal corresponde a uma estrutura enunciativa formada por várias partes e que isoladas apresentam significados distintos, porém nasceram para viver sempre interligadas.
O telejornal pode ser tratado como um enunciado englobante (o noticiário como um todo) que resulta da articulação, por meio de um ou mais apresentadores, de um conjunto de outros enunciados englobados (as notícias) que, embora autônomos, mantêm uma interdependência. Podemos assim, em outros termos, conceber o telejornal como um conjunto que emerge justamente da articulação dessas sucessivas unidades numa instância enunciativa que as engloba. Nas suas mais variadas formas – reportagens gravadas, entrevistas no estúdio, entradas “ao vivo”, gráficos, material de arquivo, etc. – todos os enunciados englobados (unidades) organizam- se em função desse enunciado englobante implícito (todo) porque estão inseridos, e são articulados entre si, numa mesma temporalidade definida pelo início e pelo fim do programa. Essa temporalidade corresponde à duração, continuamente no presente, na qual se dá a própria transmissão do telejornal. (FECHINE 2008, p.02).
O momento atual do telejornalismo acompanha o do próprio meio. A reconfiguração da sua narrativa está atrelada ao período convergente por qual passa a TV. O auxílio vindo da Internet abre margem para a presença de um novo personagem no enunciado e a preocupação com as audiências remodela sua linguagem e insere cada vez mais novos elementos narrativos. A tecnologia é a grande causadora deste processo de (re) construção do gênero. Ela aponta para uma interatividade cada vez maior e necessária nos veículos de comunicação audiovisuais (emissoras de TV especificamente).
Essa perspectiva tecnológica fez aumentar ainda mais o alcance da TV. Com o advento das novas mídias, a sociedade consome a informação televisiva em qualquer lugar e por meio de aparelhos de comunicação portáteis. Essas invenções remodelaram a forma de transmitir notícias pela Televisão. O telejornalismo anda sendo reinventado. Com uma presença mais atuante do público, quanto mais Interativo e Imersivo ele for, maior aceitação daqueles que o consomem. Antônio Brasil (2012) diz que o telejornalismo passa por problemas e precisa ser reorganizado, visando sempre formas para sua potencialização.
As dificuldades de hoje se assemelham com as do período da implantação da TV em todo o território brasileiro. O autor discute ainda a preocupação de produtores de conteúdo noticioso em buscar formas de integrar os telejornais aos recursos da Internet. As telas auxiliares figuram como possibilidade de interação entre o emissor da informação e o receptor, fechando brechas e adequando o processo de comunicação aos novos tempos de inclusão digital. Mas, é bom salientar que esta não é a primeira vez
que o gênero televisual sofre impactos tecnológicos. Inovações que segundo Tourinho (2009) trouxeram contribuições para o aprimoramento técnico e da forma de linguagem do telejornalismo, existiram ao longo de sua história. O autor cita o videotaipe, o controle remoto, o sistema micro-ondas, a transmissão via satélite, a televisão em cores e mais recente a TV Digital. Além dessas, Tourinho ainda cita mudanças de cunho social e visual, como o fortalecimento dos telejornais em rede, linguagem padrão nas emissoras e trocas de cenário.
Mesmo com tantos exemplos passados a chegada das novas tecnologias trouxe impactos profundos na forma de se assistir TV, de experimentar do processo, reordenou a forma da sua narrativa e agregou elementos importantes para a produção de um telejornal atual, como a interatividade e a mobilidade. “As novas tecnologias da informação oferecem instantaneidade, interatividade, abrangência e liberdade. Não têm fronteiras e – mais importante que tudo isso – mostram novidades todo o dia, se renovam permanentemente, trazem o conceito de inovação em seu DNA”. (TOURINHO 2009, p. 135)
O telejornal com a forte presença do digital e de seus atributos ainda está em formação. De certo, que ele já deu grandes passos, como a apropriação de páginas na Internet para práticas interativas. No Brasil a maioria dos telejornais possui espaços na web, nas quais além do telespectador ter acesso às edições que já foram exibidas, ele pode interagir com os apresentadores, enviando perguntas, vídeos ou só marcando presença mesmo. O Jornal da Cultura, por exemplo, possui não só o seu site, como utiliza o recurso em tempo real da Segunda Tela e, ainda disponibiliza no canal Youtube todas as edições do noticiário na íntegra. Ser transportado dessa forma para ambientes digitais abre espaço para uma informação democratizada e eleva o telespectador ao lugar central do processo, já que a escolha do que quer e como quer assistir é dele, não sendo imposto nem as barreiras do tempo e nem do espaço.
O Youtube é um site de compartilhamento de vídeos mais acessado na atualidade. O Youtube foi fundado em 2005 pelos jovens Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim e rapidamente popularizou o compartilhamento de vídeo, tornando-o um dos elementos mais importantes da cultura da Internet. O Youtube é um exemplo claro de reformulação de certos elementos da TV e sua junção com a Internet. Nele, o universo televisivo é evocado a partir do próprio nome do site: Youtube – o seu tubo (televisivo); pelo desenho de sua logomarca – a palavra tube se encontra inscrita em um retângulo de bordas abauladas que faz alusão à tela televisiva; e é reforçado pelo slogan – broadcast
yourself – divulgue-se, transmita-se, televisione-se. (CAPANEMA E FRANÇA 2013, p.31).
Mas em contrapartida o telejornalismo atual apresenta outras características que não agradam ao público, que cada vez mais procura a informação de outras fontes, fundadas na Internet. A notícia bruta sem atrativos e sem possibilidade de interatividade é um delas. Por isso que a discussão a respeito das mudanças e impactos nos noticiários televisivos visa também indicar novos formatos para a notícia. Os modelos atuais não se encaixam completamente ao perfil do telespectador que consome a informação a partir de variados canais e dispositivos móveis. A notícia tem que se encaixar às múltiplas telas presentes no mercado. Tourinho (2009, p. 223 -224) diz que os jovens acham a TV limitada. Eles consideram a Internet uma ferramenta ativa porque permite que o usuário escolha a informação que lhe interessa. Nas demais mídias outros escolhem.
O autor também questiona se os telejornais devem adotar o perfil das novas mídias, e nos instiga a refletir sobre alguns pontos centrais da construção da notícia televisiva, como “velocidade versus qualidade, programação versus autoprogramação, credibilidade versus jornalismo colaborativo, disseminação contínua versus prestígio da informação exclusiva”, será que esses fatores serão também reconfigurados com as novas lógicas televisivas? Ao que nos parece ainda não entramos nesse mérito. O telejornalismo agregou algumas características possíveis, como a notícia complementar por telas auxiliares e síncronas e também pelo canal das redes sociais. Entender se essa ferramenta auxilia na informação é o que estamos investigando nesse estudo, já que nos propomos a analisar a Segunda Tela do Jornal da Cultura, recurso que é sincronizado ao noticiário em telas móveis.
Brasil (2012) enxerga que o telejornal da TV é apenas um telejornal, sem grandes avanços narrativos e nada que surpreenda o telespectador, apenas notícias relatadas de modos convencionais. Já quando existe a integração dos serviços surgidos na Internet e de características de novas mídias como a mobilidade e a interatividade, o telejornal passa por uma transformação. Deixa de ser elementar e passa a ser um “suporte noticioso” que agrega valores multimídia. Tornando-se mais completo, mais democrático.
Ao propor a discussão da notícia tanto no estúdio quanto em outros ambientes digitais, o telejornal incorpora uma narrativa experimental imagética, dotada de uma linguagem hipermidiática, que redimensiona os valores singulares do noticiário
audiovisual, remodelando suas rotinas produtivas, recebendo ajuda dos telespectadores na construção do mesmo, tornando o processo ainda mais em rede, como se o telejornal fosse uma grande teia noticiosa, na qual a presença de mais opiniões, comentários, participação remodelassem seu uso, mas isso claro seria feito sem dispensar seu objetivo principal: informar.