Num primeiro momento foram estabelecidos os critérios para a coleta, partindo-se inicialmente do gênero textual a ser explorado. A entrevista se mostrou como gênero mais adequado devido ao fato de estarem presentes, no ambiente discursivo imediato, pelo menos um ouvinte e um falante. Este critério, aparentemente irrelevante, foi utilizado, pois, assim é possível a observação do surgimento ou criação de novos participantes da interação, além do ouvinte e do falante, para ilustrar o dinamismo do processo da referenciação dêitica. É interessante, para este trabalho, esclarecer como se dá a referenciação no campo mostrativo e no campo simbólico.
A entrevista é um gênero textual que mais se adéqua aos propósitos desta pesquisa. A noção de gênero textual, aqui adotada, alinha-se com a proposta de Swales (1990, p. 58) que a considera uma classe de eventos comunicativos. Os elementos dessa classe teriam objetivos e propósitos comunicativos semelhantes. Seu estilo e conteúdo seriam delineados pelo que ele chama de razão do gênero.
A estrutura da entrevista jornalística é, por excelência, uma conversa controlada, como coloca Hoffnagel (2002). A autora afirma que a entrevista é um subtipo de evento oral, transcrito para publicação que possui uma estrutura formal e é caracterizada pelo par pergunta-resposta. Esse gênero textual permite a contemplação das relações sociais que orientam a interação.
99 Charaudeau (1997) distingue os tipos de entrevista de acordo com a alternância
de turnos. A entrevista de entretenimento parte do pressuposto que os dois parceiros têm um mesmo status e tratam de um tema, mostrando a mesma proficiência com relação a esse tema, objetivando elucidar questões. A entrevista de conversação não requer dos interlocutores nenhuma sapiência acerca do assunto tratado e não mostra tentativas de controle de turno. Outro tipo apontado pelo autor como “entrevista em si” é o que exige certa distinção do status de cada interlocutor, onde uma pessoa questiona e outra apresenta uma distinta qualificação para responder.
No que diz respeito à esfera pragmática, a noção de pares de adjacências se destaca na organização geral da conversação. Os pares de adjacências se constituem de enunciações emparelhadas e configuram protótipos pergunta-resposta, cumprimento-cumprimento, oferecimento-aceitação, desculpas-minimização, etc. O gênero entrevista se organiza em pares pergunta-resposta, mas oferece também espaço para outras cadeias de ações20 como a avaliação (asserção expressando um julgamento). Uma avaliação normalmente é seguida de outra avaliação como afirma Levinson (2007, p. 432). Contando com várias ferramentas, o enunciador procura cooperar de várias formas para atingir seu objetivo.
Pode ocorrer numa entrevista o chamado reparo21 que se constitui de uma enunciação para acompanhar aquela que a precede imediatamente e fornece uma oportunidade de elucidar, explicar, ilustrar e, muitas vezes, corrigir o que foi dito. Quando se trata de uma entrevista sobre um assunto controverso, ou que aborda (como no caso de uma das entrevistas escolhidas por mim) a divulgação de um evento,
20 Ver Pomerants (1975).
100 que tangencia questões pessoais ou posturas e opiniões profissionais, não são raras as
circunstâncias que mostram estratégias para salvar a face (face-saving strategies).
6.2O
S OBJETIVOSA presente investigação tem por objetivo delinear as facetas conceptuais e ampliar o escopo de referenciação do apontamento dêitico feito por meio do dêitico você que ocorre no discurso verbal, mais especificamente, em entrevistas televisivas.
A visão canônica do você, que estabelece o ouvinte como único alvo referencial fixo será mais detalhadamente investigada nesta investigação. Parto da hipótese de que haja um escopo de referenciação mais complexo e amplo que pode ser apreciado quando o enquadramento semântico do ambiente discursivo no qual esta dêixis é usada tem suas características cognitivas levadas em consideração.
A referenciação dêitica é apreciada, aqui, como um processo online, construído pelo conceptualizador, de forma situada. Objetivo mostrar a natureza conceptual do fenômeno dêitico, dando relevo ao seu aspecto psicológico.
Partindo destas premissas, tenho como objetivos específicos:
a. Investigar a noção de dêixis pronominal buscando evidências que indiquem que o uso do você revela mais ações do que a simples identificação de uma referência a uma entidade fixa em direção a segunda pessoa do singular (o ouvinte) ou as pessoas em geral (a acepção genérica);
b. Descrever o processo de apontamento dêitico, estudando a sua natureza psicológica;
101 c. Mapear as marcas de perspectivação, abstração e seleção no
apontamento do dêitico você;
d. Apontar, por meio da estrutura TAM, possíveis generalizações referentes à distribuição deste apontamento espraiado;
e. Verificar a emergência das distintas facetas do dêitico em questão, por meio de variações TAM, das substituições do você por suas acepções e através da análise dos movimentos gestuais;
f. Delinear as características do enquadramento semântico que é construído quando da ocorrência das facetas egocêntrica, projetada e interlocutória.
g. Estudar a construção da plataforma conceptual imagética, ou seja, do plano sub-rogado que é construído na referenciação não canônica do você.
h. Mapear os gestos que co-ocorrem com a dêixis você e nos excertos onde ela está presente, buscando averiguar pistas que indiquem como acontece o processo de referenciação e emergência das facetas conceptuais.
i. Comparar a manifestação das facetas conceptuais nos textos tanto orais quanto escritos;
j. Investigar questões de ordem semântico-gestual que se alinham com questões de natureza cognitiva no fenômeno do apontamento dêitico.
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6.3R
ESUMONeste capítulo foi delineada a metodologia da qual esta pesquisa se serve. As etapas do protocolo adotado foram apresentadas. Ficou evidenciada a importância e a relevância do uso da análise gestual, do estudo da estrutura TAM das ocorrências do dêitico você no mini-corpus que foi montado, das substituições do você por suas acepções ora mais ora menos esquemáticas para a análise e verificação da emergência das facetas do dêitico você.
Foi apresentado, também, um breve relado sobre o gênero entrevista e sobre sua pragmática. Os objetivos gerais o os específicos que norteiam este estudo também foram mostrados nesta seção.
Passo agora para a apresentação da análise das entrevistas, nas quais poderemos apreciar o papel dos insumos descritos nesta seção, na construção dos espaços imagéticos e na emergência das facetas conceptuais do dêitico você.
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7 A
ANÁLISEEste capítulo trata da análise das entrevistas coletadas. Como relatado anteriormente, o total de entrevistas investigadas é quatro. Serão apresentadas análises de duas entrevistas que ocorreram em ambiente televisivo. Primeiramente será apresentada a análise lingüística de cada excerto onde ocorreu a emergência das facetas conceptuais do dêitico você. Num segundo momento, passaremos para a análise da gestualidade referente aos mesmos excertos.
Mais duas entrevistas coletas na mídia escrita serão analisadas, em seguida. Por se tratar de discurso escrito será feita apenas a análise lingüística, com o foco voltado para as acepções do dêitico você, a estrutura TAM e o framing ou enquadramento semântico das ocorrências.
Cada entrevista terá sua estrutura lingüística analisada por vários ângulos. Primeiramente será utilizado o programa de software TexSTAT para que as ocorrências do dêitico você fossem isoladas. O co-texto também será apreciado por meio deste programa que fornece a freqüência e a concordância. Logo em seguida, cada excerto será analisado por meio de substituições do dêitico por suas acepções ora mais abstratas, ora menos esquemáticas. A estrutura TAM de cada ocorrência será investigada e serão apresentados os gráficos e as tabelas correspondentes. Passemos, agora, para a análise lingüística da primeira entrevista.
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