No sentido de desenvolver competências científicas, técnicas e humanas para a concepção, gestão, prestação e supervisão de cuidados de enfermagem especializados à criança, ao jovem e à família, no decorrer do 3º semestre mobilizei diversos meios e recursos na procura de um cuidar de excelência, não só às crianças alvo do projecto - as crianças maltratadas - mas também a todas as outras crianças e famílias com quem contactei.
A experiência de estágio revelou-se bastante enriquecedora, uma vez que permitiu a vivência de experiências e situações que contribuíram para a minha formação, não só profissional como também pessoal. Por outro lado, conduziu constantemente à necessidade de reflexão e análise, contribuindo assim para o meu desenvolvimento de juízo crítico. A realização do estágio nos diversos serviços de saúde permitiu explorar, aprender, conhecer, compreender e partilhar sobre a temática escolhida, oferecendo-lhe uma maior visibilidade e despertando a necessidade de debate e reflexão sobre a mesma. Por outro lado, com as actividades desenvolvidas nos diferentes locais de estágio, e nomeadamente com a proposta do Programa de Intervenção em Enfermagem, acredito que deixei conhecimentos e contributos para uma melhoria contínua da qualidade dos cuidados prestados às crianças e famílias, a avaliar pela adesão demonstrada por parte das equipas de enfermagem com quem contactei.
Ao longo do estágio conseguiu-se que a temática dos maus tratos infantis fosse transversal a todos os locais por onde passei, conjugando-se necessidades intrínsecas e extrínsecas ao processo de aprendizagem, efectuando-se uma gestão de meios e recursos que potenciassem esta actuação e mantendo-se uma linha orientadora de todo o percurso realizado.
O modelo teórico adoptado, o Modelo Sistémico de Neuman, permitiu ver a criança/jovem inserida num sistema (fosse ele a família, a comunidade ou a instituição hospitalar), cujo processo saúde-doença está em permanente interacção com o meio ambiente e é afectado por diferentes factores de stresse, causando-lhe desequilíbrio. As minhas reflexões e intervenções tiveram lugar quer neste desequilíbrio (potenciando os recursos da criança/família para que atingisse novamente o equilíbrio do seu sistema), quer na fase de equilíbrio (permitindo à criança/família manter a sua homeostasia). Estas intervenções tiveram em consideração a óptica de Neuman (1989), segundo a qual as
intervenções de enfermagem são feitas através de três formas de prevenção (primária, secundária e terciária), de modo a obter um nível máximo de bem-estar.
Dada a complexidade que envolve a temática abordada, surge a consciência de que há ainda um longo caminho por percorrer e que existem inúmeras contrariedades que necessitam de ser ultrapassadas. Contudo, considero que pequenos passos foram dados face à prevenção dos maus tratos infantis. Desde a sensibilização dos profissionais para esta problemática, ao fortalecimento da parentalidade e vinculação entre pais e crianças, à sugestão de protocolos, normas e orientações técnicas, ao apoio e protecção da criança já maltratada, muitas são as mais-valias que enfermeiros podem proporcionar à criança como forma de prevenção primária, secundária e terciária.
Em suma, emerge deste processo evolutivo a noção de que o EESIP é um mobilizador de recursos, sendo o elo de ligação entre os diversos contextos institucionais, criança/família e comunidade, garantindo que os ganhos em saúde sejam de facto uma realidade. Para isso, necessita de um amplo referencial teórico e de uma prática reflexiva que lhe permita dispor de competências específicas que contribuam para mudar as realidades e construir um cuidar com um elevado grau de adequação às necessidades de saúde da criança e família.
Os Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem Especializados em Enfermagem de Saúde da Criança e do Jovem (OE, 2011) definem como focos de intervenção do EESIP: a promoção do crescimento e desenvolvimento da criança/jovem; a gestão do bem-estar da criança; a detecção precoce e encaminhamento de situações que possam afectar negativamente a vida ou qualidade de vida, nomeadamente comportamentos de risco, suicídio, violência e gravidez; a promoção da auto-estima do adolescente e a sua progressiva responsabilização pelas escolhas relativas à saúde. Nesta perspectiva, considero ter atingido os objectivos a que me propus e que me foram proporcionadas experiências formativas altamente enriquecedoras que me permitiram adquirir/desenvolver competências num leque alargado de domínios (responsabilidade profissional, ética e legal; melhoria da qualidade; gestão dos cuidados; desenvolvimento das aprendizagens profissionais) que contribuirão para atingir a tão desejada excelência dos cuidados de enfermagem especializados. Foram também desenvolvidas competências específicas do EESIP, traduzidas numa prestação de cuidados em parceria ao binómio criança/família, em resposta às necessidades do ciclo de vida e do desenvolvimento e com mobilização de recursos para cuidar em situações de particular exigência.
Foram algumas as dificuldades que surgiram ao longo deste percurso de estágio, nomeadamente, burocracias, escassez de recursos materiais e humanos e a conjugação da vida profissional e de estudante. No entanto, não inibiram o crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional, mas antes, fortificaram-no e impulsionaram-no, promovendo a negociação, adaptação às variadas situações e contorno de obstáculos, de forma a atingir a consecução dos objectivos propostos.
Termina-se este relatório com a convicção de que a utilização conjunta das diferentes estratégias adoptadas no decorrer deste processo formativo contribuíram para a melhoria da assistência da criança/família em situação de risco ou vítima de maus tratos e favoreceu uma prática de enfermagem mais orientada e sistematizada, facilitando a detecção precoce e o encaminhamento de situações de risco, agilizando-se desta forma o processo de cuidar adaptado às necessidades e especificidades destas crianças/famílias. Por outro lado, pretende-se que este seja o início de um percurso com vista à melhoria da qualidade dos cuidados à criança/família vítima de maus tratos. Para tal, pretendo futuramente dar continuidade ao trabalho até aqui realizado, contribuindo com as aprendizagens e competências adquiridas ao longo deste processo formativo. Após a conclusão do estágio surgiu o convite para participar num Simpósio de Enfermagem Pediátrica onde fiz uma apresentação com o tema “Maus tratos infantis: a importância da notificação”. Para além disso, tendo em conta que o enfermeiro especialista contribui também para o progresso da profissão através do desenvolvimento do conhecimento em Enfermagem e de uma prática baseada na evidência, gostaria igualmente de dar contributos na área da investigação, numa tentativa de aumentar o conhecimento sobre esta problemática. Com efeito, penso que futuras investigações relacionadas com as várias medidas de prevenção dos maus tratos seriam úteis para demonstrar a sua eficácia.