No quarto capítulo, “La parte de los crímenes”, são descritos cerca de cem assassinatos de mulheres na cidade de Santa Teresa; o narrador utiliza o jargão médico-legista, encenando uma pseudofrieza em relação aos casos relatados, bem como mantendo um aparente distanciamento em relação aos mesmos. Entretanto, o discurso de Bolaño se vale de grande ironia, pois o efeito pretendido (ou causado) é justamente de implicação subjetiva do narrador com a situação de marginalização e violência física e psicológica imposta às mulheres, ou seja, o contrário da objetividade anunciada. A seguir a descrição de dois assassinatos:
El quince de enero apareció la siguiente muerta. Se trataba de Claudia Pérez Millán. El
cuerpo fue encontrado en la calle Sahuaritos. La occisa vestía un suéter negro y tenía dos
anillos de bisutería en cada mano, además de la argolla de compromiso. No llevaba falda ni bragas, aunque sí estaba calzada con unos zapatos de imitación de cuero, de color rojo y sin tacones. El cuerpo, que había sido violado y estrangulado, estaba envuelto en una cobija
blanca […] Claudia Pérez Millán trabajaba como mesera en una cafetería del centro.
(Grifo nosso) (p. 563 - 564)166
Por lo que respecta a las mujeres muertas de agosto de 1995, la primera se llamaba Aurora Muñoz Álvarez y su cadáver se encontró en el arcén de la carretera Santa Teresa-Cananea. Había muerto estrangulada. […] Según el forense, había sido golpeada y azotada: en su espalda aún se podían apreciar las marcas de un cinturón de cinta ancha. Tabajaba de
mesera en un café del centro de la ciudad. (Grifo nosso) (p. 575)167
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Em quinze de janeiro apareceu a seguinte morta. Tratava-se de Claudia Pérez Millán. O corpo foi encontrado na rua Sahuaritos. A vítima vestia um suéter preto e tinha dois anéis de bijuteria em cada mão, além de uma aliança. No usava saia nem calcinha, mas estava calçada com uns sapatos de imitação de couro, de cor vermelha e sem salto alto. O corpo, que havia sido violentado e estrangulado, estava envolto em uma coberta branca […] Claudia Pérez Millán trabalhava como garçonete em uma cafeteria do centro.
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Ao que diz respeito às mulheres mortas em agosto de 1995, a primeira se chamava Aurora Muñoz Álvarez e seu cadáver foi encontrado no acostamento da estrada Santa Teresa-Cananea. Morreu estrangulada […] Segundo o legista, ela foi estrangulada e espancada: em suas costas ainda se podiam ver as marcas de um cinto de correia larga.
O que se observa em todas as descrições é o uso de termos técnicos médico-legista, como os acima destacados, enumeração de nomes, idades, endereços, filiação (como em um obituário), das peças de roupa usadas no momento do crime, acessórios e, especialmente, o relato da ocupação trabalhista. A classe social dessas mulheres, quase sempre desfavorecida, influenciará em suas mortes. Este trabalho tende a acreditar que o intuito do escritor não é simplesmente fazer um levantamento de crimes e enumerá-los, mas sim fazer uma denúncia de crimes que ocorrem verdadeiramente e propor uma reflexão sobre o mal e a violência.
O cenário dos assassinatos, Santa Teresa, e especificamente o deserto, caminho para os Estados Unidos, pode nos ajudar também a entender a dinâmica dos crimes. A cidade, como é fronteira com os Estados Unidos, é local de passagem de “coiotes”, de trabalhadores, de imigrantes. Como nos informa Gael García Bernal e Marc Silver, em sua série de quatro vídeos, intitulados The invisible, de 2010, sobre o atravessamento de imigrantes ilegais da fronteira do México para os Estados Unidos, a aventura é cercada de riscos, violência, ameaças, roubos, sequestros, estupros, torturas e violações, praticados tanto por atravessadores como por policiais. O cenário escolhido por Bolaño, então, já é marcado pela questão da violência e nos ajuda a compreender que o delito contra as mulheres nessa região é frequente.
O ato irônico ocorre à medida que o narrador tenta explicitar que não tem nada a ver com as mortes, que ele apenas as conta, mas, de maneira implícita, vê-se que isso não é indiferente para a voz que narra. A pergunta que nos faz duvidar do não envolvimento do narrador é: por que narrar tais mortes? Por que as expor? É aí que suspeitamos de que contar a história desses corpos violentados não é algo meramente objetivo. A ironia acontece também em comentários críticos, como “Por otra parte, en diciembre de 1994 no hubo más asesinatos de mujeres, al menos que se supiera, y el año terminó en paz” (p. 549).168
A crítica está em dizer que o ano terminou em paz, sabendo que aconteceram inúmeros crimes e quase todos sem solução, e que as mulheres ainda corriam muito risco.
A performance da escrita, então, passa a ser também a performance do corpo: do corpo que escreve, do corpo violentado que tem seu destino narrado, do corpo que lê e que tem que se a ver com a tragédia e com os problemas da sociedade. Todos esses movimentos dependem da subjetividade dos atores envolvidos na questão, seja ele o narrador seja o leitor, ou as próprias mulheres. Para nós, a performance é possível porque narrar as mortes violentas das mulheres não se trata de uma representação do real ou de somente uma denúncia, mas tem a ver com escritor (narrador) e leitor sentirem também em seus corpos a intensidade da violência que se pratica contra corpos tão frágeis e tão humanos quanto os de quem escreve e de quem lê.
Bolaño consegue ainda trazer à tona assuntos que parecem não ter relação com os assassinatos, mas que fazem parte da teia que torna possível que essas atrocidades ocorram. Dentre eles, pode-se destacar a
Trabalhava como garçonete em um café do centro da cidade.
168 “Por outra parte, em dezembro de 1994 não houve mais assassinatos de mulheres, ao menos que se soubesse, e o ano
corrupção e o descaso da polícia de Santa Teresa. Tal corrupção e descaso são um indício da difícil relação que o poder policial estabelece com a sociedade, sendo muitas vezes injusta com os cidadãos de menor poder aquisitivo e condescendente com os mais poderosos.
Depois de um corpo ser encontrado perto de uma fábrica, ocorre esta conversa entre um executivo e um policial: “Bueno, dijo uno de los ejecutivos, usted se encarga de todo, ¿verdad? El policia dijo que sí, cómo no, y se guardó el par de billetes que le tendió el otro [...]” (p. 450).169
A ideia que se tem desse trecho é que o executivo da fábrica queria que o policial se desfizesse do corpo sem comprometer a empresa. Outro exemplo nos mostra a negligência policial com os assassinatos: “Dos de las compareñas de Leticia Contreras Zamudio fueron acusadas formalmente de su asesinato, aunque no había ninguna prueba que las inculpara [...]” (p. 502).170
Nesse exemplo, o que se vê é a polícia tentando encontrar um culpado para o assassinato, mas sem nenhum indício de quem seria. Vale dizer que Leticia e as amigas eram prostitutas, o que, de certa forma, parece contribuir para o descaso com a situação. Vale lembrar ainda a principal negligência a respeito dos crimes: a prisão do suspeito de cometer os crimes, o sobrinho de Archimboldi, Klaus, e os crimes continuarem acontecendo (p. 378).
Nesse contexto de negligência, o aparecimento da personagem Florita Almada é fundamental, ela é uma vidente e prevê os crimes. Um canal de televisão a entrevista, mas, de modo geral, Florita não é levada a sério, tampouco suas previsões. Sua importância reside no fato de ela ser uma das poucas pessoas que presta atenção ao que está ocorrendo com as mulheres e se preocupa verdadeiramente com elas. Sua vida apresenta uma metáfora significativa em relação aos crimes: sua mãe e seu esposo eram cegos e foi ela quem cuidou dos dois. Florita tem a função, então, de ver para quem não pode enxergar, e é o que faz em relação aos crimes, além de prever, ela consegue entender a dimensão que eles têm. Ao construir a personagem Florita, Bolaño valida os conhecimentos populares e coloca em xeque a noção de que apenas os conhecimentos científicos são válidos. Ironicamente, é apenas a mulher simples e sem educação formal que tem a capacidade de enxergar e compreender os assassinatos.