Como visto na introdução, forjamos a noção de migração da costura para definir
um tipo específico de fluxo migratório que ruma à RMSP. Trata-se de migrantes –
bolivianos, paraguaios e, em menor escala, peruanos – que consolidaram um fluxo
migratório para São Paulo caracterizado pela inserção na cidade através da indústria de vestuário. A grande maioria dos migrantes dessas nacionalidades, que chegaram a São Paulo a partir da última década do século XX, puseram-se a marchar de suas cidades em busca de melhores rendimentos através de uma atividade laboral.
A exploração do trabalho de migrantes em oficina de costura, muitas vezes em situação irregular, é prática recorrente em diversos cantos do globo. Não nos
te toàdeà“id e à“il aà I :àBáENINGE‘,à ,àp.à - .àPa aà“il a,àasàfestasà oli ia asàope a à oàse tidoàdeà uda àaài age àdoà oli ia oàe à“ oàPaulo,à alo iza doàsuaà i uezaà ultu al,à o stitui doàout aài age àdoàg upo,àdista teàdaàestig atizadaà is oà deàes a osàeàsujos.à
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surpreenderá se, no futuro, forem identificados novos fluxos de migrantes da costura, provenientes de outros países, uma vez que a oficina de costura é um modo de territorializar e fazer circular migrantes transnacionais. Isto quer dizer, não se deve tratar esse tipo de inserção de modo etnicizado, essencializado ou relativo a uma determinada sociedade ou ao seu equivalente cultural, trata-se, sobretudo, para usar os termos de Souchaud (2012), de um nicho de mercado que é favorável à inserção de migrantes.
A hipótese que desenvolvemos é que a oficina de costura funciona como um
dispositivo que opera em dois sentidos, que acabam por constituir uma afinidade eletiva81
da migração circulante da costura com a dinâmica da indústria de confecções da RMSP: 1º – possibilita a gestão produtiva da indústria de confecções de modo que o setor cresça, pois oferece um conjunto de fatores que torna a produção de vestuário paulistana bastante competitiva; é uma forma de organização da produção adequada à sazonalidade e flexibilidade do setor; permite uma ágil produção para o fast fashion; apresenta baixos custos de mão de obra; livra as empresas que coordenam o setor do peso da manutenção
de um grande quadro fixo de trabalhadores para um mercado bastante sazonal. 2º – ao
mesmo tempo, as oficinas de costura ativam redes de trabalhadores transnacionais, possibilitam a circulação de migrantes por entre Estados-nacionais e oferecem um caminho de inserção para esses trabalhadores, que oferecem força de trabalho a um baixo custo. Esses sentidos compõem um modo de inserção dos migrantes, através das oficinas, que engendra formas específicas de assujeitamento do trabalhador aos mecanismos de exploração do trabalho.
As oficinas de costura são mecanismo de circulação, pois possibilitam a fixação do migrante na cidade. Quais seriam as possibilidades de estabelecimento de um migrante numa sociedade qualquer onde ele não dominasse a língua, não conhecesse os códigos, não estivesse regularizado, numa situação em que ele não tivesse capacitação para o trabalho a ser desempenhado, que ele sequer tivesse recursos para o deslocamento? As chances seriam praticamente nulas, as oficinas de costura oferecem um meio para contornar esses obstáculos. Na oficina de costura o migrante está entre pessoas conhecidas (entre nacionais, normalmente parentes ou amigos de amigos), fala a mesma língua, assimila os novos códigos sociais, tem a oportunidade de aprender o ofício da
81àáàutilizaç oà aisà o he idaàdoàte oà àaà ueàfazàMa àWe e àe àáà ti aàp otesta teàeàoàespí itoàdoà apitalis o,àoàauto àfo ulaà
aà oç oà i spi adoà e à o aà deà Goethe.à Oà o eitoà à e p egadoà pa aà des e e à aà at aç oà e t eà aà ti aà eligiosaà doà p otesta tis oàas ti oàeàaà a io alidadeàp ti aàdaà ultu aà apitalistaà ode aà WEBE‘,à .àMi haelàL à àe te deà po à afi idadeà eleti aà u à tipoà uitoà pa ti ula à deà elaç oà dial ti aà ueà seà esta ele eà e t eà duasà o figu aç esà so iaisà ouà ultu aisà oà edutí eisà àdete i aç oà ausalàdi eta.àT ata-seàdeàu aà útuaàdete i aç oà–àu àte oào o eàeàseàfo tale eàaoà passoà ueàoàout oàseàdese ol e.à
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costura (em geral não se exige o conhecimento prévio), não sofre constrangimento do empregador para a regularização da situação no país. Até mesmo o deslocamento para a nova cidade pode ser financiado pelo dono da oficina (SOUCHAUD, 2012).
Neste sentido, a oficina de costura é o dispositivo pelo qual os migrantes conseguem se inserir na cidade em busca da realização de seus projetos migratórios. O tipo de trabalho desempenhado, em que se paga por peça, pode ser considerado vantajoso pelo migrante, pois ele tem a possibilidade de cumprir jornadas extensíssimas e intensíssimas (que vão muito além do permitido pela CLT), que podem possibilitar maiores ganhos do que os salários fixados pelas jornadas de 44 horas semanais. Foram entrevistados migrantes que afirmaram preferir receber por produtividade, pois conseguem auferir valores superiores ao piso da categoria, que são fixados com referência às horas trabalhadas e não à produtividade (segundo o salário mínimo paulista, instituído pela lei nº 14.945/2013, o piso para o trabalhador da costura é de 765 reais, caso não haja acordo ou convenção coletiva que o regule).
Isto é, a flexibilização joga com os modos de subjetivação do migrante, pois faz parecer que se o trabalhador não ganhou o quanto almejava com o serviço desempenhado, isso se deve à conduta que teve no período produtivo: não trabalhou o quanto e como deveria, pois seus pares atingiram as metas que traçavam. Além disso, a sazonalidade do setor, que para os antigos empregadores era um grande problema, pois os obrigava a manter um quadro extenso de costureiros mesmo no período de baixa demanda, passa a ser contornada pela ativação das oficinas de costura somente quando é necessário. Transferem-se os riscos da instabilidade para o trabalhador na ponta do processo produtivo, nesse caso, o migrante. Assim, nos períodos de baixa demanda os migrantes tendem a retornar às cidades de origem ou buscam outras formas para se manterem na cidade.
Em Nascimento da biopolítica, Michel Foucault aborda o neoliberalismo para além de uma política econômica ou um modo pelo qual governados e governantes se relacionam. Segundo Foucault, uma forma frutífera para se entender o neoliberalismo é tomando-o como um método de pensamento, uma grade de análise econômica e sociológica. Nesse sentido, seguindo as análises de teóricos neoliberais, Foucault evidencia o modo como, no neoliberalismo, o trabalhador passa a se constituir como uma empresa. Esse modo de analisar o trabalhador é o oposto do pensamento marxista, a antípoda do pensamento do trabalhador como o vendedor de sua força de trabalho, que seria negociada a preço de mercado a um capital que seria investido numa empresa
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(FOUCAULT, 2008b, p. 310). O próprio trabalhador passa ser visto como uma espécie de
empresa, empresa de si mesmo. Segundo esseà a io í io,à oàsal ioà oà à adaà aisà ueàaà
remuneração, que a renda atribuída a certo capital, capital esse que passa a ser denominado de capital-humano na medida em que, justamente, a competência-máquina
de que ele é a renda não pode ser dissociada do i di íduoàhu a oà ueà àseuàpo tado à
(FOUCAULT, 2008b, p. 311-12). Assim, trata-se de outro modo de racionalizar as relações de trabalho, deixa-se de considerar os aspectos relacionados à apropriação do trabalho não pago, segundo uma perspectiva marxista, em que o assalariamento frisa a compra da jornada de trabalho; passa-se a evidenciar o aspecto do investimento: o trabalhador investe em seu capital, o capital humano por excelência. No caso dos migrantes da costura, essa racionalidade opera com bastante força, tendo em vista que eles se apresentam como os senhores de suas trajetórias, eles não têm fidelidade a um projeto de cidadania instituída nos marcos nacionais, não têm identificação com projeto político nacional. O fato de se tornarem empreendedores de si mesmos faz ainda com que se esvaiam as possibilidades de constituição de uma identidade coletiva. O empresário de si opera na lógica da concorrência e não na da identificação.
Dentre os investimentos possíveis no capital-humano, Foucault destaca a mobilidade e a migração. Na grade analítica neoliberal, rastreada por Foucault, tem-se que a migração representa um custo, uma vez que o migrante deslocado fica sem dinheiro por conta do custo financeiro e psicológico de instalação em um novo meio. Ao mesmo tempo, a migração significa prejuízo ao migrante, uma vez que o processo de adaptação ao novo meio significa que o migrante não poderá ter acesso às mesmas rendas que antes, pois está justamente em fase de adaptação. Disso, conclui-se que a migração tem um custo que te àpo ào jeti oàu aà elho iaàdeàposiç o,àdeà e u e aç o.àNesseàse tido,à aà ig aç oà à um investimento, o migrante é um investidor. Ele é empresário de si mesmo, que faz um e toà ú e oà deà despesasà deà i esti e toà pa aà o te à e taà elho ia. à FOUCAULT, 2008b, p. 317).
Partindo desta perspectiva, é possível analisar os processos de assujeitamento aos quais os migrantes da costura estão imbricados. Para Foucault, as lutas contra os processos de assujeitamento são, na realidade, lutas contra formas de poder que atuam sobre os indivíduos, caracterizando-os e marcando-os em sua própria individualidade, ligando-os à sua própria identidade, impondo-lhes uma lei de verdade, que todos devem e o he e à eles.àPa aàFou ault,à àu aàfo aàdeàpode à ueàfazàdos indivíduos sujeitos. Há dois significados para a palavra sujeito: sujeito a alguém pelo controle e dependência, e
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preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. Ambos suge e àu aàfo aàdeàpode à ueàsu jugaàeàto aàsujeitoàa. à FOUCAULT, 1995, p. 235).
Partindo de uma perspectiva que tenta, ao mesmo tempo, aproximar a perspectiva de Marx (teoria da mais valia) da perspectiva de Foucault (sobre o assujeitamento), pode- se dizer que a oficina de costura atua como dispositivo que assujeita trabalhadores à superexploração do trabalho. Nosso ponto de vista busca deslocar a perspectiva de Souchaud, segundo a qual
asàofi i asàdeà ostu aà oàpode àse à o side adasàu i a e teà o oàluga esà de exploração da mão de obra imigrante, também são lugares de inserção e ascensão social para numerosos estrangeiros, por que a informalidade e flexibilidade da organização das oficinas também facilitam a integração no
e adoàdeàt a alhoà ... à “OUCHáUD,à ,àp.à .à
Souchaud tem razão ao dizer que as oficinas não podem ser tomadas unicamente como lugares de exploração de força de trabalho. No entanto, contrapor à análise que enxerga apenas espaço de exploração de mão de obra o fato de haver ascensão social, ou, ainda, argumentar que a flexibilidade e a informalidade facilitam a integração no mercado de trabalho, são modos de analisar as oficinas de forma a não revelar os múltiplos aspectos que a compõem. A oficina de costura é também um espaço de assujeitamento de trabalhadores. Nesse sentido, os migrantes se assujeitam ao trabalho com longas jornadas, em condições mais do que precárias, justamente porque a oficina de costura permite a ascensão social, a possibilidade da ascensão social é um dos termos que compõe
o dispositivo oficina de costura. Segura e te,àseà oàhou esseà hist iasà o àfi alàfeliz à–
em que o migrante, empresário de si, consegue chegar à cidade e acumular, realiza o projeto migratório, investe na sociedade de origem ou na de destino, melhora a sua
posição em relação ao início da empreitada migratória –, a oficina de costura já não
funcionaria como dispositivo de circulação e fixação de trabalhadores na RMSP.
Os migrantes se assujeitam às longas jornadas de trabalho, às condições precárias e à superexploração do trabalho justamente porque avaliam a possibilidade da ascensão social. Avaliação esta calcada em experiências reais. Os parentes, amigos e conhecidos são a prova viva de que é possível galgar uma posição melhor (como tornar-se dono de oficina), mas para traçar este caminho é necessária uma conduta dedicada ao trabalho, adequada aos ritmos e às jornadas, submissa às condições impostas. Nesse sentido, a
oficina de costura funciona como dispositivo de exploração82 da força de trabalho, pois é
82àOàte oàe plo aç oàdoàt a alhoà oàde eàse à o p ee didoà o oà oç oà o al,àt ata-seàdeàte oà u hadoàpo àKa làMa àpa aà
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um mecanismo complexo, que ao mesmo tempo em que possibilita a circulação e a fixação de migrantes, oferece um mecanismo ágil e adaptado à produção do setor. Isso só ocorre pois há a criação de sujeitos, trabalhadores assujeitados à superexploração do trabalho.
Por fim, ao longo deste capítulo, buscamos evidenciar as características do setor da indústria de vestuário. Fizemos algumas marcações gerais e rápidas sobre a dinâmica global e regional desse campo. Para, em seguida, adentrarmos às especificidades do desenvolvimento recente e os impactos da reestruturação produtiva na economia urbana relacionada à indústria de confecções. Assim, foi possível revelar de que forma a oficina de costura apareceu como uma solução para os processos de flexibilização da produção, sem que houvesse o fim da atividade industrial da costura em São Paulo. Ao mesmo tempo em que se garantiam mecanismos competitivos para a produção, engendrou-se um dispositivo de circulação e fixação de migrantes transnacionais, um modo de agenciar e territorializar migrantes em São Paulo, constituindo o assujeitamento de trabalhadores a condições de trabalho abaixo das normas e padrões estabelecidos.
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