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Temel Politika ve Öncelikler

Conforme os quadros anteriores, a respeito da segregação racial e dos territórios negros, a origem e a expansão estão relacionadas ao crescimento horizontal da cidade em direção às periferias e ao capitalismo nacional. Acrescenta-se a estes fatores, o processo de segregação racial e a discriminação que se distribuem desigualmente no espaço conforme a renda e a escolaridade dos indivíduos.

Na década de 1980, conforme dados do IBGE, a média de população negra na cidade era de 22,3%. Rolnik (1989) descreve que a territorialidade negra se constituiu em direção às periferias, em razão da desterritorialização de antigos núcleos negros das três primeiras décadas do século XX. As territorialidades negras correspondem aos núcleos da Brasilândia (42,4%), Capela do Socorro (36%), Santo Amaro (33%), Jabaquara (29%), Pirituba (27%), Vila Matilde (27%), Vila Nova Cachoeirinha (27%), Limão (26%) e Nossa Senhora do Ó (26%).

No censo posterior, em 1991, novas configurações territoriais se expandiram mais adiante às periferias. As Zonas Leste e Sul assinalam evidências da territorialzação – desterritorialização e reterritorialização da população negra, mediante os elementos que compõe a segregação urbana e racial: o ambiente construído, o mercado de trabalho e o mercado habitacional. Novos contornos foram se desenhando também no campo simbólico e cultural em direção às periferias, como o movimento hip-hop, as entidades sociais negras, os terreiros de umbanda e candomblé, a capoeira e a cultura popular (Rolnik, 1998; Carril, 2006).

A classificação da territorialidade negra, em 1991, conforme Mapa N° 9 distribui-se em 20 distritos (vinte) da periferia paulistana. Na região Leste são 11 (onze) distritos: Lajeado (52%), Jardim Helena (50%), Cidade Tiradentes (49%), Itaim Paulista (48%), Vila Curuçá (46%), Guaianases (45%), Iguatemi (44%), Itaquera (39%), Parque do Carmo (39%) e Vila Jacui (37%) (Véras, 1998).

No outro extremo da cidade, na região Sul, também se repete a concentração negra. Nos distritos a distribuição corresponde ao Jardim Ângela (53%), Capão Redondo (44%), Grajaú (43%), Parelheiros (41%), Pedreira (40%), Cidade Ademar (41%) e Jardim São Luiz (40%).

distrito da Brasilândia (39%). Todos os distritos acima citados ultrapassam a média da cidade, conforme o censo de 1991, que era de 27%.

No último censo, em 2000, a periferização negra consolidou-se nos limites da capital paulistana. De 1980 para 2000, a média de população negra se elevou de 22,3% para 27% e por último, 30%.

No momento, não temos disponíveis as informações demográficas sobre a taxa de natalidade da população negra. Porém, os últimos dados da Fundação SEADE a respeito do incremento populacional confirmam que o crescimento tem sido superior a média da cidade nos distritos da periferia paulistana.

Imagina-se também que, nos últimos anos, através das ações dos movimentos sociais negros, principalmente em torno da juventude, a consciência racial tenha influenciado a produção da identidade negra. Nas últimas décadas, principalmente no ano de comemoração do Tricentenário de Zumbi dos Palmares, a conscientização e a identidade negra vêm ganhando, progressivamente, novos atores para compor as territorialidades paulistanas.

Na região Leste de São Paulo destacam-se os distritos de Guaianases (47%), Cidade Tiradentes (49,80%), Jardim Helena (45,16%), Itaim Paulista (45%), Vila Curuçá (42%), e Vila Jacuí (40,16%). Alguns distritos, como por exemplo, a Cidade Tiradentes, sobressaem em razão dos conjuntos habitacionais e da autoconstrução dos mutirões.

No sul da cidade de São Paulo ressaltam-se os distritos do Jardim Ângela (51,40%), Grajaú (46%), Capão Redondo (44,25%), Pedreira (43%), Cidade Ademar (42,12%), Jardim São Luiz (41,38%) Campo Limpo (40%) e Socorro (37,50%) – ver mapas de 1991 e 2000. Na região norte, distribuem-se na Brasilândia (40%), Perus (39,60%),Anhanguera (39,50%) e na região oeste, Raposo Tavares (39%).

Além desses distritos na territorialidade da cidade, também sobressaem outras configurações que estão acima da média cidade, entre 28% até 35% (dados relativos) de moradores negros, conforme a classificação dos distritos (em anexo).

Mapa N°°°° 9 9 9 9 - Distribuição da População Negra na cidade de São Paulo, 1991.

Fonte: IBGE, 1991.

Mapa N°°°° 10 - Distribuição da População Negra na cidade de São Paulo, 2000.

A eliminação do racismo e das desigualdades, a partir da abertura de postos de trabalho no mercado urbano-industrial paulistano, conforme previsões de Fernandes (1965), não se concretizaram. Após cinqüenta anos, o mercado de trabalho para a mão-de-obra negra depara-se com um estado de segregação ocupacional e desigualdades.

A segregação ocupacional (Telles, 2004) de base racial, de acordo com o histórico do mundo do trabalho brasileiro, relega a mão-de-obra negra ao segundo plano nos setores da indústria, comércio e prestação de serviços.

Desde o final da década de 1980, a cidade de São Paulo vem se transformando em inúmeros aspectos, principalmente o mundo do trabalho. Seus reflexos se sobressaem na classe trabalhadora (Antunes, 2006). O acesso aos postos de trabalho, como posição social, renda e escolaridade, têm conduzido à produção de clivagens raciais. As desigualdades no mercado de trabalho contemporâneo devem ser compreendidas por intermédio da classificação de gênero, classe, raça e nível de escolaridade.

Na capital paulistana, em pleno século XXI, as diferenças raciais no mercado de trabalho são intrinsecamente marcadas em razão da herança do trabalho escravo, do processo cumulativo das desigualdades raciais e do quadro contemporâneo de pobreza racial, a discriminação e o racismo (Henriques, 2001).

É predominante em São Paulo, a maior produção econômica do cenário nacional, onde se distribui e concentra os centros financeiros, tecnológicos e culturais. Esse posto está classificado em um dos principais territórios da cidade de São Paulo, localizado na área mais rica (Santos, 1998).

A territorialização dá-se em diversos níveis, como a questão do mundo do trabalho. Até os anos de 1970, as regiões localizadas nas imediações das linhas férreas, como Mooca, Brás, Barra Funda, Ipiranga e parte da região metropolitana, eram tidas como o coração e o território industrial da mão de obra paulistana e nacional. Hoje, após a desterritorialização provocada pela mudança da produção, novos territórios foram inscritos na capital paulistana determinando, em conseqüência, o quadro de trabalhadores e a divisão sócio-espacial da produção do espaço (Santos, 1996).

A história da cidade e a divisão social do trabalho do século XX podem ser interpretadas por meio dos trabalhadores que vendem sua força para compor os espaços e os territórios de pertencimento.

A seguir, passo a passo, delineamos faces do mundo do trabalho através da mão-de- obra negra com o auxílio da memória coletiva que nos conduz aos territórios do trabalho e das desigualdades ocupacionais.

Incialmente, os interlocutores negros com mais experiência de vida relatam o princípio, desenvolvimento, conquistas e insucessos, aposentadoria e o mercado informal, que atualmente persistem em São Paulo e nos principais territórios de desempregados (Guimarães, 2005).

Homens e mulheres negros declararam que a delimitação no mercado de trabalho, como atividades tradicionais de doméstica, cozinheira, costureira, pedreiro, serviços de limpeza e trabalho braçal foram exercidos pelos avós, pais e por muitos dos interlocutores.

“Nessa época eu trabalhava na Pompéia, ali tinha um restaurante perto da fábrica Matarazzo. Então eu trabalhei no restaurante e, ali, ia trabalhar numa casa e outra” (Maria, 75 anos, Brasilândia).

“O meu pai, na época, ele era pedreiro e a minha mãe trabalhava em casa de família, faxina, diária. Só que assim, trabalho de indicação de outras pessoas, que indicavam para estar trabalhando em casa de outras famílias, tinha semana que era a semana toda, e tinha semana que eram dois dias. Nesses dias de folga ela lavava roupa pra fora, também para as patroas, ela e minha irmã, a mais velha” (Teresinha, 50 anos, Cidade Tiradentes). “Minha mãe, minha grande heroína, que acaba construindo toda a minha identidade. Porque, quando o meu pai faleceu, eu tinha sete anos. Principalmente quando ele vem para São Paulo, ele acaba ficando dois anos longe da gente, em Volta Redonda, então ele cuidava lá, se virava. Eu não, mas meus irmãos mais velhos vendiam leite, nós tínhamos algumas cabritas, nós criávamos algumas cabras e tínhamos um cavalo com uma carroça, então vendíamos leite, carvão. E ela, após o falecimento do meu pai, então foi obrigada a ir trabalhar logo cedo, porque a pensão mal dava para segurar essa onda dos filhos e também acabou deixando a gente na mão das minhas irmãs mais velhas (...)” (Herculano, 50 anos, Jardim Ângela).

Entre as famílias negras de baixa renda, a herança social implica sucessivas ocupações em determinados lugares no mercado de trabalho. Durante décadas, o “lugar” de negro fixou- se no mercado de trabalho e em posições sociais de subalternidade. Os familiares e os próprios interlocutores exerceram no mundo do trabalho a partir da herança do “lugar” de negro na sociedade paulistana.

nos contou que a maior parte de seu conhecimento, sua formação e a ocupação exercida hoje é fruto de décadas de dedicação e trabalho da mãe nas atividades de doméstica e cozinheira.

Situações parecidas com o relato acima foram constantes na história de vida dos interlocutores masculinos e femininos. A mulher negra, chefe de família, diante de situações de enfrentamento social e possibilidade de mobilidade para os filhos, é, geralmente, a peça- chave para a família se desenvolver e transcender o “lugar” de negro na sociedade.

Entre os homens, prevaleceu o trabalho manual nos setores da indústria, comércio e construção civil. A maioria dos entrevistados conta-nos que a formação que receberam durante a juventude, como o ensino técnico do Senai e a própria escola pública, preparavam os filhos dos trabalhadores para o trabalho urbano industrial.

As empresas, principalmente o setor industrial, nos anos de 1960 e 1970, eram a principal fonte empregatícia que recrutava os filhos dos proletariados.

Nos dizeres de Fernandes (1989) sobre o contexto de São Paulo, além de ser preterido no processo de seleção e competição, o proletariado negro tem que carregar o peso maior da discriminação racial.

“Por trabalhar na iniciativa privada, eu sempre trabalhei no setor automobilístico. Só na Chevrolet eu trabalhei 26 anos. Quando menino, eu sempre sonhei em ter um carro, e fiz SENAI. Meu pai falou que, na época, anos 70, o SENAI era uma escola de ponta. Você não pode chegar aos 18 anos sem ter uma profissão. Nos anos 1970, pra quem vinha da periferia era mais importante fazer 18 anos e ir trabalhar, ter uma profissão do que fazer a faculdade. Então você tinha que chegar aos 18 anos e ter uma profissão. Então o meu pai me colocou no SENAI. Eu, quando fiz 18 anos, 19 anos eu tirei carta. Um dia eu cheguei no meu pai, falei pro meu pai que precisava de uma dinheiro para comprar carro. Meu pai falou: ‘Pelo amor de Deus, comprar carro, nunca na vida. Se um dia na vida você quiser comprar carro, vai comprar com seu dinheiro. Com o meu dinheiro, você não vai comprar nunca. Se eu tivesse uma cabeça fraca… Algumas pessoas daqui, que era de família e tinha um poder aquisitivo… Os filhos tinham carro e não trabalhavam, tinha carro e eu não. Eu era filho de um trabalhador e tinha que trabalhar, eu queria ter um carro. Eu vou lutar e vou conseguir. Tinha um amigo meu que ele, em 1970, a Brasília (carro) saiu em 1975, e em 1976 esse amigo meu comprou uma Brasília e eu fiquei fascinado. Eu tenho que comprar um carro. A Brasília era um carro da época e ela era toda brasileira, ela não é nada vinda de lá de fora, a tecnologia é toda brasileira. Ela acabou por causa disso, a tecnologia é toda brasileira. Eu já trabalhava, vindo do SENAI, fui colocado na concessionária e comecei a juntar dinheiro. Então eu comecei a trabalhar, em 1974, e quando foi

em 1978, eu fui na Sabrico e comprei uma Brasília zero, fiz até uma surpresa para o meu pai. ‘Vou comprar um carro zero’, falei para os amigos, ‘Vou comprar um carro zero’. E quando eu cheguei aqui no bairro com uma Brasília, muitas pessoas pensaram e falaram: ‘Como é que o cara comprou uma Brasília zero ?’, primeiro por se tratar de um negro, e dava para contar no bairro os negros que tinham carro e eu, por ter comprado carro. Comprei um carro, na época, um carro top, porque o modelo da Brasília, ela mudou de 1977 para 1978, ela veio com pára-choque modificado e eu fui lá e vim com o carro zero, sem placa, encostei na porta da escola, foi um sucesso, todo mundo correndo atrás e a mulherada toda. E eu não dormia, fiquei uns quatro dias sem dormir porque, na época, não tinha esse lance de seguro. Se roubassem o meu carro, pelo amor de Deus” (Luiz, 50 anos, Brasilândia).

Nos anos dourados da industrialização brasileira em São Paulo, vigorou a ideologia dos setores dominantes, a formação do proletariado para o mercado industrial, o mundo científico e tecnológico para os filhos das classes média e alta.

A distância é extrema, a respeito dos ideais dos grupos sociais na sociedade paulistana. O proletariado e os setores de melhor posição sócio-econômica distanciam-se em ideais de vida, projetos, espaços sociais e decisões presentes e futuras.

A cultura que é produzida e transmitida é propagar o ideal de consumo. Mesmo que custem anos e anos de trabalho para um assalariado, a fetichização do consumo toma conta dos desejos e das realizações. A produção em massa da mercadoria no mundo urbano- industrial desnaturaliza as relações e artificializa a produção e os ideais como um todo.

Sempre foi de praxe o Estado brasileiro oferecer sistema de ensino e formação diferenciada. A faculdade pública e de qualidade voltada para os brancos das classes média e alta. O Senai, os cursos profissionalizantes e a escola pública, para os proletariados brancos e negros.

No passado, os espaços e territorialidades da pobreza racial pouco ou nada recebiam dos ideais do mundo científico e moderno. O ensino superior recentemente incorporou-se às idealizações e realizações dos jovens que habitam a periferia paulistana.

No passado, até os anos de 1960 e 1970, o ensino superior era quase propriedade dos grupos brancos e de prestígio sócio-econômico do mundo urbano-industrial. Nesse percurso geográfico, ideológico e político dos negros na cidade do trabalho, imagina-se que poucos conseguiram ultrapassar os muros que dividem brancos e negros no mercado de trabalho e no processo de aprendizagem, como o ensino superior.

a condição de classe e raça. Ser pobre, negro e morador da periferia são categorias sociais de pouco prestígio frente aos valores transmitidos em uma sociedade de consumo que tem como marca os indicadores do racismo e da discriminação.

Homens e mulheres negros, desde os primeiros empregos, concentraram-se na divisão social do trabalho mecânico de menor remuneração e de mínimas possibilidades de ascensão profissional.

“Depois, comecei a fazer serviço avulso, ali na Vila Mariana, prédio de doze andares. Por ali, paralela com a Rua Rodrigues Alves, próximo do Hospital. Foi agora, foi nos anos 1970, me dei bem com todo mundo lá, terminei a obra, fui o último a sair de lá, prédio de doze andares. O primeiro dia que cheguei lá, já meteram susto em mim: ‘O engenheiro aqui é fogo, hem?’ Eu lembro do susto, porque o cara que falou isso pra mim, eles era negro. No outro dia eu fui trabalhar, chegava cedo e ele olhava pra mim: ‘Qual é a sua função aqui?’ ‘Minha função é de pedreiro’. Era tudo italianão, fui conquistando o homem, sem puxar saco. Tinha um lá que estava na mesma posição que eu, mas ele não era pedreiro, coisas simples. Esse senhor José precisou viajar e esse engenheiro chegou pra mim e falou: ‘Milton, o seu José vai sair e você toma conta da obra aí’. Falei: ‘Ta bom’. Quando era mais ou menos 07h10, o homem aparecia lá. Se ele visse entrar um cara às 07h15, ele falava: ‘Olha, você entra depois do meio-dia, não vai trabalhar agora não’, descontava” (Milton 78 anos, Cidade Tiradentes).

“Com 14 anos eu fui trabalhar na Crock, na Vila Prudente, eu trabalhei até os 18 anos. Aí saí da Crock, queria trabalhar em escritório, fui trabalhar de office-boy, fiquei um ano, aí não deu certo, aí eu saí de lá e fui trabalhar em uma concessionária que mexia com carros, em São Caetano do Sul. Depois eu fui trabalhar na Liberdade, na Liberdade eu trabalhei até casar. Lá eu fiquei 4 anos até casar. Lá eu fazia polimento e lavagem de carros” (Adilson, 46 anos, Cidade Tiradentes).

Oliveira, Porcaro e Araújo (1981) confirmam o quadro social a respeito do lugar do negro no mercado de trabalho: começam cedo, tem rendimento inferior aos brancos, mais tendência ao proletariado e concentração negra nos espaços de pobreza.

Esse lugar, durante o percurso espacial e temporal do negro no século XX, abrange categorias de separação, confinamento, desigualdade, estigma e exploração, que se compõe nos espaços da habitação e do mercado de trabalho. Ao invés de “lugar”, podemos substituir por outra expressão, que reúne todos os significados: a segregação ocupacional.

Benzer Belgeler