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O artigo 5º, inciso LIV, da Constituição Federal de 1988 traz a garantia do devido processo legal, ao dispor que “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.” Significa o processo necessário, adequado e que assegure a igualdade das partes.642 Ele decorre do princípio da legalidade e é informado pelo princípio da igualdade.643

Com relação às formas de diversificação processual trazidas pela Lei 9.099/95, pode-se afirmar que não ocorre ofensa ao princípio do devido processo legal a proposta de transação penal ou suspensão condicional do processo ao autuado, pois caso não a aceite, ele

641 JESUS, Damásio Evangelista de. Penas alternativas: anotações à Lei n. 9.714, de 25 de novembro de 1998.

São Paulo: Saraiva, 1999. p. 256.

642 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 63.

643 MOURA, Elizabeth Maria de. O devido processo legal na constituição brasileira de 1988 e o estado

poderá exercer, oportunamente, o direito de defesa, em contraditório, almejando à absolvição ou situação mais favorável que a transação penal ou a suspensão do processo ou, ainda, evitar o processo penal e o risco de uma condenação, aceitando a proposta de imediata aplicação de pena restritiva de direitos ou multa, em prol do próprio exercício de defesa.644 Para Jardim645, isto constitui o devido processo legal, pois, o Ministério Público vai ao Poder Judiciário e declara uma pretensão, sugerindo a aplicação de uma determinada pena: restritiva de direitos; pena não privativa de liberdade; e pena de multa.

5.1.9.1 Princípios do contraditório e da ampla defesa

O artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal de 1988 dispõe que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.”

O contraditório constitui a técnica processual e procedimental que institui a bilateralidade do processo, garantindo-se a participação das partes em todos os seus atos. Ele representa o instrumento técnico da ampla defesa.646 Isto quer dizer que a toda alegação sobre fatos ou apresentação de prova realizada no processo por uma das partes, tem a outra parte o direito de se manifestar, de modo a existir um equilíbrio entre a pretensão punitiva estatal e o direito à liberdade do acusado.647

Como corolário do princípio da igualdade perante a lei, a isonomia processual impõe a obrigação da parte contrária também ser ouvida, em igualdade de condições. “O contraditório é inerente a toda resolução processual de litígios. Sem o contraditório, não pode haver devido processo legal.”648 Desse modo,

A ciência bilateral dos atos e termos do processo e a possibilidade de contrariá-los são os limites impostos pelo contraditório a fim de que se conceda às partes ocasião e possibilidade de intervirem no processo, apresentando provas, oferecendo alegações, recorrendo das decisões etc.649

644 GRINOVER, Ada Pellegrini et al. Juizados especiais. 5. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2005. p. 107. 645 JARDIM, Afrânio Silva. Direito processual penal: estudos e pareceres. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2000.

p. 339.

646 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 63.

647 NUCCI, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 8. ed. São Paulo: Ed. Revista dos

Tribunais, 2008. p. 41.

648 MARQUES, José Frederico. Elementos de direito processual penal. Rio de Janeiro: Forense, 1961. v. 1. p. 82.

(grifo do autor).

Do mesmo modo que não existe contraditório650 no inquérito policial, também não ocorre no termo circunstanciado do Juizado Especial, eis que se trata apenas da reunião de elementos que possibilitem a instauração do procedimento. Para tanto, a Constituição Federal assegura o contraditório apenas na instrução criminal, e o Código de Processo Penal distingue a instrução criminal (arts. 394 a 405) do inquérito policial (arts. 4º a 23).

A seu turno, a ampla defesa concede ao réu a oportunidade de utilizar “[...] amplos e extensos métodos para se defender da imputação feita pela acusação.”651

Nas formas de diversificação processual (transação penal e suspensão condicional do processo) ocorre a livre manifestação de vontade do autor do fato, aceitando a proposta ofertada pelo Ministério Público (pena restritiva de direitos ou multa), evitando a instauração de um processo formal e a privação de sua liberdade. E, nas palavras de Fernandes652, “[...] essa autonomia de vontade do autuado é invocada como suficiente para eliminar uma possível violação dos princípios da presunção de não culpabilidade, do contraditório, da busca da verdade material e da ampla defesa que poderia decorrer da prática da transacção.” Desse modo, não há se falar em ofensa a estes princípios, eis que para a aplicação dos institutos despenalizadores trazidos pela Lei 9.099/95, é necessária a prévia concordância do autuado e de seu defensor.

Quanto ao descumprimento do acordo celebrado em transação penal e a sua conversão em pena privativa de liberdade, verifica-se a contrariedade desta medida com relação aos princípios em tela, visto que o autuado não terá a oportunidade de se defender diante desta conversão (contraditório e ampla defesa), eis que ocorrerá uma ordem de prisão sem que tenha havido um processo. Portanto, esta medida se mostra inteiramente contrária à garantia constitucional representada por estes princípios.

650 Segundo Marques, “Tais princípios, todavia, em se tratando do processo penal, têm sido considerados

imperativos para o judicium causae (ou juízo propriamente dito) e não, para o período instrutório da formação da culpa ou judicium accusationis. Sendo assim, ferido não ficaria o princípio da defesa ampla, desde que o contraditório, embora não adotado na chamada jurisdição instrutória, estivesse consagrado, plenamente, na instrução definitiva do juízo da causa.” Cf. MARQUES, José Frederico. Elementos de

direito processual penal. Rio de Janeiro: Forense, 1961. v. 1. p. 83.

651 NUCCI, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 8. ed. São Paulo: Ed. Revista dos

Tribunais, 2008. p. 40.

652 FERNANDES, Fernando. O processo penal como instrumento de política criminal. Coimbra: Almedina,

CAPÍTULO 6 CONSIDERAÇÕES PESSOAIS SOBRE A CONVERSÃO DA MEDIDA

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