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Temel Mali Tablolara İlişkin Açıklamalar…

A- Mali Bilgiler

2- Temel Mali Tablolara İlişkin Açıklamalar…

Nos depoimentos dos sujeitos que participaram da presente pesquisa, o termo “mundo” aparece de forma recorrente. Os jovens definem os valores da igreja e a identidade dos cristãos em oposição ao quadro de referência vigente no “mundo”. Os discursos insinuam que o “mundo” representa a liberalidade moral, a permissividade sexual e a realização do pecado. Em outras palavras, tudo que em tese se encontra fora da igreja. Nesse sentido, é considerado o anti-modelo, aquilo que deve ser repudiado e renunciado.

Mateus: Porque nós não somos mais do mundo.

Rebeca: (...) o mundo hoje em dia perdeu toda a noção, os valores de família, de namoro, de

noivado. Hoje, para o pessoal do mundo, isso daí não é nada. O pessoal está se juntando, não busca a direção de nada.

O “mundo”, pois, corresponde à anti-referência, que de algum modo serve de referência. Os jovens procuram apropriar-se das representações religiosas da sexualidade, mas convivem constantemente com valores e práticas provenientes do “mundo”, que interferem em suas ações e impregnam o cenário afetivo e sexual da igreja72. Os modelos de relacionamento amoroso que prevalecem no “mundo” são fortemente combatidos com o intuito de afastá-los do universo representacional dos fiéis. Os sujeitos os criticam como se

72 Moscovici (2004) deteve-se na diversidade e variação do quadro representacional que caracteriza as

sociedades modernas. Em suas análises, observou que novas crenças são elaboradas em momentos de ruptura e, desse modo, são inseridas numa rede de informações solidamente estabelecida. O surgimento de novas representações não implica necessariamente no desaparecimento de velhas idéias. A convivência tensa entre novos e antigos valores é possível, embora seja evitada.

quisessem acabar com sua influência e valorizam o padrão de relação cristã para reforçar sua interferência nas decisões e condutas cotidianas.

Raquel: “Você quer ter alguém nos próximos três anos, um relacionamento mundano que

provavelmente vai acabar em divórcio, porque é muito difícil um relacionamento do mundo não acabar em separação hoje em dia, praticamente impossível ou você prefere ficar, sei lá, três anos sozinha e esperar uma pessoa que Deus tem para você e passar o resto da vida com essa pessoa, porque se Deus guardou para você, é para o resto da vida?”.

A negação do “mundo” não corresponde à sua ausência no meio dos cristãos. Os padrões do “mundo”, embora negados e rejeitados, estão de certa forma presentes no sistema representacional dos fiéis.

Ester: E você sabe que os jovens, no mundo, eles ficam.

Lucas: Eu já fiquei com uma menina. Já, já. Fiquei, não. Fiquei, não. Tive um... não um namoro

assim.

Marcos: Eu acabei ficando com uma pessoa e foi horrível, porque foi uma coisa totalmente da

carne. Você beija... Aí, depois eu olhei assim e falei: “Meu, o que é que a gente está fazendo?”. Foi aquele negócio. Eu chorei tanto. Isso aconteceu já umas três vezes, entendeu?

Parece difícil para os jovens assimilar os novos valores e representações da sexualidade, ancorados e objetivados pela igreja73. A internalização do novo quadro referencial é um processo gradativo que implica a apreensão de novas crenças e sua incorporação num sistema de valores familiar, em que predominam conceitos provenientes do “mundo”. Além de apropriar-se de novas representações, os fiéis devem de algum modo se desligar do quadro representacional vigente na sociedade, por meio do qual eles orientavam sua conduta antes da adesão à igreja. As produções simbólicas da sexualidade,

73 Conforme Moscovici (2004), os mecanismos da ancoragem e da objetivação são imprescindíveis à

formação e consolidação das representações sociais e institucionais. A ancoragem é um procedimento cognitivo que viabiliza a assimilação de novas crenças e sua incorporação num quadro de referência estabelecido. A objetivação é uma operação por meio da qual os conceitos se materializam e se objetivam, tornando-se independentes da realidade social que os produziu.

em vigor na instituição eclesiástica, são assimiladas através da negação dos valores e comportamentos do “mundo”. Entretanto, a acomodação do novo código referencial num sistema de representações antigo não é harmoniosa. Conflitos entre o conjunto de referências do “mundo” e a rede de significados da igreja são constantes. O “mundo” emerge em meio aos parâmetros cristãos e é constantemente rechaçado.

Mateus: Há algumas coisas que a gente ainda tem um pouco do mundo mesmo. Porque eu vivi no

mundo 30 anos. Eu tenho um ano de seguir a Deus. Então, a gente ainda tem um pouco de falha.

Mateus: Na minha sala, eu trabalho com seis pessoas e as seis pessoas são... Eu e ela [amiga da

igreja] somos evangélicos e os quatro são fora da igreja. Então, eles falam muito sobre sexo, falam alguns palavrões, falam muito sobre balada, bebida, mulher, cigarro, álcool, enfim... E se você não tiver bem centrado no que você quer, na sua posição, você acaba escutando algumas coisas e aí você acaba trabalhando em cima daquelas coisas, entendeu? Você acaba tendo... não que você seja igual, porque igual nós não somos. Mas você acaba pensando às vezes semelhante até. Você está ali no meio, as pessoas estão falando, falando... Às vezes, você escuta, né? De repente, você pensa: “Pô, eu já vi isso também”. Porque eu já vi, na verdade eu já vi. Mas é bom sempre se colocar no passado, na pessoa do passado. Eu já vi no PASSADO, mas não vejo mais e não vou ver mais esse tipo de coisa.

O processo de transformação por que passam os jovens é contínuo e difícil de ser enfrentado. Trata-se da internalização permanente das representações da sexualidade transmitidas pela igreja e do abandono dos modelos simbólicos do “mundo”. 74

Lucas: É difícil mudar todo dia. É difícil, porque é uma mudança constante. Cada dia você está

conhecendo mais coisas que você fez de errado e que você está mudando e cada dia você está conhecendo mais coisas que você vai fazer errado e que você vai tentar mudar. Tem coisas que é muito difícil mudar, como por exemplo esse negócio da sexualidade, drogas... É difícil mudar. (...) É difícil, está sendo difícil e vai ser difícil sempre, sabe? É muito fácil não ser crente. É muito fácil.

74 De acordo com Moscovici (2004), esse processo de interiorização representacional corresponde à

familiarização de crenças desconhecidas através de sua integração em um sistema de valores preexistente e em uma rede de informações conhecida.

Depois que você vai para a igreja... A pessoa que vai para a igreja achando que vai encontrar tranqüilidade, se engana. Porque é muito mais difícil ficar na igreja do que sair. Por isso que não é todo mundo que fica. (...) Isso é difícil: você se manter de pé num lugar que está todo mundo caído, entendeu? É difícil assim você falar um não. [Então, tem coisa que precisa ser mudada ainda na

sua vida...] Tem, tem muita coisa. Muita coisa já foi mudada e muita coisa tem que ser mudada

ainda. Muita coisa mudou, questão de valores assim.

Ester: (...) não é só a vida material e o seu exterior que muda, muda o seu interior que é o mais

importante, né? Muda seus valores, muda aquilo que para muitas pessoas no mundo tem sido normal e para a gente não é normal. [O que não é normal?] O que não é normal? Por exemplo, você casar e daqui há um mês você se separar, não é?

Ester: Porque eu vim do mundo daquele jeito. Você vem e depois você vai para a igreja e você

começa a entender as coisas e você fala: “Não. Não é mesmo bem por aí”. Você começa a mudar os seus valores, mas aquilo ainda permanece, se você não está muito firme. Então, acaba sendo uma luta.

Apesar da exigência da transformação, as referências simbólicas do mundo secular persistem entre os jovens cristãos. Os sistemas de pensamento que dizem respeito à sexualidade, assimilados e elaborados antes do ingresso na igreja, não desaparecem com o esforço dos jovens de extingui-los conforme as orientações eclesiásticas.

Marcos: Eu vejo assim... Por exemplo, todos nós, a gente no passado era tudo louco, tudo

transtornado, tudo cheio de pecado, de imoralidade sexual e tudo. Então, o pensamento não some, quando você entra em uma igreja. Às vezes, vêm os pensamentos...

A convivência cotidiana com o “mundo” é marcada por atritos. Os jovens afirmam categoricamente que se opõem aos valores e comportamentos sexuais que caracterizam a sociedade moderna e, por isso, vivem em permanente conflito com o “mundo”, procurando esquivar-se de suas influências.

Lucas: [Para você que está no meio musical, como é lidar com “as coisas do mundo”? É uma

assim e a gente vai contra. Isso é até difícil, porque muitas vezes a gente tem que ir de encontro ao mundo, sabe? É difícil...

Marcos: A minha maior luta é contra essa sedução do mundo. Eu sinto.

Ester: (...) você enfrenta o mundo no seu dia-a-dia e as coisas são muito diferentes. Então, eu acho

que isso é a maior guerra...

Os sujeitos entrevistados procuram ressaltar a oposição entre as representações da sexualidade presentes no “mundo” e os sistemas simbólicos da igreja relacionados à experiência sexual. A comparação entre esses dois universos representacionais que se cruzam é utilizada com freqüência para explicitar as distinções entre a sexualidade do “mundo” e a sexualidade cristã.

Raquel: Então, é muito raro você ver divórcio em igreja evangélica. É bem difícil assim, ao passo

que no mundo as pessoas se divorciam de seis em seis meses, né?

Ester: O casamento é uma instituição que para o mundo está falida e para nós, não. Rebeca: [O casamento] Eu acho que é uma instituição assim: que no mundo, não dão valor.

As oposições servem para demarcar territórios, construir fronteiras e evitar interferências. O convívio próximo com os parâmetros do “mundo” parece representar um iminente perigo do qual o fiel deve precaver-se. É preciso definir limites claros, mesmo que sejam simbólicos, para separar essas duas realidades e reduzir a ameaça dos sistemas representacionais do mundo moderno, presentes internamente em cada cristão.

Lucas: É difícil você está assim no meio de porco e não se sujar de lama.

Raquel: E a gente convivendo no meio do mundo, a gente indiretamente também é influenciado por

isso. E se você não está muito em oração, algumas pessoas são atingidas, algumas pessoas se desviam. Se você não está super firme, você acaba caindo também. A parada começa a te

corromper. Você começa a achar que tudo bem, que não tem problema ficar lá. Eu mesma fui ver desfile várias vezes das escolas de samba porque eu achava lindo. Hoje em dia, eu já não vou.

Raquel: (...) é muito difícil você ficar firme se você está com alguém que está meio capenga,

entendeu? Porque daí a pessoa não está firme e você acaba indo junto com a pessoa.

Marcos: O mundo fica comprimindo você, entendeu? É como se você tivesse dentro de uma bolha

de água e o mundo ficasse em cima, tentando te pegar. E qualquer vacilo que você dá, você cai.

A Igreja Bola de Neve, contudo, não sugere que os fiéis se isolem e se afastem fisicamente do “mundo”. Trata-se de um isolamento simbólico, da preservação do sistema de pensamento da igreja e da proteção do cristão em relação ao quadro de referências do “mundo”. Os jovens devem renunciar os códigos de conduta sexual da sociedade atual, sem, no entanto, viver num mundo à parte. Devem permanecer no mundo e conviver com ele, sem, porém, adotar suas produções simbólicas. Essa prescrição, subjacente ao regulamento da igreja, parece representar uma contradição, um dilema difícil de ser resolvido.

Benzer Belgeler