Profundo conhecedor da obra de Paul Evdokimov, o padre ortodoxo e Professor da City University, de Nova York, Michael Plekon considera que a teologia
do filósofo e teólogo russo é fundamentalmente eucarística, tendo, “como principais estruturas, a liturgia e a oração, iluminada pelas Escrituras e pelos Padres da Igreja...uma teologia da beleza do Reino, imersa na cor e na luz dos ícones”.142 É,
também, uma teologia eclesial, por considerar que a vida do cristão se dá em comunhão com os outros homens, os santos e Deus.
Segundo Plekon, o cerne desta visão teológica é o theos philanthropos, o Deus que, por amar tão apaixonadamente a sua Criação, esvazia-se a si próprio, “fazendo-se homem para que o homem se faça Deus”, como diziam os Padres do Deserto. A divina filantropia representa, pois, o encontro de todos os homens, com Deus, através da Encarnação.
Não basta, porém, compreender intelectualmente esta “verdade teológica” para comungar da presença de Deus. Como explicita Plekon:
Para Evdokimov, a vida espiritual não é jamais e tão somente um método, menos ainda um “corpo de informações” no estilo gnóstico, uma provisão oculta de conhecimento especializado, bem como de técnicas disponíveis apenas a uma elite, como sugerem alguns estudos contemporâneos. Para ele, a vida espiritual é a aplicação direta do Evangelho à vida humana, a experiência colegial de Deus, o encontro e a experiência de Cristo na liturgia, e a apropriação disso tudo em todos os relacionamentos e afazeres cotidianos. Ou, como a regra das comunidades monásticas de New Skete143, seguindo
Evdokimov, preceitua, a existência espiritual dos monges e de todos os crentes se resume a viver com simplicidade e autenticidade, sem afetação ou multiplicação desnecessária de cuidados, realisticamente, e observando, em tudo, a prática do amor cristão e da compaixão. 144
De fato, a vida espiritual, para Evdokimov, é, a um só tempo, deiforme e cruciforme: tendo Deus como pináculo, move-se verticalmente em direção a Ele; não perdendo de vista, todavia, o rosto humano, estende-se, horizontalmente, pela força do amor e da caridade, em direção ao homem. Trata-se da união entre a contemplação e a ação, o amálgama entre a inteira abertura ao influxo da graça, e o amor em ação, em prol dos demais. Como pontua Michael Plekon:
A vida cristã, para Evdokimov, tem não somente uma dimensão vertical, isto é, um eixo de comunicação com Deus, a Mãe de Deus,
142 Michael PLEKON. Interiorized monasticism: a reconsideration of Paul Evdokimov on the spiritual life. The American Benedictine Review, vol. 48, 1997, p. 231.
143 Comunidade monástica cristã ortodoxa, situada nas Taconic Mountains, em Cambridge, Estado de Nova York, EUA.
144 Michael PLEKON. Interiorized monasticism: a reconsideration of Paul Evdokimov on the spiritual life. The American Benedictine Review, vol. 48, 1997, p. 233.
os anjos e os santos do Reino através da liturgia, da prece, da Bíblia e dos ícones. O padrão cruciforme, ou Cruz, se estende horizontalmente, tal qual os braços de Cristo na cruz, e estes são o coração aberto do Pai e as asas vivificantes do Espírito Santo. Não há vida cristã sem o cuidado amoroso do próximo e o serviço a ele. A “liturgia depois da liturgia”, nas conhecidas palavras de São João Crisóstomo, é celebrada no altar que é o rosto e o coração de todo irmão e toda irmã ao nosso redor. Paul Evdokimov não escreveu sobre isso, ou ensinou isso, ele o viveu.145
Um poderoso olhar realista sobre o mundo é outra característica da teologia de Paul Evdokimov. Para ele, como observa Plekon, o Cristianismo, no cenário atual, encontra-se em posição muito semelhante à dos primeiros séculos, porquanto tenha se tornado, com o avanço do ateísmo e do niilismo, “cognitivamente minoritário”, na sociedade contemporânea. Este cenário tornou ainda mais evidente o único poder real da religião cristã, qual seja o de testemunhar a existência do Reino de Deus em meio ao sofrimento e a agonia do mundo, dando a conhecer, a todos, que a vocação fundamental do ser humano é viver liturgicamente, tornar-se oração encarnada, o que é muito diferente de tão só compreender, racionalmente, o “corpo doutrinário” do cristianismo.
Este apelo ao exemplo, ao que se poderia denominar de “teologia encarnada” não significa, em Evdokimov, o desprezo pela filosofia, a psicologia, a literatura, ou outras criações do gênio humano. Bem ao contrário. Na condição de teólogo e filósofo, Paul Evdokimov realiza, no curso de sua obra, um trabalho heurístico de reconhecimento de elementos teológicos nos produtos de tais áreas do saber, cotejando, tais elementos, com a “verdade em pessoa” daqueles que experimentaram Deus:
Versado em filosofia e teologia, desde o princípio ele se deu a procurar pelo “insight” teológico além das fronteiras destas disciplinas, na literatura, na teoria social, na psicologia e na arte. Não é, portanto, surpreendente que seus ensaios e livros façam referência a Freud e Jung, Marx e Heidegger, Gogol e Dostoievski, Sartre e Beauvoir, Camus e Simone Weil, juntamente com um grande painel de Pais e Mães do Deserto, escritores patrísticos e santos. (...). Informado pelas doutrinas dos Conselhos Ecumênicos, Evdokimov desvela a beleza dos ícones, a transcendência da divina liturgia, os maravilhosos ditos dos Padres do Deserto e a experiência
145 Michael PLEKON; Alexis VINAGRADOV. In the world, of the Church: a Paul Evdokimov Reader, p. 6.
viva do cristão, um “existencialismo litúrgico”, sem a angústia dos filósofos que se movem apenas por seu rótulo.146
Este testemunho, quem o dá são os santos, não a teologia acadêmica e os teólogos profissionais. De fato, como assevera Evdokimov, o santo, ou o homem novo, não é um super-homem, mas, sim, aquele que tem uma experiência pessoal com a Verdade e vive como um ser litúrgico, como verdadeira prece encarnada, alguém que, a cada momento de sua existência, oferece a Deus não o que tem, mas a integralidade do que é.147
Tal espiritualidade encarnada e eucarística é, na visão de Plekon, uma presença marcante em toda obra de Paul Evdokimov, já que, para este último, Deus não está jamais separado da existência humana, tomando parte de Sua criação através da Eucaristia. O aspecto dramático da existência humana é, todavia, a possibilidade de o homem assumir a postura diametralmente oposta ao fiat de Maria, negando-se a entregar-se irrestritamente a Deus.
A vida espiritual é, assim, para Evdokimov, uma vida de santidade, entendida, esta, não no sentido de perfeição moral, mas, sim, de cumplicidade com Deus, de tornar-se aquilo que, em essência, se é. Trata-se:
[...] da verdadeira vida do ser humano, um retorno ao padrão estabelecido por Deus na Criação, um tornar-se novamente aquilo que se é, tal qual os Padres ensinavam. A vida espiritual não é um projeto esotérico, individualista, mas, sim, em comunhão com a Igreja. Ela é evangélica, uma aplicação do Evangelho. O que é extraordinário em Evdokimov, e também para muitos de seus colegas teólogos emigrados, é a visão imediata e abrangente da vida espiritual. (...). Esta vida em Deus (...) é encontrada no casamento e na paternidade, no trabalho e na recreação, no comer, no beber, na linguagem, na música, nas cores e nas formas do mundo. Tudo é sacramental (...) e a liturgia revela o uso correto de cada elemento da criação. O Reino de Deus é passível de ser encontrado no momento presente, no paraíso do presente, e em nenhum outro lugar...148
146 Ibid., p. 4.
147 Cf. Paul EVDOKIMOV, O silêncio amoroso de Deus, p. 71.
148 Michael PLEKON. Interiorized monasticism: a reconsideration of Paul Evdokimov on the spiritual life. The American Benedictine Review, vol. 48, 1997, p. 237-238.