Com relação ao desenvolvimento de produto e conseqüente recebimento de royalties, apesar dos inúmeros contratos de cooperação firmados com grandes empresas, curiosamente o primeiro fruto desse empreendimento resultou de uma empresa nacional.
A partir de uma substância retirada de uma árvore chamada Quassia amara, popularmente “homem grande” (hombre grande), foi desenvolvido um medicamento para tratar problemas digestivos. A quantia de US$ 500,00 foi repassada ao SINAC e ao INBio, sendo que cada entidade ficará com 50%,conforme estipulado em contrato. De acordo com a entrevista da coordenadora da Unidade de Bioprospecção do INBio, Ana Lorena Guevara, por ser um produto lançado
71 […] generar ingresos provenientes de las áreas de conservación de Costa Rica, de modo que se pueda contribuir con los costos de administración de la zona silvestre, al capital intelectual de Costa Rica y al PIB financiero.
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La bioprospección resulta un componente de una estrategia más amplia de conservación y uso sostenible de la biodiversidad, antes que la solución a las necesidades inmediatas de conservación.
recentemente, o valor é pouco, no entanto é muito significativo, pois “é a primeira vez que recebemos lucros provenientes do uso sustentável e inteligente da biodiversidade” (GUEVARA apud VARGAS, 2005).
A produção do remédio é de responsabilidade dos Laboratórios Lisan, com a sua divisão de produtos naturais, a Lisanatura. Este logro foi resultado de um programa de incentivo à pequenas e médias empresas da Costa Rica, por meio de um convênio entre o INBio, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), conforme explicado no capítulo anterior. A Lisan tem planos para o lançamento de mais cinco produtos em breve (VARGAS, 2005).
Recentemente, outro produto teve a comercialização iniciada: Estilo ®, fitoterápico derivado da Freshcut ou tilo, cujo nome científico é Justicia pectoralis. Indicado para desordens do sistema nervoso, como o stress, ansiedade e insônia, é utilizado como sedativo e tranqüilizante natural.
Outra promessa vem das águas a partir do isolamento do DNA de uma bromélia inserido na bactéria Escherichia coli. O resultado foi a produção de um composto com atividades antibióticas. Fora isso, desde 2005, a Costa Rica vem recebendo pagamento pelo desenvolvimento de dois produtos pela Diversa, uma companhia de biotecnologia situada em San Diego, nos Estados Unidos. Um delas é uma proteína fluorescente, chamada DiscoveryPoint, descoberta no mar caribenho e utilizada para a identificação de materiais em experimentos feitos no mar. O outro trata-se de uma enzima utilizada para a redução de danos químicos durante o processo de fabricação têxtil, descoberta em uma região vulcânica do país (DALTON, 2006).
Por vir, há algumas perspectivas. A equipe de pesquisadores do INBio está procurando por novas oportunidades, firmando novos acordos com a esperança de
conseguir desenvolver novos produtos. Um deles pode vir da cyanobactéria, cuja propriedade de isolamento de moléculas é alvo de ações na tentativa de isolar essa propriedade. As pesquisas são feitas em canais de rios e no estuário do golfo de Nicoya.
Com relação à repartição de benefícios, se considerarmos os resultados publicados em balanços anuais do Instituto, de 2001 a 2004, disponibilizados em sua página na Internet, que os investimentos com bioprospecção têm sido bem maiores do que o retorno. Inclusive, um artigo publicado no periódico Nature, de autoria de Rex Dalton (2006) dá conta que o Instituto, na verdade, vem passando por sérias dificuldades. O retorno financeiro, até agora, foi muito pequeno. Nenhuma descoberta significativa ocorreu nesses anos de pesquisa, inventário e bioprospecção.
De 1992 a 19991, cerca de US$ 10 milhões foram obtidos com o programa de bioprospecção. Deste montante, US$2.7 milhões entraram como investimento direto ou em capacitação ao SINAC, universidades públicas, principalmente a Universidade da Costa Rica, para conservação e pesquisas relativas à biodiversidade. (UMAÑA, 2002).
Um aspecto positivo a ser destacado é capacidade de negociação, tão exaltada por diversos autores. A prática faz com que, atualmente, o INBio preste serviços de consultorias às diversas entidades privadas e governamentais
Em termos práticos, considerando o benefício da sociedade em geral em virtude da exploração de um bem público, podemos dizer que um dos fatores positivos foi que a legislação teve que ser priorizada para acompanhar as iniciativas empreendidas. De acordo com a United Nations Development Program (2003, p.10): “o país tem um marco jurídico que favorece as negociações com grupos de pesquisa
comercialmente aplicada. A bioprospecção acontece com maior intensidade que em outros países73”. (Tradução nossa).
Aliada a essa questão, está a excelente articulação do Instituto, enquanto representante do país, para atrair recursos financeiros internacionais, sob os auspícios da cooperação internacional. A necessidade de recursos externos por parte dos países em desenvolvimento na tentativa de investir em ações voltadas à conservação é uma realidade. Entretanto, este fator pode ser visto também como um aspecto de vulnerabilidade em um país onde a atuação do Estado é tão flexível, uma vez que se mostra tão dependente de recursos externos e não sabemos exatamente se a contrapartida está sendo na justa medida.
O conhecimento gerado respectivo aos recursos biológicos do país é outro aspecto muito importante. O trabalho conjunto com iniciativas governamentais fez com que se conheça atualmente cerca de 17% do meio milhão de espécies existentes no país (OBANDO, 2002 apud MINISTERIO DEL AMBIENTE Y ENERGÍA; PROGRAMA DE LAS NACIONES UNIDAS PARA EL MEDIO AMBIENTE, 2002). Junto com isso, a capacitação profissional, ainda que em pequena dimensão, dos pára-taxónomos e a melhoria significativa de laboratórios para análises, ainda que os produtos tenham que ser desenvolvido fora do país.
O inventário da biodiversidade, iniciada em 1999, segundo Gámez (1999 apud INSTITUTO NACIONAL DE BIODIVERSIDAD, 2004, p. 9) “uma atividade básica na geração de conhecimento da biodiversidade”, resultou em uma coleção de mais de 15 milhões de espécies, entre insetos, plantas, moluscos, fungos e nematóides. Em 15 anos foram catalogadas mais de 23.000 espécies, que corresponde a uma média de uma nova espécie descoberta a cada três dias que,
73 El país tiene um marco jurídico que favorece las negociaciones com grupos de investigación comercialmente aplicada. La bioprospección se da com maior intensidade que em outros países.
por sua vez, geraram 908 publicações científicas (INSTITUTO NACIONAL DE BIODIVERSIDAD, 2004).
Além do trabalho dos parataxónomos, o inventário demandou a colaboração de técnicos, curadores e taxónomos nacionais e estrangeiros totalizando por volta de 300 pessoas envolvidas advindas de 170 diferentes instituições e universidades. Os trabalhadores locais, originários das comunidades locais e guardas-parques do então MIRENEM e atual MINAE, que desde então foram engajados no trabalho, totalizam 100 pessoas. Informações recentes dão conta que, o número de parataxómos ativos é 16, sendo 14 homens e 2 mulheres (INSTITUTO NACIONAL DE BIODIVERSIDAD, 2004)
A bioalfabetização também é um aspecto louvável, embora esteja em uma escala muito pequena e muito centralizada. As atividades são centradas no Inbioparque, ao passo que poderia ser levada a outras regiões do país (UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAM, 2003).
A repartição de benefícios ainda não é uma realidade. Não no amplo sentido do termo considerando a distribuição justa e eqüitativa. A coletividade, ainda que pese os benefícios à conservação, ainda está sendo pouco beneficiada. “Aún se requiere fortalecer las capacidades institucionales para negociar acuerdos de bioprospección y asegurar el reparto de beneficios” (UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAM, 2003, p.11)
Ainda há o agravante que os conhecimentos tradicionais das populações locais parecem estar sendo ignoradas em todo esse processo.
A esse respeito, Trommetter (2005, p. 4) nos dá uma idéia da relevância dessas populações e seus conhecimentos associados á biodiversidade na questão:
Recursos genéticos, com ou sem informação, podem ser diferenciados (com referência à negociação de acesso a recursos e à informação sobre o recurso) e não podem ser tratados da mesma maneira74. (Tradução nossa).
5.4 À margem: comunidades tradicionais e indígenas e a bioprospecção na