Marta é professora da educação fundamental da primeira fase, leciona apenas durante o turno da tarde. Formada em Pedagogia, leciona há mais de 20 anos. Sempre trabalhou na área de educação, no entanto há apenas pouco mais de três anos que ela atua como professora efetiva do município. Ela é uma exceção entre as entrevistadas: ela se interessa pelo tema da violência, mais especificamente contra crianças e adolescentes. Durante a entrevista notamos segurança em sua fala, fluida e focada no assunto tratado.
Casada e com dois filhos, faz uso diariamente da internet, sem horário fixo para este, já que o tempo de acesso é dividido em sua casa para toda a família. Mas geralmente usa de duas a três horas por dia, com frequência maior durante o final de semana. Marta, assim como muitas docentes, já trabalhou em mais de um expediente, mas como se tornou efetiva, fez a escolha de trabalhar por um período apenas. Às vezes trabalha como voluntária na Pastoral do Menor.
Marta é uma daquelas profissionais que comunica sentir prazer no que faz, embora em alguns momentos fique desapontada com a desvalorização da profissão docente, expressa na carreira limitada – “professor não enrica mesmo e não vale a pena você tá morrendo três expedientes pra depois adoecer” – e na falta de e segurança no trabalho:
A gente é totalmente vulnerável, nós como educadores, a gente é vítima da violência, assim, a gente tem medo, não só da violência dos alunos, como dos pais, dos tios, porque assim, muitos alunos de antigamente não são os mesmo de agora e assim tá muito fácil matar, tá muito fácil chegar e dizer desaforos, A experiência de vulnerabilidade relatada por Marta confirma o clima de medo vivido por muitos profissionais da educação, registrado pela literatura. Para Souza (2007) a violência que acontece nas escolas contra os professores é uma das causas para que a educação no país não progrida e segundo Pereira (2007) as práticas de violência contra o educador os induzem à desmotivação, em razão da falta de políticas públicas para proteger a escola e seus profissionais: como para Pereira (2007), para Marta resta a sensação de que a educação outrora era melhor, os professores eram mais respeitados: “a violência na escola, ela ultimamente tá tomando uma dimensão que se não tomarem uma providência, o Poder Público, se não tiver políticas públicas voltadas principalmente para a escola, assim eu acredito que o professor vai tar em extinção”.
O que se extingue? Uma experiência por Marta invocada repetidas vezes: a palavra "antigamente" foi usada oito vezes para destacar um passado percebido como mais seguro e melhor: o ensino tradicional era melhor, os alunos aprendiam mais, filho de professor queria ser professor, o professor era respeitado. Não obstante sua motivação e a exacerbação da insegurança, não podemos esquecer que a escola pública mudou, acolhendo mais diversidade e, inevitavelmente, se expondo mais a conflitos relacionais. Pretender que a escola homogeneizadora do passado era melhor é enxergar apenas um aspecto limitado da problemática.
Essa recorrência a um passado quase mítico, de tão distante, faz-nos pensar sobre a função atual da escola e como os docentes têm lidado com as transformações sociais que a tecnologia, a aceleração de informações e a violência têm levado a instituição. Isso é um dado preocupante, pois demonstra que professores como Marta, mesmo motivados, não conseguem adaptar-se, aprender para inovar e aceitar desafios atuais, com parâmetros menos uniformizadores. Elas e eles não estão sabendo lidar com as mudanças sociais que a escola, por ser uma instituição social também tem passado (COSTA, SILVEIRA, SOMMER, 2003), o que também se explica pela falta de políticas públicas voltadas, com investimentos, para a formação docente continuada. Ainda é incomum, entre docentes, a percepção de que novos tempos exigem novas maneiras de lidar com essas situações, novas competências e habilidades.
Se a violência na escola tem sido algo crescente, se os alunos parecem mais agitados, a nosso ver, isso nos parece resultados das mudanças de identidades e das estruturas sociais que temos passado, como novo movimento do processo civilizador (ELIAS, 1993, 1994a, 1994b) que requer cuidados e participação da escola. Relembrar o passado para somente depreciar o hoje ilustra que Marta, como outros tantos docentes, ainda não aprendeu que o fenômeno social é histórico e que os indivíduos são sempre resultado de mil teias sociais. A imaginação, os atos do indivíduo não podem se afastar do ritmo de sociedade a que ele pertence, o que somos e nos constituímos são também fruto dessa ordem que emerge.
Ainda que saudosista, Marta gosta de usar as novas tecnologias: acessa redes sociais, assiste a vídeos no Youtube e procura temas e assuntos para suas aulas.
A internet, assim, ela dá muitos subsídios para o educador [...] Quando eu retornei, que foi há três anos atrás que eu passei no concurso daqui e tal, então eu fui assim reaprender né, que eu não tava mais em sala de aula, então assim: a internet pra mim é muito bom.
Então, Marta associa a internet à aprendizagens relacionadas a seu trabalho – sem fazer o mesmo no tocante à gestão da violência na escola (a despeito de valer-se da rede de computadores para aprender sobre temas relacionados com o cuidado a criança e ao adolescente, como a Pastoral da Criança, a participação em Organizações Não- Governamentais e do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil). O uso da internet se faz presente em seu cotidiano principalmente na troca de emails entre essas organizações, para promover palestras, formações, eventos e, em suas próprias palavras, “reaprender”.
Desta forma, constatamos que Marta já fez vários cursos pela internet, além do ProInfo: gosta de atualizar-se sobre assuntos ligados a sua área e considera, para isso, a internet uma ótima ferramenta, pois com um clique pode encontrar ideias para as suas aulas e ter acessos a cursos a distância de acordo com a sua disponibilidade de horário, o que não poderia fazer presencialmente.
Quando indagada sobre a violência na escola, relatou-nos da ameaça de uma família contra um professor – experiência cuja proximidade ajuda a entender o medo e o saudosismo. Ao falar sobre a violência na escola produzida ou sofrida pelo discente, Marta revela entender o modelo midiático agressivo como um fator que contribui para o que considera ser um aumento da violência: “os meninos hoje em dia são muitos violentos, sabe, eu tenho a ideia, que eles veem um filme e querem reproduzir na escola, porque antigamente era difícil chegar um caso na secretaria de um aluno ir bater em outro”. Ora, tais casos poderiam até ser mais raros na experiência de Marta, mas, como no caso do bullying, isto se deve ao fato de que muitas agressões entre iguais são perpetradas na ausência de adultos, que não se preocupam com uma situação cuja gravidade é relevada ou mesmo desconhecida (GONÇALVES, 2011).
Marta faz uma observação importante: para ela, há menos tolerância à frustração e aos erros dos outros: “Ai sim, violência tem muita [...] eles não perdoam as coisas, eles não são assim vamos supor, você mexeu comigo e eu relevar não, avançam em cima”. Estaríamos em tempos quando o laço social, segundo as normas da civilização ocidental moderna, vê-se ameaçado? Haveria um retrocesso a modelos mais agressivos? Essa é uma possibilidade de interpretação, que se aproxima da tese de Elias (1994), mas que, paradoxalmente, inverte o argumento de Marta: se os padrões comportamentais do alunado são mais agressivos, não é porque no passado fomos melhores, mas porque a escola não acolhia todos e tinha poderes para prometer ascensão mais veloz e seguramente aos que por ela passavam. A escola era, a seu modo, tão violenta quanto
hoje, mas em aspectos distintos: mais excludente, ela participava mais ostensivamente de um processo de seleção social que mantinha fora os que considera inadequados – que faz até hoje, não custa lembrar. E isto Marta e outros tantos professores, na linha de frente dos conflitos relacionais, não consegue enxergar – sentindo-se, então, dispensados de assumir a tarefa de gerir tais tensões na escola.