3.4.1 Meritocracia: entre tornos, notas e salários
A cultura da meritocracia na EACFL foi a categoria que situamos como ponto relevante desta investigação. Talvez o ponto-chave para a elaboração do título desta tese, uma vez que, mediante as fontes, identificamos que o aluno-aprendiz tinha como fator motivador durante sua permanência na escola, o desejo de ser um Torneiro Mecânico, reconhecido na comunidade em que vivia e ainda gozar de status social que ia além do espaço da fábrica e da escola. No ambiente da escola, era apregoado que quem se esforça sempre alcança os melhores postos de trabalho. A importância do sucesso acadêmico, que classificava e premiava o esforçado, gerava na EACFL um nível elevado de competitividade.
Como enfatizamos na análise dos diários de classe, a cultura escolar da meritocracia, vinculada à competição escolar, onde os mais aptos eram recompensados financeiramente, destaca a cultura de que a empregabilidade e o sucesso são de responsabilidade individual e não das diferenças de classes, nem do sistema capitalista.
Esse tratamento educativo oferecido aos trabalhadores de Rio Tinto nos faz entender que essa pedagogia tecnicista tem a finalidade de estreitar a relação educação e trabalho no capitalismo e visa nutrir no futuro operário a possibilidade de ascensão social.
Obter as melhores notas, estar entre os três primeiros colocados e, por consequência, receber uma premiação em dinheiro era o que almejavam os alunos-aprendizes da escola. Além disso, o esforço para se destacar na disciplina Matemática e alcançar o direito de estender sua especialização para o ofício de Torneiro Mecânico era o ápice na busca por uma vida melhor. Todo esse esforço e dedicação aos estudos resultaria na premiação final: um emprego nas oficinas da fábrica.
Observamos então, que o ponto fundamental desse processo parece residir no fato de que a EACFL em seu contexto histórico representa a expansão do capitalismo em Rio Tinto. Na situação estudada, o capital, ao avançar, gera a reprodução da miséria, permanência da exploração do homem pelo capital, e não a sonhada ascensão social por meio de uma experiência educacional profissionalizante.
Assim, a ideologia subjacente na estrutura da escolarização dos filhos de operários ressalta a alienação promovida por uma escola de formação para o trabalho. Instituição essa que traduzia em suas práticas educativas os interesses dos industriais e a continuidade das diferenças de classes, utilizando as premiações como incentivo, ou seja, a promoção de uma cultura voltada para a meritocracia, entre tornos, notas e salários.
3.4.2 Datas comemorativas
Um elemento importante do cotidiano escolar eram as datas cívicas. O desfile do dia 7 de setembro era um momento de a sociedade local conhecer a organização e disciplina da EACFL. Os alunos recebiam da fábrica tecidos para confecção da roupa que deveria ser usada no dia da referida comemoração.
A escola tinha orgulho de sua fanfarra. Durante todo o ano havia ensaio com foco na apresentação pelas ruas da cidade. Essa ocasião era muito esperada pela sociedade de Rio Tinto: todos queriam ver o desfile da Escola do SENAI. Abaixo ilustramos um momento dos alunos desfilando na data comemorativa de 07 de setembro em ano não identificado por este pesquisador.
Figura 19 – Alunos da EACFL em desfile - Rio Tinto
3.4.3 Fardamento: economia da camisa
O fardamento e o corte de cabelo estilo militar eram elementos que simbolizavam a característica disciplinar da escola e propiciavam uma identidade aos alunos-aprendizes na comunidade de Rio Tinto, inclusive no âmbito hierárquico. O uso do fardamento consistia em uma camisa branca de linho, de mangas curtas, com o símbolo da escola e o nome do SENAI no bolso do lado esquerdo, calça marrom e sapatos pretos.
Nos dias de datas comemorativas, a CTRT fornecia tecido de linho para que fosse confeccionada uma camisa de manga cumprida e uma gravata para serem utilizados nos desfiles e apresentações na localidade. Em determinados anos, também era fornecida uma boina. Nas oficinas, era utilizado avental de couro, corvim ou algodão para os trabalhos com ferramentas, máquinas e o manuseio com materiais necessários para o trabalho nos diversos ofícios oferecidos.
Vale ressaltar que na manga esquerda da camisa curta eram bordados o nome do SENAI e as faixas que simbolizavam a hierarquia das séries que o aluno-aprendiz cursava. Uma faixa bordada era para os alunos do primeiro ano, duas, para o segundo ano, e três para o terceiro ano, representando breve semelhança com a hierarquia militar.
Relatou-nos um ex-aluno – em entrevista na fase da pesquisa de campo – que no período em que frequentou a EACFL, a fábrica já não mais fornecia tanto incentivo para os alunos-aprendizes e ele, não dispondo de condições financeiras para adquirir outra camisa para cursar o terceiro ano, utilizou a camisa do segundo ano, pintando a terceira faixa com tinta de tecido; dessa forma conseguiu atender à exigência da escola no tocante à obrigação de usar fardamento com três faixas no braço esquerdo. Dessa forma, sob nossa interpretação, intitulamos o caso ora descrito como: economia da camisa.
Como podemos observar – utilizando o fardamento como prática educativa – a EACFL seguia, de forma rígida, sua cultura de ensinar aos alunos-aprendizes regras hierárquicas com que eles se deparariam nas oficinas da fábrica, como futuros operários.
Na página seguinte, ilustramos o fardamento utilizado no cotidiano escolar e nas datas comemorativas.
Figura 20: Camisa do fardamento – SENAI Rio Tinto (1967)
Fonte: Arquivo pessoal de um ex-aluno
Figura 21: Desfile 07 de setembro – Rio Tinto (1965)
Dando sequência a este estudo, no próximo tópico, destacamos os pressupostos e procedimentos metodológicos utilizados na pesquisa de campo – por meio da descrição, da análise e da discussão dos recortes de fala dos relatos verbais, obtidos nas entrevistas.