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O período de transição da ditadura militar instalada em 1964 para a Nova República foi, certamente, o mais doloroso de todos quantos a história marcou em nosso País, por isso deve sempre ser lembrado.

Da Monarquia para a República não se observaram excessos que registrassem, como neste período, a violência do poder autoritário, com presos políticos sem culpa formada, torturas nos cárceres, assassínios cometidos em todo o País sob a égide de uma doutrina de segurança que não era outra coisa senão a segurança do poder arbitrário fugindo ao debate público e à eleição do presidente da República, dos governadores e dos prefeitos.

O papel exercido pelas esquerdas e pelo agrupamento liberal-democrático composto de empresários nacionalistas e profissionais autônomos, fazia convergir para o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) toda a força de coesão na defesa das liberdades.

Ainda quando do MDB, em razão das decisões autoritárias, teve que se transformar, adaptando sua denominação e compondo-se como PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro, ainda aí as forças progressistas souberam conjugar-se na legenda substitutiva ou prestigiá-la nas crescentes votações.

Abria-se o caminho para o encontro de soluções democráticas, forçando o governo militar a admitir a participação da comunidade até então ilhada e permanentemente sob suspeita, especialmente o setor universitário e os inlelectuais, sitiados como se vivessem uma fase de guerra intestina.388

Mais tarde, renascia nas Forças Armadas o espírito democrático e várias importantes patentes militares passaram a prestar declarações em favor das eleições diretas.

Algumas manifestações foram abafadas pela censura. Punições se verificaram nos quartéis, alcançando oficiais que reclamavam o retorno à prática democrática.

388BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 463.

Mas somente em 1984 se explicitaram as manifestações da sociedade e a movimentação das organizações associativas como a Ordem dos Advogados do Brasil, as federações e sindicatos de trabalhadores, com o apoio ostensivo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Em 17 de abril de 1984 iniciou-se a grande campanha popular de rua, com mais de um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, exigindo as eleições diretas em todos os níveis.

O Presidente General João Baptista de Oliveira Figueiredo, pressionado pelo movimento popular, anunciou pela televisão uma emenda constitucional propondo as eleições para 1988.

As oposições se uniram com as dissidências do partido do governo em torno do documento ―Compromisso com a Nação‖, subscrito em 7 de agosto de 1984 por Tancredo Neves, Governador de Minas Gerais e virtual candidato a Presidência da República; Ulysses Guimarães, presidente nacional do PMDB e Aureliano Chaves e Marco Maciel, representando a Frente Liberal, depois organizada como Partido da Frente Liberal.389

Com referência às eleições, o documento da Aliança Democrática era preciso ao exigir o restabelecimento imediato das eleições diretas, livres e com sufrágio universal para presidente da República.

Afinal, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves é escolhido pelo Colégio Eleitoral como o 29º Presidente da República do Brasil, vencendo o candidato governista Paulo Maluf, por 480 a 180 votos.

Restaria a posse, sempre posta em dúvida em dias que deixou a Nação em suspenso.

Tancredo Neves, no Parlamento brasileiro, logo após a sua escolha, dirigia-se em 15 de janeiro de 1985 aos congressistas com estas expressivas afirmações390:

Não sei avaliar quando o povo foi maior: se quando rompeu as barreiras da repressão, e veio para as ruas gritar pelas eleições diretas, ou se quando,

389BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 466.

nisso vencido, não se submeteu, e com extrema maturidade política, exigiu que agíssemos dentro das regras impostas, exatamente para revogá-las e destrui-las.

Nesse diapasão, aliás, fixou-se, também o Vice-presidente José Sarney, escolhido juntamente com ele e empossado na Presidência em razão do falecimento do titular.

As divergências de interpretação foram aprofundadas pois, para alguns, se o titular não havia tomado posse, como considerar o vice em condições de assumir em seu lugar a Presidência da República? Mas essa questão, na prática e na realidade, foi respondida através do acordo feito com base em entendimentos de lideranças e com a audiência dos ministros militares, que resultou na confirmação do Senador José Sarney para assumir a presidência.

A Constituição vigente, de 1967, com a Emenda de 1969, e a de nº 8 de 14 de abril de 1977, previa o mandato de seis anos, enquanto as Constituições de 1891 e 1934 e mesmo originalmente a de 1967 fixavam-no em quatro anos.

Por todo o exposto, certo é que a Constituição Federal de 1967, com a Emenda nº 1 de 1969, não se traduziu, muito pelo contrário, em uma Carta que buscasse a paz. Muito embora o Capítulo II, Art. 8º, inciso II, disponha: ―Compete à União: II - declarar guerra e fazer a paz‖, em nenhum momento sequer a paz, como antônimo de guerra, operou-se. Nós, brasileiros, sabemos que esse período já inaugurado em 1964 com a Revolução, define-se como o mais conturbado e triste de nossa história nacional e constitucional, uma vez que imperou a ditadura com seus reflexos desastrosos.

A Constituição de 1967 traz em seu bojo textos políticos de um período caracterizado pelo ―estado de exceção‖, como o Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964, atos institucionais números 2, 3, 4 e 5, bem como a ―Constituição da Junta Militar‖ que se traduziu na Emenda nº 1, de 17 de outubro de 1969.

O termo ―estado de exceção‖, já utilizado por juristas alemães, para indicar os poderes excepcionais do presidente do Reich segundo o Art. 48 da Constituição de Weimar (1923) e retomado por Clinton L. Rossiter391, que também equipara o

391Clinton Rossiter (1917 - 1970) foi um historiador e cientista político que lecionava na Cornell University de 1946 até seu suicídio em 1970. Ele escreveu ―A presidência americana‖ juntamente

referido termo com ditadura constitucional, merece destaque, na obra do mesmo nome, do jus-filósofo italiano, Giorgio Agamben392:

À diversidade das tradições jurídicas corresponde, na doutrina, a divisão entre os que procuram inserir o estado de exceção no âmbito do ordenamento jurídico e aqueles que o consideram exterior a esse ordenamento, isto é, como um fenômeno essencialmente político ou, em todo caso, extrajurídico. Entre os primeiros, alguns - como Santi Romano, Hauriou, Mortati - concebem o estado de exceção como parte integrante do direito positivo, pois a necessidade que o funda age como fonte autônoma de direito; outros - como Hoeni, Ranelletti, Rossiter - entendem-no como um direito subjetivo (natural ou constitucional) do Estado à sua própria conservação. Os segundos - entre os quais Biscaretti, Balladore-Pallieri, Carré de Maberg - consideram ao contrário, o estado de exceção e a necessidade que o funda como elementos de fato substancialmente extrajurídicos, ainda que possam, eventualmente, ter conseqüências no âmbito do direito. Julius Hatschek resumiu os diversos pontos de vista na oposição entre uma objektive Notstandstheorie (teoria objetiva do estado de necessidade), segundo a qual todo ato realizado em estado de necessidade e fora ou em oposição à lei é contrário ao direito e, enquanto tal, juridicamente passível de acusação, e uma subjektive Notstandstheorie (teoria subjetiva do estado de necessidade), segundo a qual o poder excepcional se baseia ―num direito constitucional ou pré-constitucional (natural)‖ do Estado (Htschek,1923, p. 158 e seg.), em relação ao qual a boa fé é suficiente para garantir a imunidade jurídica

A simples oposição topográfica (dentro / fora) implícita nessas teorias parece insuficiente para dar conta do fenômeno que deveria explicar. Se o que é próprio do estado de exceção é a suspensão (total ou parcial) do ordenamento jurídico, como poderá essa suspensão ser ainda compreendida na ordem legal? Como pode uma anomia ser inscrita na ordem jurídica? E se, ao contrário, o estado de exceção é apenas uma situação de fato e, enquanto tal, estranha ou contrária à lei, como é possível o ordenamento jurídico ter uma lacuna justamente quanto a uma situação crucial? E qual é o sentido dessa lacuna?

Na verdade, o estado de exceção não é nem exterior nem interior ao ordenamento jurídico e o problema de sua definição diz respeito a um patamar, ou uma zona de indiferença, em que dentro e fora não se excluem, mas se indeterminam. A suspensão da norma não significa sua abolição e a zona de anomia por ela instaurada não é (ou, pelo menos, não pretende ser) destituída de relação com a ordem jurídica. Donde o interesse das teorias que, como a de Schmitt, transformam a oposição topográfica em uma relação topológica mais complexa, em com 20 outros livros sobre instituições americanas e história. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Clinton_Rossiter>. Acesso em: 23 mar. 2010 (Tradução

livre do autor).

que está em questão o próprio limite do ordenamento jurídico. Em todo caso, a compreensão do problema do estado de exceção pressupõe uma correta determinação de sua localização (ou de sua deslocalização). O conflito, portanto, a respeito do estado de exceção apresenta-se essencialmente como uma disputa sobre o locus que lhe cabe.

Fato é que enquanto estivemos sob a égide da Constituição de 1967, em razão da própria forma com que esta Constituição se impôs, ou, melhor dizendo, foi ―imposta‖, como pelo exposto pode-se constatar, principalmente face aos atos institucionais, também estivemos a mercê de um ―estado de exceção‖. Estado este que nos colocou, enquanto sociedade, fora do ordenamento jurídico e, portanto, sem a devida proteção legal. Ao contrário, esse foi um período que iniciado em 1964, com o golpe militar, nos deixou entregues nas mãos do arbítrio que tornou essa época repleta de violência, no seu sentido mais profundo, como por todos nós cidadãos brasileiros é sabido e, por muitos, vivido.

4.8 A Constituição Federal de 1988 4.8.1 Perfil ideológico da Constituinte

Serão traçadas a seguir algumas observações inerentes ao perfil ideológico da Constituinte de 1986.

A ação partidária foi substituída pela movimentação dos grupos e a imprensa acusou a organização de lobbies de interesses, os mais variados, como o lobby santo, da Igreja Católica; o lobby evangélico, das várias ramificações protestantes; o lobby dos prefeitos, dos governadores, das multinacionais, das mulheres, dos cartorários, dos servidores públicos, como influenciadores ou deformadores da vontade da Constituinte.

O próprio governo central estruturou seu grupo de ação o chamado Centrão (Centro Democrático), que coordenou os vários agrupamentos partidários, apartidários, extrapartidários, suprapartidários, dispostos a votar com o Planalto,

especialmente o dispositivo que adotava o sistema de governo e o que fixava o período do mandato presidencial.393

Nesses dois pontos se fixou o Palácio do Planalto, desinteressando-se praticamente dos demais temas, a tal ponto que o próprio capítulo dos direitos sociais e da atividade tributária da União ficou secundarizado.

Os ministros e particularmente os governadores foram mobilizados para uma ação direta sobre os constituintes.

Comprovou-se, então, a ação eficaz dos governadores e dezesseis deles foram a Brasília e lá permaneceram durante os dois dias em que a Constituinte debateu e votou os dois pontos polêmicos. Essa ação direta dos governadores não se verificou apenas junto aos suplentes que dependem das licenças dos deputados que ocupam Secretarias de Estado, mas, igualmente, sobre aqueles que, por uma razão ou outra, se encontravam ligados à administração estadual, com indicações específicas nos vários setores da atividade administrativa.

O enfraquecimento da ação partidária trouxe, por consequência, o fortalecimento dos grupos com os quais o governo começou a dialogar e a formular propostas ou encaminhar soluções de maioria para as votações.

Aliás, os partidos não se reformularam para essa fase constituinte. Saídos de uma eleição geral, permaneceram sem qualquer modificação de seus programas ou de ajustamento de suas práticas partidárias, com mandatos de diretórios prorrogados por força de lei votada pelos próprios congressistas.

Observe-se que na França, na Itália, nos Estados Unidos, os partidos reprocessam seus procedimentos, sua estrutura e atualizam constantemente as respectivas posições, segundo a evolução dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos.394

Ainda na estrutura tradicional dos norte-americanos, a concentração bipartidária dos democratas e republicanos tem levado as duas agremiações políticas a constantes acomodações de terreno, inclusive ideologicamente. Assim,

393BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 466.

esquerda e direita se reforçam dentro dessas organizações partidárias. Influindo nos seus rumos políticos, administrativos e eleitorais, no seu reordenamento ideológico, o que, aliás, se verificou mais marcadamente durante a década de 60, quando os republicanos caminharam mais para a direita, absorvendo outras faixas conservadoras até então ligadas aos democratas, enquanto estes penderam mais para a esquerda com a incorporação dos direitos sociais mais modernos, a reivindicação das minorias, a defesa dos direitos humanos em sentido mais universal.395

As preocupações com o conforto, a segurança, o meio ambiente, o consumismo, o feminismo, foram temas que influíram pesadamente nas decisões do eleitorado, destacando-se também por ensejo das eleições de 1986 a reconquista da maioria no Senado pelos democratas com a campanha se centralizando ao redor dos problemas locais.

E, assim, o pragmatismo e não a ideologia acabaram marcando essas campanhas nos Estados Unidos, ora mobilizando o sentimento do ―populismo anti- establishment‖,396 ora a reação do partido do ―big government‖397. Se o perfil

ideológico se torna difícil definir nos Estados Unidos, onde a estrutura partidária é estável e centenária, pois ali os partidos se revezam no poder e constituem a força política e partidária nas decisões nacionais, como poderia ser fácil definir um perfil ideológico para uma composição como a da nossa Assembleia Nacional Constituinte, onde os agrupamentos partidários, com exceção de alguns pequenos como o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), não se apresentam ideologicamente coerentes, brigando as próprias siglas com seu conteúdo programático?398

395BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 467.

396Anti-establishment é um adjetivo da língua inglesa usado para designar um indivíduo, grupo ou ideia que é contra as instituições oficiais, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, da forma vigente da sociedade. Em português também se usa a expressão ―contra a ordem estabelecida‖. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Anti-establishment>. Acesso em: 24 mar. 2010.

397Big government é um termo geralmente utilizado por políticos conservadores, advogados neutros ou libertários para descrever um governo que eles consideram ser excessivamente grande, corrupto e ineficiente, ou inadequadamente envolvido em determinadas áreas de políticas públicas. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Big_government>. Acesso em: 24 mar. 2010 (Tradução livre do autor).

De qualquer forma, porém, duas tendências ficaram evidentes no debate e votação dos temas sociais e direitos dos trabalhadores, na questão da terra e da propriedade, da reforma agrária, do capital estrangeiro, das riquezas do subsolo, da política de informática, da comunicação, da estrutura sindical com o pluralismo ou a unidade (a esquerda dividida ou abstendo-se de votar como ocorreu com o PT), do direito de greve, da reforma tributária.

Em algumas dessas questões é possível estabelecer uma certa divisão ideológica, mas a interferência dos governos federal e estaduais chega a apagar a marca doutrinária dos constituintes ou das próprias legendas, conflitando posições pessoais ou partidárias.

Vez por outra, as posições extremas se tocavam como no sistema de governo, parlamentarista ou presidencialista, para o qual o PT e o Partido Democrático Trabalhista (PDT) adotavam a mesma posição do Partido Democrático Social (PDS) e do grupo mais conservador da Assembleia.

Os extremos representados pelos deputados Roberto Cardoso Alves e Amaral Netto, José Lourenço Morais da Silva e Antônio Delfim Netto estavam na mesma posição de José Genoíno Neto ou de Luiz Inácio Lula da Silva.399

Pode-se, no entanto, pelas decisões assumidas, concluir que a maioria constituinte era conservadora e o mais fiel retrato de sua composição pode ser melhor aferido pelas votações de alguns pontos conflitantes.

Através dessas votações e da posição assumida pelos constituintes, conclui- se que o perfil da Constituinte de 1987-1988, embora conservadora, tem características muito especiais, às vezes até mesmo contraditórias, refletindo interesses grupais ou regionais em detrimento do essencial, mas, na realidade, representando a sociedade no seu conjunto, com todas as suas intranquilidades, preocupações, instabilidade e deficiências de formação e de prática política.

Uma análise sociopolítica dos partidos e deputados na Constituinte foi feita por Leôncio Martins Rodrigues400, com base em sólida pesquisa. Na apresentação do trabalho, Maria Teresa Sadek observa401:

399BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB, 2000. p. 468.

Evidentemente, a Constituição nem sempre reflete de forma exclusiva o próprio perfil daqueles que a elaboraram. A Carta de 1946, por exemplo, não é a imagem e a semelhança de seus constituintes. Portanto, nossa nova Lei Magna será o resultado das características pessoais de cada constituinte somadas aos desdobramentos e mediações das pressões políticas e sociais.

Benzer Belgeler