A conjuntura política pós- Constituição de 1988 propiciou as condições para que as forças de esquerdas – as que tinham saído da clandestinidade ou as que haviam se organizado
iniciassem experiências inovadoras de participação popular em governos municipais. Para Sousa Santos (2002), essa oportunidade política decorreu do fato de que as forças políticas estavam intimamente conectadas com os movimentos populares, que haviam lutado, tanto no campo como nas cidades, nos anos 1960 e 1970, num contexto duplamente hostil de ditadura militar – tecnoburocrática, patrimonialista e clientelista –, ao favor do reconhecimento e do estabelecimento de sujeitos coletivos oriundos das classes populares.
Segundo Sousa Santos (2002), entre essas forças políticas é preciso destacar o Partido dos Trabalhadores (PT), que foi fundado em 1980, com base no movimento operário que era particularmente muito forte no Estado de São Paulo e uma das forças mais importantes na luta contra a ditadura militar.
Carvalho (2011) considera a criação do Partido dos Trabalhadores (1980) como a grande novidade no campo partidário brasileiro; pois todos os partidos políticos brasileiros criados antes e depois de 1964, com exceção do Partido Comunista, tinham sido criados por políticos profissionais ou por influência do Poder Executivo, e haviam sido sempre dominados por membros da elite social e econômica. Já o PT, diferentemente dos partidos tradicionais, surgiu de uma:
[...] reunião ampla e aberta de que participaram centenas de militantes. Sustentou-se em três grupos principais, a ala progressista da Igreja Católica, os sindicalistas renovadores, sobretudo os metalúrgicos paulistas, e algumas figuras importantes da intelectualidade. Eram grupos heterogêneos que conviviam dentro do partido graças ao amplo espaço existente para a discussão interna (CARVALHO, 2011, p. 176- 177).
A criação do PT ocorreu a partir das mobilizações e greves dos metalúrgicos, da região do ABCD paulista (Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema), no final da década de 1970. Ainda sob o regime militar um grupo de sindicalistas liderados por Luís Inácio Lula da Silva resolveu criar um partido de trabalhadores.
O Partido dos Trabalhadores foi oficialmente fundado em fevereiro de 1980. Desde o seu início, muitos grupos e posições políticas estiveram presentes na luta e na organização do partido, tais como: a Ala Vermelha, que nos anos 1980 se unificará a outras duas formando o Movimento Comunista Revolucionário e, ao final da década, na tendência Força Socialista (que em 2004 passa a se denominar Ação Popular Socialista); a Democracia Socialista é outro importante grupo presente desde o começo, participando dos debates e na organização do PT (SINGER, 2001).
Em entrevista à autora, comentando o processo de criação do Partido dos Trabalhadores, Raul Pont, um dos membros fundadores do PT e membro da sua direção desde seu surgimento, faz observações que permitem melhor entender o momento inicial de formação e constituição do Partido dos Trabalhadores. Conforme Pont (Entrevista realizada pela autora, no dia 16 de maio de 2013):
[...] o envolvimento depois de voltar a Porto Alegre e começar a trabalhar na Unisinos coincidiu, também, com o início de todos na movimentação pra a reorganização partidária no Brasil em 77 e 78. E esse envolvimento me levou a me dedicar crescentemente ao movimento prol Partido dos Trabalhadores, que foi fundado em 80; mas o movimento prol PT já existia em 78 e 79 em processo de debate, de construção, de organização de núcleos no conjunto do país e aqui em Porto Alegre.
Raul Pont destaca a particularidade do PT no quadro partidário brasileiro, salientando suas diferenças em relação aos partidos tradicionais brasileiros de antes e depois do regime militar. Diz ele:
[...] Era um projeto diferente, distinto, que no final da década, já com a crise do regime [militar], com a situação nova que o país vivia vai se materializar no projeto do Partido dos Trabalhadores. Então, um número grande de pessoas que viveram essa experiência acabaram digamos desaguando nesse novo projeto que era o PT. [...] é o partido do qual eu sou membro fundador e membro da direção nacional desde dessa época.[...] nós tínhamos já, como eu disse, antes mesmo da formação do PT, nós já tínhamos experiências no Brasil de grupos locais e regionais, que se aglutinavam em torno da necessidade de construir um projeto partidário. Esse projeto era muito parecido, muito semelhante ao que veio a ser constituir no PT (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Referindo-se à questão das várias correntes que compõem o PT, e mais especificamente à Democracia Socialista, corrente a que pertence, disse o dirigente partidário:
E nós [Corrente Democracia Socialista], não tínhamos a pretensão nesse grupo que não se denominava um partido político, mas que se denominava mais como um movimento, um espaço de diálogo, de conversa e de manter vivo a experiência que nós tínhamos vivido no período anterior nos anos 60 e início dos 70, que esse grupo se integrou a outros existentes em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro e, nesse período, na segunda metade dos anos 70, nós organizamos uma imprensa alternativa, [...] que eram canais mínimos que restavam para a resistência política [...] e é isso que nos levou a partir daí a ter uma atuação no movimento sindical nos anos 70. Recuperar contatos, recuperar relações com a juventude que já estava num outro momento, em outra etapa daquela nossa dos anos 60, havia toda uma nova geração na universidade da qual a gente também se aproximou pela experiência como professor e pelos contatos que tínhamos aqui na Federal e na PUC e daí se constituiu um engajamento que se expressava organicamente no MDB, então, o voto de protesto, o voto de resistência à ditadura até os anos de 1974 (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Comentando o sistema partidário do final dos anos 70 e as eleições da época, Pont explica que:
De certa forma nós éramos contra a participar das eleições. Éramos contra legitimar a ditadura militar por uma eleição que sabidamente era uma farsa. A forte resposta popular à grande vitória que o MDB teve em 74, que para nós não era muito uma vitória do MDB, era uma derrota da Arena, uma derrota do regime militar, a evidência de que aquele regime começava a fazer água, começava a entrar em crise, ainda lenta, mas sensível, é o que nos levou a ter um projeto jornalístico [...] no seu editorial a defesa da ideia de um partido de trabalhadores, que ainda não tinha nome e que ainda não era um partido dos trabalhadores, mas era um partido de trabalhadores (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Sobre o nascimento do PT, narra Pont:
[...] o PT ele nasce de vertentes distintas, (re) aglutina pessoas que tiveram militância nos anos 60 por caminhos variados e isso em grande medida e não todos, se (re) aglutina com a ideia do PT a partir de 79 e 80. Nós estávamos entre esses movimentos; por isso, que a DS é anterior ao PT. [...] Quando chegou o movimento prol PT nós já tínhamos um grau de organicidade, grau de espalhamento e de presença em vários cantos não só aqui no Rio Grande; mas nesse momento já com contatos no Paraná, em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte [...] como o partido nasceu já com direito de tendências pra nós aquilo era peixe na água, a gente se mexia e se movia muito bem, assim como outras correntes e outros grupos dentro do partido, que aceitavam a ideia de termos um partido, mas com democracia interna, com respeito ao debate interno, coisa que a gente não encontrava nos velhos partidos comunistas (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Alguns autores que se dedicam ao estudo dos partidos no período de transição política brasileira, entre os quais André Singer (2001), Raquel Meneguello (1988) e Leôncio Martins (1989) fazem observações que corroboram o que afirmou Raul Pont, na parte inicial de sua entrevista, ou salientam aspectos nos quais o entrevistado não se deteve, como as alterações na composição interna do partido ao longo da década de 1980.
Singer (2001, p. 26-27), assinala que apesar de haver na origem do Partido dos Trabalhadores uma hegemonia por parte dos sindicalistas, já ao final dos anos 1980 percebe- se uma certa mudança; pois no início da década de 1980, dos 16 membros que faziam parte da Comissão Provisória, 12 deles eram sindicalistas e ao final da década somente 10 dos 20 membros da Executiva Nacional eram sindicalistas. Durante os anos 1990, a composição do partido se modifica e ele pode ser caracterizado como um partido de classe média assalariada, predominando professores e profissionais liberais.
Em seu estudo sobre o PT, Meneguello (1988) informa que entre 1979 e 1981, na composição das comissões nacionais provisórias, 50% dos membros eram sindicalistas, o que era algo inédito na história partidária brasileira. Meneguello ressalta que nem mesmo no Partido Comunista (PCB), que se anunciava como o partido da classe operária, os
trabalhadores conquistaram uma participação tão expressiva nos órgãos dirigentes da organização.
Reforçando o argumento da autora acima mencionada, Leôncio Martins (1989) considera que o PT difere de qualquer partido que exista e tenha existido no Brasil; pois se distingue por ter sido criado “de baixo para cima”, por ter nascido da classe trabalhadora, e não dos meios parlamentares, das elites econômicas ou do Estado. Com base nas classificações clássicas da Ciência Política, relativas à organização dos Partidos, poder-se-ia dizer que todos os demais partidos políticos brasileiros eram “partidos de quadros”, enquanto que o PT poderia ser classificado como um “partido de massas” (SCHWARTZENBER, p. 514, 1979).
Ainda ponderando sobre as diferenças do PT em relação aos demais partidos políticos brasileiros, Raul Pont (2013) diz que este:
[...] é um partido muito particular porque ele estatutariamente garante o direito de tendências, [...] é um partido com uma profunda democracia de base, todos os filiados votam na direção estadual, municipal e nacional. Então, tudo isso cria uma situação muito particular diante do quadro brasileiro, não que isso seja uma inovação que ninguém antes não tenha feito, não nós sabemos que a experiência européia dos partidos de esquerdas e a experiência em outros continentes foi tão ou muito mais difícil do que a daqui.[...] nós construímos um partido com disciplina, com direção, mas simultaneamente, com o direito à pluralidade e à diversidade, porque isso era a realidade que o Brasil vivia. Naquele momento era muito difícil querer colocar no mesmo ‘modelito’ no mesmo conjunto das contradições e conflitos [...] Ninguém tinha um modelo pronto ou tinha a experiência, ou se tinha o modelo digamos como governar? (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Buscando esclarecer mais o momento de emergência do PT, Pont (2013) examina a relação que se estabelece entre os setores populares e a construção de um partido de massas, que terá por objetivo aglutiná-los e, ao mesmo tempo, já enfrentando a experiência de assumir governos de várias cidades com todas as dificuldades que esta situação coloca. Diz o entrevistado:
O que era o segundo desafio que ia se colocar imediatamente como se colocou, em que nós tínhamos que nos desdobrar, simultaneamente, nas tarefas enormes de construção partidária, mas, ao mesmo tempo, já governando cidades porque, desde a primeira eleição, o PT começa já, num primeiro momento, apenas uma ou duas cidades, mas já logo em seguida houve um salto e na outra eleição, mais geral, já saímos com um número muito grande de vereadores, alguns prefeitos e uma quantidade surpreendente de votos. Surpreendente para nós porque sabíamos das dificuldades financeiras, a ausência de estrutura que o partido tinha, uma deficiência enorme, mas, ao mesmo tempo uma convicção, uma fé muito forte de que nós éramos necessários [...] de que o Brasil precisava de um partido com essas características (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Fechando suas palavras e procurando avaliar os primeiros passos do Partido dos Trabalhadores, afirma Raul Pont (2013):
Se num primeiro momento, a gente foi um pouco duro, um pouco inflexível, um pouco reafirmador de um projeto, de uma proposta, de uma ideia é porque a conjuntura era difícil. As coisas todas eram muito difíceis, então, nós tínhamos que para ocupar um espaço, nós tínhamos, também, que, de certa forma, radicalizar um pouco além do que pretendíamos ou gostávamos, no sentido de construir algum apoio e aliança sem a qual tu não progride, não avança e não consegue fazer nada mesmo por não ter legitimidade para tanto. Por isso, a gente se joga na atividade política (Entrevista realizada pela autora em 16.05.2013).
Leôncio Martins (1989) refere-se ao PT como um partido de assalariados, com um peso forte de um setor de trabalhadores industriais e com uma liderança de sindicalistas e de intelectuais de classe média, o que não é algo inusitado na história europeia; contudo para a história brasileira é uma novidade. Isso, de certa maneira, corrobora o que foi dito por Raul Pont (2013) que ressaltou que o PT: “ele nasce de vertentes distintas (re) aglutina pessoas que tiveram militância nos anos 60 por caminhos variados”.
Nessa perspectiva, o fato do PT não ter a pretensão de ser um “partido da classe operária”, mas um partido de assalariados e sem uma ideologia socialista muito rígida, isso lhe possibilitou ampliar as suas bases de recrutamento e uma maior integração na sociedade brasileira, ao contrário do que acontecia na maioria dos partidos de esquerda que adotavam o marxismo como ideologia oficial.
Embora houvesse consenso em relação à criação do novo partido, havia muitas divergências no que dizia respeito à sua natureza, pois a tendência que tinha como principal liderança o Lula, não estava de acordo que se criasse um partido marxista e/ou leninista. Isabel Ribeiro de Oliveira (1988, p. 130), em seu estudo sobre as origens do Partido dos Trabalhadores, cita um discurso de Lula (1981), no qual ele se referia ao partido como:
[...] o Partido dos trabalhadores que nós acreditamos é um partido neutro, com ampla liberdade, com amplo pluralismo ideológico, um programa aberto, um partido de massas que tenha como fim primeiro abrir um espaço político ao trabalhador.
Conforme a análise de Leôncio Martins (1989, p. 28), se não fosse a presença na composição do PT dos metalúrgicos e da liderança carismática de Lula, o partido teria se transformado em mais um dos múltiplos pequenos grupos de marxistas existentes no país ou um partido católico democrata-cristão ou social-cristão. O lado singular do PT é a união, numa mesma organização, de católicos e marxistas de todas as tendências. Nesse sentido, o Partido dos Trabalhadores seria “a expressão mais pura da sociedade civil na luta contra o
autoritarismo de um estado dominado por militares e de uma sociedade capitalista” (MARTINS, 1989, p. 7).
4.4 A RECONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA E EMERGÊNCIA DA QUESTÃO DA