5. TEHLİKELİ VE ÇOK TEHLİKELİ MESLEK GRUPLARI İÇİN MYK
5.4 Tehlikeli Ve Çok Tehlikeli Mesleklerde, Mesleki Yeterlilik Belgesi Alan
Terminada a leitura de cada ensaio, podemos, finalmente, elencar suas características individuais em uma visão ampla e avaliar com maior propriedade até que ponto o ensaísmo lamartineano invade o terreno literário. Para isso, podemos organizar o campo global da recepção de Sertões do Seridó em três categorias: reincidência de trechos, organização e presença de outros gêneros.
Das “linhas orientadoras” na escrita dos cinco ensaios, que nos elucidam como o autor lida com a oscilação de objetividade, procura se organizar pelo diálogo e por dados materiais ligados aos temas, e ainda equilibra de formas diferentes a escrita criativa, aparecem outros níveis de informação que são alcançados com a leitura integral da coletânea.
O primeiro, e talvez mais evidente, surge pelo “eco” da definição do Seridó, sua história e seus habitantes. Não é linear sua apresentação, e nosso primeiro contato é com a imagem d'O açude (p. 23), que gera um deslumbramento pelo espaço. A prosa poética encontrada nesse trecho é seguida pela escrita mais séria das hipóteses do início do represamento pelos seridoenses, que se encontram em constante comparação com a história de outras regiões e povos. Com isso, a atmosfera criada manifesta mais lacunas em branco, tornando a apresentação nebulosa.
É no decorrer de Açudes dos sertões do Seridó (p. 17) que a impressão de unidade é possível. Configurando estudo mais isolado do programa geral de contemplar o sertão pelas palavras, seu desenvolvimento serve à condição de recorte e, sozinho, definiria pouco o Seridó, e muito do “sertão de nunca mais”, este presente nas lembranças do autor.
O mesmo não ocorre em Conservação de alimentos nos sertões do
Seridó (p. 49) que, fazendo uma releitura da organização de Os sertões, assume por
um lado as divisões euclidianas da terra, do homem e da luta, e discorre de forma mais concreta sobre a região. Porém, exceto pelo aumento de descritivismo e o tom afastado, Lamartine permanece em um estilo de identificação com a terra. Escolhas lexicais típicas acusam o espaço do autor sendo o mesmo que está em pauta:
Daqueles mundos brotou o algodão branco-cremoso, fibra de 34/38 mm e arbóreo – que ainda ontem era bem de raiz nas heranças sertanejas. De
semente nua, escura, que é ver o estrume do mocó, donde, talvez, seu apelido – bem pode se alastrar por imensas áreas de ecologia favorável no Polígono, de vez que, ao contrário dos competidores, não reclama solo irrigado para produzir. E a indústria – dizem os economistas – tem fome de fibras longas. Se assim é, carecemos de que as estações experimentais não sejam capadas em suas verbas, para que possam oferecer sementes selecionadas ao fomento e à engatinhante extensão agrícola; e a esperança de que estas induzam o matuto a cultivá-lo segundo as recomendações técnicas. (FARIA, 1980, pp. 54 - 55)
Mesmo que o trecho inicie por “Daqueles mundos”, a distância é quebrada por “carecemos”, não mencionando o vocabulário que indica certa identidade linguística do autor: “donde”, “capadas” e “matuto”.
O terceiro ensaio, Algumas abelhas dos sertões do Seridó (p. 101), diminui a contextualização para duas páginas, resumindo a parte não direcionada para o tema em apenas quatro breves parágrafos:
Dezesseis municípios, ao Sul do Estado, formam a região do Seridó no Rio Grande do Norte.
Com uma área de 9.384km2, i.é, oito vezes maior do que o Estado fa Guanabara (1.171 km2) e uma população de 144.293 hab., apresenta o Seridó uma densidade de 15,4 hab/km2.
A topografia da região é ondulada, devendo a altitude média estar, pouco mais ou menos, na cota dos 250m. O solo é compacto, raso, erodido e pedregoso, dificultando o enraizamento das plantas. A vegetação – caatinga – é espinhenta, arbustiva, rala, dominando as cactáceas e outras formas xerófilas.
Os invernos são escassos e irregulares, detendo o posto de Currais Novos a menor média do Estado: 398.3 mm/anuais contra 1.450.2 da cidade de Natal. (FARIA, 1980. p. 107)
A modificação não é justificada somente pelo fôlego curto do texto, mas sim por seguir a mesma tendência do primeiro ensaio, e terminar em um meio caminho entre os dois anteriores. Parece seleciona os dados fundamentais e logo virar o seguimento para o tema:
a menor média do Estado: 398.3 mm/anuais contra 1.450.2 da cidade de Natal.
O gentio que por ali vagava antes do colonizador requerer terras, dela tomar posse e situar a estaqueada dos currais, já caçava abelhas – verbo arremedado pelo homem primitivo nos matos dos quatro cantos do mundo. (FARIA, 1980, p. 107)
Entretanto, sua relevância aumenta ao lermos a introdução do ensaio seguinte, A.B.C. Da pescaria de açudes no Seridó (p.121):
Abarcam as ribeiras do sertão seridoense, no Rio Grande do Norte, os municípios de Acari, Caicó, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Cruzeta, Currais Novos, Florância, Jandim de Piranhas, Jardim do Seridó, Jucurutu, Ouro Branco, Parelhas, São João do Sabuji, São Vicente e Serra Negra do Norte – medindo 9.544 km2 que vem a ser 18,4% da área total do Estado (51.105 km2).
O censo de 1950 contou, naquelas ribeiras, 137.424 sertanejos, dando assim 15 hab/km2, i. é, 14,19% da população do Rio Grande do Norte. (FARIA, 1980. p. 125)
Do terceiro para o quarto texto da coletânea, percebemos textualmente a volta do tempo, pois na descrição do Seridó os 14 municípios voltam a ser 15 e a densidade demográfica diminui, o que provavelmente passaria despercebido em uma leitura rápida. Este texto também introduz o assunto após contextualizar o sertão, o que faz com algumas informações diferentes (como o calendário das secas).
E, com o quinto ensaio, todos as repetições ao longo das demais contextualizações parecem se organizar em escrita definitiva. Entramos no Seridó pelos açudes, e os vemos em todos os ensaios como ondas da primeira discussão. Lemos várias vezes sobre os ciclos do couro e do algodão, conhecendo histórias paralelas uma vez, sabendo informações mais precisas em outra. Revisitamos a colonização até a escravidão sair de seu silêncio no quarto ensaio e assumir o primeiro plano no quinto. Revemos, aliás, alguns sertanejos em mais de um trecho, como o “mestre de parede”.
A extensão e o alcance do espaço no último estudo nos faz reler nele os ensaios anteriores. O começo dos sertões do Seridó (p. 159) é também o seu fim.
Todas as repetições que, cronologicamente, deveriam ser posteriores ao ensaio da caça passam a ressignificá-lo. E, pelo eco gerado desde a primeira página, a “organização” acaba ganhando propriedade.
Isso, dito de outra forma, difere o caminho traçado de seu destino: os ensaios da concepção sertaneja do autor, junto de suas intervenções pessoais, movimentam o fluxo da memória e história que se evidencia ao longo da coletânea, mas o caminho cronologicamente invertido da apresentação dos textos faz, em certo nível significativo, o que o autor deseja: nós voltamos ao passado, independente da sombra de modernidade que se agita em cada recordação.
Com a possibilidade de identificar na organização uma construção estética, não meramente estilística, mas familiar à criação com fins expressivos,
Sertões do Seridó se aproxima outra vez do modo literário. Os trechos identificados
como contos, descrições poéticas, excertos da poesia popular, descrições requintadas e a criação narrativa na ausência de documentos podem ser, dessa forma, lidas como um todo significativo, não meramente “arquivado” em uma nova publicação.
Por esse caminho, a coletânea junta modos ensaísticos diversos em não apenas um arranjo diferente da obra do autor, mas facilita sua leitura literária como parte da tradição norte-rio-grandense. Lamartine encontra-se na cadeira dos mais importantes ensaístas potiguares que tratam do sertão, espaço que dificilmente seria ocupado por outros escritores contemporâneos ao seridoense, pois mesmo Cascudo preferencia a cultura litorânea, fazendo história partindo de Natal.