Um dos principais insigths de Lask foi observar que há uma oposição irreconciliável entre a vivência (Erleben) da forma do objeto e o conhecimento (Erkenntnis)376 do objeto, mas
não um abismo ontológico entre ambos, como se fossem duas dimensões independentes. Tal como a teoria do juízo de Rickert, que concebe o juízo como um ato prático de tomada de posição imanente às nossas vivências, também para Lask o conhecimento não é algo fora da vida. Porém, ao contrário de Rickert, que vê no juízo a instância a priori dos valores, para Lask a validade se dá originalmente na vivência e só derivadamente na estrutura judicativa do conhecimento.
A vida, em sua vivência, é a possibilidade de experiência da validade, a validade original do sentido, ou seja, o objeto enquanto conformação (Bewandtnis) entre forma e material. Independente de qualquer instância subjetiva, da espontaneidade transcendental ou de atos intencionais, vivemos dentro da verdade in concreto da forma lógica. Experienciamos, numa vivência imediata, o sentido de conformação do objeto, mas não o conhecemos. Vivenciar a validade da forma (o não-sensível) é o que possibilita viver dentro de uma realidade, ter acesso às coisas, aos acontecimentos, às concatenações causais, ao que é belo, ao que é ético e, inclusive, a objetos lógicos. Vivenciamos tanto objetos sensíveis, por exemplo, uma cadeira, quanto objetos não sensíveis, por exemplo, o ser da cadeira. Isso tudo de modo independente de juízos, atos intencionais ou de qualquer atividade subjetiva.
A vivência imediata dá-se em oposição a qualquer reflexão como num puro absorver-se na especificidade de um não sensível, por exemplo, o dedicar-se simples ao ético, ao estético, ao religioso, sem que seja de qualquer modo transcendida ou elevada à consciência, sem que seja colocada diante da reflexão, sem que seja encontrada ou captada numa claridade; (…) A vivência imediata é uma simples “vida” e um perder-se num não sensível e, por isso, uma atitude de não conhecer, de não-saber, de não-refletir, simplesmente ingênua, de modo algum perturbada por “pensamentos” e claridade, uma vivência que não “sabe” isto que “faz” ou “vive”.377
376
LPK, 1910, p. 87 e 209.
377 LPK, 1910, p. 191: “Das unmittelbare Erleben stellt sich im Gegensatz zu jeglicher Besinnung als reines
Aufgehen im Spezifischen eines Nichtsinnlichen dar, beispielsweise als bloße ethische, ästhetische, religiöse Hingabe ohne irgendein Darüberhinausgehn und ins Bewußtsein Erheben, vor die Reflexion Hinstellen, Finden und Erfassen einer Klarheit darüber; (…) Das unmittelbare Erleben ist ein bloßes “Leben” und Sichverlieren im Nichtsinnlichen und darum eben ein Nichterkennen, ein unwissendes, unreflektiertes, insofern naives, duch keinerlei “Gedanken” und Klarheit darüber gestörtes Verhalten, ein Erleben, das nicht “weiß”, was es “tut” oder “lebt”.
Diferente de Kant, para quem havia um abismo entre o conhecimento de um lado e a coisa em si do outro, para Lask a oposição está entre o conhecimento e a vivência. Ou seja, a coisa em si de que fala Kant quando pensa naquilo que estaria por trás do fenômeno, é, do ponto de vista de Lask, envolvida por formas lógicas, podendo ser imediatamente vivenciada em toda a sua significância. O que não é possível para Lask é conhecer o sentido original vivenciado na coisa em si, pois, como se mostrará mais à frente, o conhecimento é um tipo especifico e modificado de vivência, que rompe com a imediaticidade da vivência original do objeto (Gegenstand) constituindo uma objetividade (Objektualität) derivada, que caracteriza o sentido cognitivo. Na vivência da validade vivenciamos o material do objeto sem esclarecer o seu revestimento categorial. A coisa em si de que fala Kant não é transcendente ao logos (metalógica), mas apenas ao conhecimento:
De fato, a objetualiade da coisa em si é conduzida de maneira copernicana ao seio do lógico, pois qualquer coisa é imanente ao logos.
(...)
A transcendência da coisa em si nada tem a ver com metalogicidade. Mas então no que consiste ela? Compreendemos isso quando se aborda a oposição metafísica dos dois mundos não mais a partir do problema teórico da logicidade, mas a partir do problema teórico da cognoscibilidade. Pois o que Kant defende não é o alogicismo, mas sim o agnosticismo. A forma categorial constitutiva em relação ao suprassensível [coisa em si] permanece fechada ao nosso conhecimento, o suprassensível não se nos revela em sua afetação categorial, não se deixando conduzir ao fórum do conhecimento e permanecendo incognoscível; isso mostra que ele não é transcendente ao logos, mas apenas transcendente ao conhecimento.378
Aqui é preciso chamar atenção para as dificuldades deste conceito de vivência. Apesar do desenvolvimento das filosofias da vida na virada do século XX, Lask de maneira alguma está sugerindo uma forma de vitalismo irracionalista, como aqueles praticados pelas filosofias da vida e tão ferrenhamente combatidos pelo neokantismo.379 A vivência de que fala Lask não 378 LPK, 1910, p. 246: “Sogar die Gegenständlichkeit der Ding an sich ist als etwas Logos-Immanentes
kopernikanisch ins Logische hineingezogen. (…)
Die Transzendenz der Dinge an sich hat also nichts mit Metalogizität zu tun. Worin aber besteht sie dann? Das erfährt man, wenn man an den metaphysischen Gegensatz der beiden Welten nicht mit dem theoretischen Problem der Logizität an sich, sondern mit dem theoretischen Problem der Erkennbarkeit herantritt. Denn zwar nicht den Alogismus, wohl aber den Agnostizismus hinsichtlich des Übersinnlichen hat Kant vertreten. Die konstitutive Kategorialform fürs Übersinnliche ist unserm Erkennen verschlossen, das Übersinnliche erschließt sich uns nicht in seiner kategorialen Betroffenheit, läßt sich nicht vor das Forum des Erkennens ziehen, ist unerkennbar; ist, so zeigt sich jetzt, wenn auch logostranszendent, so doch erkenntnistranszendent.”
379
A crítica mais detalhada e contundente contra as filosofias da vida virá depois da morte de Lask com o livro de Rickert Die Philosophie des Lebens de 1920, que tem como principais alvos Nietzsche, Dilthey, Simmel, William James e Bergson, e que de modo geral sintetiza as críticas das escolas neokantianas. Um dos principais argumentos de Rickert é o de que as filosofias da vida não passam de uma moda positivista, que em sua ingenuidade metodológica trocam a fé na mecânica clássica dos primeiros positivistas por uma versão
deve ser pensada em termos biológicos, nem reduzida à vivência sensível, mas entendida como um deixar-se absorver na validade da forma. Buscando descrever esse fenômeno Lask lança mão do termo Hingabe,380 que literalmente pode ser traduzido por “abandono” ou
“entrega”, ou seja, uma imersão imediata nas categorias antes de sua determinação reflexiva. Em nossas vivências, antes de qualquer comportamento cognitivo e independente da consciência, estamos originalmente “entregues” (hingegeben) e absorvidos na validade da forma. É o que acontece, por exemplo, na experiência estética ou ética, nas quais podemos vivenciar toda a significância de uma obra de arte ou de uma ação moral independente de qualquer comportamento cognitivo ou de consciência do objeto.381 Diferente de Kant, as
formas categoriais não são impostas ao material numa síntese subjetiva, mas são determinadas pelo material na imediaticidade de nossas vivências. Trata-se de uma determinação categorial a partir do material da experiência e não a partir de formas a priori da intuição e do entendimento.382
Uma maneira de lançar um pouco de luz sobre esse conceito de vivência enquanto
Hingabe é considerá-lo como uma versão não consciencialista e não intencional do conceito
de intuição (Anschauung) defendido por Husserl nas Investigações Lógicas. Tal como Husserl expande o conceito de intuição para além da sensibilidade, algo parecido faz Lask com sua noção de vivência. Do mesmo modo que para Husserl a intuição sensível (percepção) e a intuição categorial são espécies de intuição, também para Lask a vivência sensível e a vivência não sensível são modos de se deixar absorver na validade da forma. Mesmo sendo a mais fundamental das vivências, a vivência sensível é apenas um tipo de vivência. Apesar de não citar Husserl, essa proximidade com o conceito de intuição das Investigações Lógicas pode ser textualmente confirmada por uma passagem no capítulo final LPK, na qual Lask, comentando certo “significado ampliado de intuição” (erweiterten Bedeutung von
Auschauung), observa que “é permitido falar da sensibilidade como uma subespécie sensível
da intuitividade, como uma intuitividade sensível, que se coloca ao lado daquela que podemos
vitalista desta, ou seja, por uma crença numa dinâmica orgânica como aquilo que estruturaria a realidade possibilitando a explicação não só da vida, mas também de fenômenos psíquicos, sociais, históricos, e até mesmo, para os mais místicos, dos fenômenos naturais em geral, culminando numa cosmologia. (Cf. RICKERT, Heinrich, Die Philosophie des Lebens. Tübingen: J.C.B Mohr, 1920, p. 17-34.) Versões desse mesmo modelo, na segunda metade do século XX, são as teorias cibernéticas, como as desenvolvidas por Norbert Wiener e pela teoria dos sistemas de Niklas Luhmann.
380 LPK, 1910, p. 13, 56, 80, 102, 122, 129, 132, 188, 190, 193, 198 e 203-216. 381
LPK, 1910, p. 191.
382
Sobre esse modo de determinação categorial “von unter” em oposição ao esquema “von oben” de Kant, veja-se VIGO, Alejandro. Sinn, Wahrheit und Geltung: Zu Heideggers Dekonstruktion der intensionalistischen Urteilslehre. Archiv für Geschichte der Philosophie. Vol. 86, 2004, p. 184.
chamar de intuitividade não sensível”.383
Mas se por um lado a concepção de vivência de Lask pode ser aproximada da noção de intuição de Husserl, por outro lado, o fato de Lask conceber a vivência de modo não consciencialista e independente de atos intencionais o aproxima daquilo que será elaborado por Heidegger como compreensão (Verstehen) ontológica.384 Assim, do mesmo modo que é
possível tentar esclarecer o conceito de vivência de Lask desenterrando as influências das
Investigações Lógicas, também é possível esclarecê-lo buscando as suas influências no
pensamento de Heidegger. O modo como Lask descreve o fluxo de nossas vivências como uma absorção original na validade da forma será sugestivo para a elaboração de Heidegger da compreensão de ser-no-mundo como uma estrutura de sentido original fundada no modo pragmático hermenêutico de nossa lida cotidiana com entes, pessoas e com nós mesmos dentro de um mundo. Isso mostra também que, apesar da obscuridade, a concepção de vivência de Lask é peça chave para se compreender como a fenomenologia husserliana é transformada na ontologia existencial de Heidegger.
Ao localizar na vivência a instância original do sentido e isolá-la da subjetividade, Lask está enxergando as primeiras luzes de um “mundo primordial”,385 um horizonte de
sentido que não pode ser reduzido às formações cognitivas ou à consciência, como sempre se fez na história da filosofia, e que na verdade é condição de possibilidade para qualquer comportamento subjetivo. Apesar de Lask, enquanto pensador de transição, não se preocupar com a exploração desse novo mundo, a importância do mesmo, juntamente com a noção de vivência do sentido, é absolutamente central para boa parte da filosofia ao longo de todo o século XX. Seja por influência direta, seja por desenvolvimento autônomo, é o que se constata, por exemplo, no ser-no-mundo de Heidegger, no horizonte hermenêutico de Gadamer, no mundo da vida de Habermas, nas formas de vida do segundo Wittgenstein, sem contar as versões ancestrais ainda presas ao paradigma da consciência, como é o caso do próprio Husserl, que concebe os atos intencionais como vivências intencionais, e Dilthey, que
383 LPK, 1910, p. 217: “Sinnlichkeit als sinnliche Unterart der Anschaulichkeit, als sinnliche Anschaulichkeit
fassen, neben der dann von einer nichtsinnlichen Anschaulichkeit zu reden gestattet ist.”
384
Cf. HEIDEGGER, Martim. Die Idee der Philosophie und das Weltanschauungsproblem (WS 1919-20). In: Zur Bestimmung der Philosophie, Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, (GA 56/57), 1987, p. 63, 66, 75; HEIDEGGER, Martim. Grundprobleme der Phänomenologie (1919-20). Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, (GA 58), 1993, p. 138, 146, 163, 185, 240; HEIDEGGER, Martin, Sein und Zeit. op. cit. §§ 31 e 32.
385 A expressão “mundo primordial” é de Gabriel Motzkin: MOTZKIN, Gabriel. Emil Lask and the Crisis of
Neokantianism. The Rediscovery of the Primordial Word. Revue de Métaphysique et de Morale, nº 2/1989. p. 171-190.
lança mão da vivência para dar conta de uma experiência interna capaz de apreender a significância da realidade histórica como base para as ciências do espírito.