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4.9. Omuz İle İlgili Yeti Yitimi Ve Günlük Yaşam Aktivitelerinin Değerlendirilmes
4.9.3. Tedavi sonrası EGZ ve EGZ+KT, Wİİ ve Wİİ+KT, EGZ ve Wİİ grupları arası omuz ile ilgili yeti yitimi ve günlük yaşam
Grupos sociais dominantes, em geral, seriam detentores de diferentes formas de capital. Não basta somente ler os grandes nomes da literatura, apreciar a música clássica e as artes plásticas, ouvir os melhores concertistas ou frequentar museus, é necessário também possuir boas condições materiais de vida, ter um sobrenome “respeitável” e cultivar relações com indivíduos que gozem de prestígio social ou que, em outras palavras, tornem o seu próprio capital social127 e o de sua família rentável. Assim, do mesmo modo que investem em capital cultural, os indivíduos que ocupam as posições mais elevadas na hierarquia social, não necessariamente de uma maneira consciente, também tenderiam a cultivar “boas” relações sociais.
Nessa direção, notamos que, nas Memórias, não são poucas as menções de Pedro Nava a pessoas que estiveram ligadas à sua família de diferentes maneiras. Em muitas das ocasiões da escrita, o memorialista procurou, por meio de diversas características e propriedades, dar forma às personagens apresentando seu o nome completo. Com minúcia e grande riqueza de detalhes, em outros momentos, as personagens aparecem, nas páginas das Memórias, a partir de outro tipo de caracterização: “[...] Possuo uma fotografia feita pelo seu Lemos, outro português amigo de meu Pai, tirada em Santa Clara a 12 de janeiro de 1903, na festa de comemoração, parece que dos vinte e cinco anos, do afazendamento de seu Carneiro128 na região, e que vinha, pois, de 1878. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.264).
127 De acordo com BOURDIEU (1998, p.67-68), capital social é o conjunto de propriedades, recursos (atuais
ou potenciais) ligados à posse de uma rede durável de relações “mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento”. Os integrantes dessa rede de relações apresentam características comuns (do ponto de vista econômico, cultural, simbólico) e se unem por meio de “ligações permanentes e úteis [...] fundadas em trocas materiais e simbólicas”. Operando com a noção de capital social, pode-se apreender efeitos produzidos pela ação das relações sociais, “visíveis em todos os casos em que diferentes indivíduos obtêm um rendimento muito desigual de um capital (econômico ou cultural) mais ou menos equivalente, segundo o grau em que eles podem mobilizar, por procuração, o capital de um grupo (família, antigos alunos de escolas de ‘elite’, clube seleto, nobreza, etc.) mais ou menos constituído como tal e mais ou menos provido de capital”. Vale ressaltar ainda que uma rede de relações sociais, a partir da qual se poderia obter lucros materiais e simbólicos, não é um dado natural, social. Conforme o sociólogo, produto de estratégias de investimento orientadas consciente ou inconscientemente, ela é resultado de um trabalho de instauração e manutenção para (re)produzir relações duráveis e úteis; constitui-se “por um ato social de instituição (representado, no caso do grupo familiar, pela definição genealógica das relações de parentesco que é característica de uma formação social)”.
128 “O proprietário de Santa Clara era o português Manuel da Silva Carneiro, íntimo de meu avô e padrinho
de casamento de minha Mãe [...]” (NAVA, BO, 2002, p.236). “[...] Manuel da Silva Carneiro. Foi esse lusíada, dono da Fazenda de Santa Clara, que levou meu Pai para clinicar no povoado do Sossego, distrito de Santana do Deserto. Caminho Novo” (p.220).
Se, em alguns momentos, as personagens de Nava não são apresentadas por meio de seus nomes completos, os quais em geral evidenciam de imediato sua “alta” posição social, outros elementos caracterizadores, que igualmente cumprem tal função, são utilizados pelo escritor. Esse é o caso, por exemplo, de um dos amigos de seu pai, morador de uma região próxima de Juiz de Fora. Apesar da aparente simplicidade que seria conferida aos homens com quem José Nava construiu relações sociais em Santa Clara, tendo em vista o emprego da expressão coloquial “seu”, o sujeito-narrador não se furta de caracterizar o “seu Lemos” como “português” e “amigo” de seu pai. José Nava e “seu Lemos” estão juntos, em uma “festa”, como bem mostra a fotografia que o escritor utiliza para desencadear a recordação do evento. Trata-se da festa de aniversário “dos vinte e cinco anos” do “afazendamento de seu Carneiro” em Santa Clara, outro português que dispensaria, nesse momento das Memórias, apresentações, visto que, páginas antes, o “íntimo” de Luís da Cunha,129 avô materno de Nava e “padrinho de casamento” de sua mãe, já fora apresentado. Como passaram um tempo morando na Fazenda de Santa Clara, nada seria mais natural que Diva e José comemorarem, junto com Manuel da Silva Carneiro, a ocupação daquelas terras desde a segunda metade do século XIX.
As relações sociais entre José Nava e “seu Carneiro”, inicialmente, haviam sido motivadas pelo exercício da profissão de médico pelo pai de Pedro Nava. José, recém- casado e ainda no início de sua carreira, tinha um percurso a seguir:
Esse era o processo do médico se fixar no interior. Apadrinhado por um fazendeiro que lhe dava o partido de sua fazenda e mais o da dos amigos da redondeza. Dessa forma já se chegava com clínica feita e área de atividade demarcada. Era só esperar o dinheiro. Meu Pai, tão-logo terminou a lua-de-mel, recebeu os clientes da mão do seu Carneiro e transferiu-se para o Sossego. O seu, dito, é que acabou, pois via doentes dia e noite e tinha sempre arreado o cavalo ou atrelada a carruagem pra atender os chamados. Esses vinham a qualquer hora, com chuva ou bom tempo e lá saía o moço para as urgências do vasto círculo em que ficavam Cotegipe, Ericeira, Chiador, Pequeri, Matias e mais lugarejos, fazendas e sítios de entre os trilhos da Central e da Leopoldina e mesmo, à direita dos últimos, numa fatia do Mar de Espanha. Todo esse chão meu Pai
129 Ele nascera a 31 de agosto de 1806 e morrera no dia 25 de outubro de 1885. Pai de Maria Luísa, Luís da
Cunha teria vindo ao mundo em Pitangui ou em Catas Altas, no “centro de Minas onde vivia sua gente” (NAVA, BO, 2002, p.103). Ele tinha 29 anos quando lhe nascera o primeiro filho em Santa Bárbara e vivera no lugar entre os anos de 1835 e 1850. De acordo com a narrativa de Pedro Nava, o bisavô teria em Santa Bárbara uma situação “[...] remediada ou mesmo folgada já que morava numa das melhores casas da cidade [...]” (p.103). De Santa Bárbara, Luís da Cunha foi morar em Sabará, levando consigo a mulher e os filhos. Lá permaneceu entre 1855 e 1858 (p.106), antes de se mudar para o lugar que seria mais tarde a cidade de Juiz de Fora.
bateu a burro, besta, cavalo, trole e velocípede de linha. [...] (NAVA, BO, 2002, p.220. O destaque em itálico é do autor.).
Não apenas fazendeiros, mas também políticos compunham a rede de relações do pai de Pedro Nava, a qual se estendia ao restante da família:
Outra casa acolhedora era a do Dr. Duarte de Abreu. Meu Pai tinha fascinação por ele e acompanhava-o na política municipal. Ele respondia com aquela amizade que foi uma das heranças que minha Mãe, meus irmãos e eu tivemos de meu Pai. Morto este e quando o Dr. Duarte mudou-se para o Rio, nunca vim a esta cidade que não fosse visitá-lo a seu cartório na Rua do Rosário. Foi nesse cartório, que, rapazola, vim a conhecer Afrânio de Melo Franco – sem que ele ou eu percebêssemos a trama do destino que nos levaria a um último encontro, à hora de sua morte, quando o assistimos Agenor Porto e eu. [...] Mas... voltemos a Juiz de Fora e ao tempo de meu Pai diarista da casa do Dr. Duarte. [...] Este era Presidente da Câmara Municipal desde 1905 e meu Pai era seu Diretor de Higiene. [...] (NAVA, BO, 2002, p.268).
Dr. Duarte de Abreu, político em Juiz de Fora e amigo de José Nava, manteve os laços de amizade com Diva e seus filhos depois da morte do pai do memorialista. Essa amizade rendeu a Pedro Nava o encontro com Afrânio de Melo Franco. Tal e qual o pai, Pedro Nava soube manter seus bons relacionamentos.
Conforme o que se pode observar nas Memórias, posições políticas aproximavam o Dr. Duarte e José Nava, que, na família, tinha parentes ligados à vida política de Juiz de Fora. Constantino Paletta, marido de Berta, tia materna de Pedro Nava, era advogado e visava a horizontes mais amplos na cidade: “[...] mesmo sem morte de Presidente, cedo ou tarde o Andrada estava destinado a tomar conta da posição. Praticamente não tinha adversário senão o Dr. Duarte e o meu tio Constantino Paletta.130 [...]” (NAVA, BO, 2002, p.269).
Pedro Nava, em sua infância em Juiz de Fora, antes da mudança para o Rio de Janeiro, convivia com a “boa gente do lugar” graças também às escolhas que Diva fazia no seu cotidiano. A opção cuidadosa da mãe em relação ao lado da rua em que se deveria caminhar, o lugar das compras do dia-a-dia, as pessoas com quem se conversaria eram
130 A respeito de Constantino Paletta, Pedro Nava ainda escreveu “Hábil causídico, homem afetando uma
honradez exemplar, extremamente zeloso no interesse de seus constituintes, bom amigo quando era amigo, o Paletta foi um cidadão prestante a quem muito ficou devendo Juiz de Fora e que mereceu a placa com seu nome que figura num dos logradouros. Filho admirável, irmão carinhoso, pai como os melhores – esse ser contraditório foi genro detestável e detestado, cunhado odioso e odiado. Além de forreta, ele era, como aquele Conde de Gouvarinho, do Eça, ‘maçador e muito pequinhento [e] quando começava a repisar, a remoer, não se podia aturar’” (NAVA, BO, 2002, p.272).
determinados por Diva de acordo com as suas próprias convicções e as imagens que a mãe de Nava tinha de lugares e pessoas da cidade:
O caminho para a casa de minha avó – do nosso 142 ao 179 – eu o fazia de mãos dadas com minha prima e minha Mãe. Essa dirigia nossos passos com cautela de navegadora. Vínhamos pelo lado par, até a casa do Dr. Beauclair [...]. Desse ponto enviesávamos para o lado ímpar, diretos ao armazém do seu Cristóvão de Andrade, que minha Mãe, feitas as encomendas do que queria, deixava para alcançar novamente a numeração par. Porque tirante essa venda e a casa do Dr. José de Mendonça, o resto do quarteirão era ominoso. Primeiro era o Colégio Mineiro, onde professoras huguenotes desencaminhavam moças católicas, do mesmo jeito que os mestres do Granbery os rapazes do seu Rangel e do Dr. Martinho. Minha Mãe achava aquilo um desaforo. Vinha depois a casa do Barão, cujas calçadas eram evitadas por todas as pessoas que temiam remoques, injúrias e até águas sujas na cabeça. [...] E logo adiante ficava, misteriosa e muda, a infame Maçonaria. Outro desaforo, na opinião de minha Mãe. [...] ela tornava a demandar o quarteirão fronteiro para deter-se um pouco na esquina de Imperador e tomar a bênção a sua madrinha Mariquinhas Santos, prosear com a filha desta, Matildinha, sua grande amiga, mulher do Almada Horta. [...] parada na casa das Rosa da Costa. [...] era um cochichar sem fim das amigas. Dona Oldina, Dona Julina, Dona Duília, Dona Irene – incorruptíveis e exigentes em honra – sua amizade era um atestado de boa conduta e sua indiferença ou inimizade – a colocação no pelourinho. Santas Senhoras! [...] (NAVA, BO, 2002, p.239).
As “más” influências do Colégio Mineiro, onde as professoras (de)formariam “moças católicas” eram evitadas por Diva. O afastamento da mãe de Pedro Nava do espaço do Colégio representaria, ao mesmo tempo, sua crença nos princípios da Igreja Católica e a repulsa por instituições bem diferentes da Igreja como é o caso da Maçonaria, da qual fazia parte seu marido. As atenções de Diva voltavam-se, desse modo, para as mulheres que julgava de “bom” caráter, “exigentes em honra”. Sendo assim, o contato com as “santas senhoras” de Juiz de Fora representaria para a sociedade juizforense (e para a própria Diva) o reconhecimento de que a amizade ali mantida erguia-se apenas entre pessoas de “boa conduta”. Nesse sentido, vale notar que Diva está, como personagem do ramo materno da família, entre os membros que simbolizam o lado conservador e tradicional do grupo.
Como em Juiz de Fora, também a vida no Rio de Janeiro, entre os anos de 1910 e 1911, era cercada de pessoas influentes: “[...] para mim, a figura mais impressionante era a do agigantado Dr. Belisário Fernandes Távora. Vinha por causa de tio Salles. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.308). José Nava e Antônio Salles, personagens marcantes na formação de Pedro Nava, não apenas mostrariam ao menino, por meio de sua próprias práticas, como e para que ler e escrever diferentes tipos de texto, em diversas ocasiões, mas
também o ensinariam, no dia-a-dia das conversas de uma casa “bem” freqüentada, como manter “boas” amizades:
[...] o Dr. Belisário, agindo junto ao Marechal Hermes (de quem foi Chefe de Polícia) e sendo elemento decisivo na fofoca que levou a Presidência da República a estimular e apoiar o movimento popular que deu com o Accioly em terra. Ao tempo dessas conspirações em Aristides Lobo, ele devia ir pelos seus quarenta e fumaça, pois nascera a 25 de maio de 1868, no Jaguaribe. Era bacharel formado no Recife, em 1892, e advogara no Amazonas antes de vir para o Rio. Vi-o várias vezes, depois, no seu cartório, que era uma espécie de clube de cearenses, como mais tarde o foi de mineiros, outro cartório, o do Dr. Duarte de Abreu. Esse também não faltava em nossa casa e quando ele entrava só ou com a Dona Albertina, em vez de falar mal do velho Accioly, metia-se a catana no Antônio Carlos, no João Penido, no Valadares e no Vidalzinho. Era a vez de Juiz de Fora. O Dr. Duarte, quando vinha para a Câmara, era nosso vizinho, pois sempre se hospedava com seu parente, o Major Mendes, à Rua do Bispo. Mais se mantinha o tom político da conversa, quando aparecia o Coronel Benjamim Liberato Barroso, nosso parente, secarrão mas preciso, ouvindo muito e falando pouco. Geralmente ficava fechado em copas, por trás de suas lentes de míope. [...] quando resolvia contar, era um manancial inesgotável da história política do Ceará que ele governara em 1892, como vice em exercício, e que o destino reservava para novo mandato, em 1914. [...] (NAVA, BO, 2002, p.309).
Chefes de Polícia, major, coronel, gente influente capaz de modificar os trâmites da política nacional entre fins do século XIX e os primeiros anos do século XX, bacharel, advogado, amigos do Norte do Brasil e de Minas, donos de cartório, políticos, essas eram as personagens que freqüentavam a casa de Aristides Lobo. O círculo familiar de Pedro Nava oferecia-lhe, entre seus sete e oito anos de idade, a convivência com intelectuais e políticos. Se não era no espaço do lar que o menino acompanhava as conversas dos adultos, era no cartório dos bacharéis que Nava podia ir formando a imagem da política nacional, que apareceria, mais tarde, em suas Memórias, na forma de conversas que ele ouviu quando criança.
No Rio de Janeiro, Pedro Nava, como observamos, por um ano apenas, pôde conviver intensamente com pessoas ligadas ao norte do país, ao Ceará, estado de onde vinha grande parte de seus parentes paternos:
Outro assíduo ao 106, também parente, primo-irmão de minha avó paterna, era o Dr. João da Cruz Abreu. Médico, formado pela Faculdade da Bahia em 1892. Clinicava no bairro e dobrava o ser bom profissional com a personalidade de historiador e colaborador da Revista do Instituto do Ceará. Era perseguido pela mesma asma tirana dos Costa Barros que cortava o fôlego de meu Pai e de minhas tias Dinorá e Alice. [...] Tinha a voz retumbante dos enfisematosos, era um coversador infatigável e cheio de verve. Impunha-se pelo critério, pela seriedade e por aquela austeridade simples que vim a tornar a admirar quando, mais tarde, encontrei nos caminhos da vida seus filhos Sílvio e Mário Froes de Abreu (NAVA, BO, 2002, p.310).
O “clube de cearenses” integrava também médicos, componentes da família paterna do memorialista, profissionais que, como José Nava, depois de trabalharem em outros estados, acabavam por optar pelo Rio de Janeiro para exercer a profissão. A formação de médico ou de advogado não impedia, conforme nos mostra a análise das Memórias, os parentes de Pedro Nava ou os amigos da família de se dedicarem a outras atividades, caminho também escolhido pelo próprio memorialista, que, médico, foi professor universitário, pesquisador, escritor. O parente João da Cruz, por exemplo, além da medicina, entregava-se também aos estudos históricos – mais uma influência sobre Pedro Nava na sua infância?
É importante notar como Pedro Nava, “cientista-médico”,131 observa as características de suas personagens. Muito frequentemente, o escritor liga certos traços de homens e mulheres que vai (re)construindo nas páginas do texto com características biológicas (e de personalidade) de ancestrais, com membros de gerações diferentes de uma mesma família. O Dr. João da Cruz Abreu sofria de asma como os demais parentes do ramo da família paterna do memorialista. “Critério, seriedade, austeridade simples” eram traços da personalidade do médico, repetidas, mais tarde, segundo Pedro Nava, nos filhos desse seu parente, com os quais o escritor pôde conviver. Esse tipo de herança, admirada por Nava, é bastante comum em seus parentes. Tais traços de personalidade, assim como outros, não apenas caracterizavam “a boa gente” da família com quem conviveu Pedro Nava pela vida afora, mas também se transformaram em um legado de que o escritor se apropriou:
[...] Duas vezes esnobei ou recusei desses cargos que são gulosamente cavados. Três vezes pedi demissão de outros que são disputados de unhas e dentes. Porque nessas horas eu estava envultado pelo 106 de Aristides Lobo. Por meu tio Antônio Salles, quando este recusou, porque recusou, a presidência da Padaria Espiritual; o lugar entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, que lhe oferecia Machado de Assis; o cargo de Adido Comercial em Londres e o de secretário particular do Embaixador, que lhe queria dar Nabuco; quando ele renunciou às funções de Secretário de Estado, no Ceará, no governo Bezerril, e quando desdenhou ser Deputado Federal por sua terra. Estava envultado por meu tio Modesto (no nome e no feitio) que duas vezes declinou ser Deputado Federal, pelo Espírito Santo e por Sergipe, ao tempo em que Bernardes fazia eleger Heitor de Sousa e Efigênio Salles por Estados colonizados pelo imperialismo mineiro. [...] (NAVA, BO, 2002, p.337-338).
131 Francisco Iglésias, no prefácio do livro de Antônio Sérgio Bueno, em que o pesquisador faz “uma leitura
da obra de Pedro Nava”, assim caracterizou o memorialista. Em seu estudo, BUENO (1997) explora as Memórias privilegiando não apenas o espaço, como o faria também, de maneira ainda mais focalizada, AGUIAR (1998), mas também o corpo e a figuração. Vísceras da memória tem, portanto, como eixo teórico, a visualidade (IGLÉSIAS, 1997, p.14).
Tanto em casa, como no espaço do trabalho, nas rodas de amigos, José cultivava a amizade com seus pares, colegas, médicos como ele:
Conquistados seus dois empregos, sem nenhuma proteção, devidos só ao seu esforço e capacidade mostrada em concurso público, meu Pai reaproximou-se dos colegas de quem se tinha distanciado durante o período de Juiz de Fora. Seus mestres, como Cipriano de Freitas, Carlos Eiras, Pedro Severiano, Antônio Rodrigues Lima e Miguel Couto, que fora paraninfo de sua turma. Velhos amigos, como Moura Brasil, Queiroz de Barros, Adolfo Luna Freire e João Marinho. Antigos companheiros de Faculdade, como Aloysio de Castro, Moura Brasil Filho, Bruno Lobo, Adelino Pinto e Alberto Farani. [...] (NAVA, BO, 2002, p.371).
Não podemos deixar de notar, portanto, que a Medicina no Brasil, assim como o Direito e a Engenharia, tal como as Memórias nos permitem perceber essas profissões em nosso país, apresenta-se como um campo profissional valorizado pela sociedade, de prestígio, que, ainda hoje, diferentemente de muitos espaços profissionais, confere status e reconhecimento aos sujeitos que dele fazem parte. Em geral, muitos médicos originam-se de famílias que gozam de poder e prestígio na sociedade, que têm “um nome”, tal como