1532) de Joachim Camerarius, o Velho, e a edição de 1554 do De Prodigii (primeira edição como parte dos seus I Dialoghi de 1531) de Polidoro Virgílio, obras que inicialmente ficaram praticamente sem repercussão, ganharão vida nova com o texto de Obsequens. “C’est en 1552 que ces deux ouvrages commencent leur véritable carrière : non plus négligés ou insérés parmi d’autres ouvrages que rapproche la seule forme dialoguée [como o De Prodigii de Virgílio], mais réunis et livrés au public avec une édition très neuve de l’opuscule de Obsequens, ils constituent le dossier le plus complet sur les prodiges et les mille problèmes que ces derniers soulèvent. Le succès de ce recueil ne se fit pas attendre : dès 1553, les mêmes pièces, disposées dans le même ordre, sont éditées à Lyon ; l’année suivante, Damiano Maraffi en donne, à Lyon encore, une traduction italienne complète ; enfin, en 1555, Georges de La Bouthière, toujours à Lyon, publie une traduction française de Julius Obsequens et de Polidoro Virgile (...).” (CEARD, La Nature et les prodiges, pp. 162-63).
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em si mesmo: a partir da década de 1550, as compilações de Camerarius, Polidoro
Virgílio, lançadas conjuntamente com o texto de Obsequens (editado por Lycosthenes), estarão na crista da onda – com um público que certamente não era composto apenas de eruditos humanistas85. A reedição conjunta das três obras em
um único volume não é, aliás, mero acaso. Camerarius, defensor ardoroso do valor expiatório e apocalíptico dos prodígios, se opõe a Polidoro Virgílio, muito mais sóbrio e, em certa medida, mais cético. Essas coletâneas ofereciam ao leitor da época, portanto, não apenas uma extensa prosopografia a respeito dos prodígios como também duas posições relativamente antagônicas sobre seu significado – constituindo, pois, de certo modo, um cenário completo das questões para um público não necessariamente especialista.
5.Faits divers religiosos
Por faits divers religiosos entenderemos um conjunto de três subgêneros: 1). os que retratam milagres; 2). os que atestam conversões e apostasias; e 3). os que descrevem eventos demonológicos. Cerca de 200 entradas no repertório de Seguin. Embora estejam intimamente correlacionados (daí a etiqueta “faits divers religiosos” dada ao conjunto), para o que proponho discutir adiante vou-me concentrar sobretudo no terceiro grupo, os canards com claras referências aos demônios (bem como, em segundo plano, nos canards de milagres). Isto não apenas pelo fato de utilizar essa discussão instrumentalmente, no último capítulo. No pré- Moderno, o diabo está em toda parte. Sua presença e/ou as reverberações de sua presença talvez sejam mais sentidas entre os séculos XVI e XVII que em todas as fases da Idade Média juntas. Consequentemente, no período que consideramos aqui, a atividade demoníaca é uma grande produtora de narrativas. Textos demonológicos (teológicos, médicos, jurídicos, filosóficos, tratando direta ou indiretamente dos demônios) foram escritos, reescritos, editados e comentados à exaustão a fim de solucionar problemas relativos à sua ação concreta – e a de seu grande chefe, Satã – no mundo quotidiano. Os canards acompanharam essa proliferação narrativa do demoníaco. Eles são contemporâneos estritos do que, na primeira metade do século XX, os historiadores passaram a denominar como A grande caça às bruxas na
Europa Moderna: um grande e complexo conjunto de acontecimentos históricos
onde, em linhas gerais, conjugando-se esses textos demonológicos com uma
85 “(...) en quatre ans, Julius Obsequens et P. Vergile étaient édités ou traduits quatre fois, et
Camerarius l’était trois fois. La demande du public devait être pressante ; elle devait, en outre, venir des lecteurs très divers, et qui n’étaient pas tous de savants érudits, puisqu’on prit soin de traduire ces ouvrages.” (CÉARD, op. cit., p. 163).
jurisprudência específica, processos penais por acusações de bruxaria (ou por supostas conivências com atividades de cunho demoníaco), culminaram em frequentes condenações à morte, somadas a perseguições algo histéricas de supostos cúmplices ou assessores dos condenados86. A sincronicidade entre as teorias
demonológicas eruditas (os textos e os eventos aos quais aquelas se interligam) com os canards que narram acontecimentos dessa natureza é a relação que gostaria de valorizar neste momento: donde a nomenclatura de canard demonológico para associá-los num conjunto-universo comum.
O circuito demonológico é, de fato, um irresistível topos pré-Moderno – muito embora sejam relativamente poucos os textos literários que dele façam uso direto, sobretudo no caso da bruxaria (tema amplamente tratado pelos eruditos, mas pobremente representado nas formas literárias então em voga). Seria, no entanto, surpreendente se, no repertório reunido por Seguin, não constassem também
canards envolvendo o diabo, ao menos em algum grau. Num canard desse tipo,
trata-se não propriamente da descrição do diabo em si (seja lá qual for sua forma, cor, dimensão), mas de sua ação ou de sua influência – quer dizer, de acontecimentos descritos como tendo, por causa direta ou indireta, uma atividade considerada originalmente demoníaca. Esta pode gerar um roubo, uma catástrofe, a morte de um animal ou de um rebanho, uma briga entre vizinhos, um engodo amoroso, um assassinato, uma possessão, o aparecimento de um bebê monstruoso, e assim por diante. Muitas vezes, esta ação contará com o apoio claro de consortes humanos – bruxas ou hereges de todos os tipos –, configurando um malefício. Nem todo assassinato, nem toda morte, nem toda tempestade será, claro, atribuída, na parte ou no todo, à influência do demônio ou a um malefício. Já outros eventos, destes ou de outros gêneros, muito claramente, sim. E é justamente aí, quando seu atestado textual é explícito, que interessa rotular o canard como demonológico. Pelas situações que acabo de enumerar (entre elas, assassinatos e a produção sobrenatural de monstros), vê-se que o diabo é pervasivo e secante a praticamente