A avaliação sorológica de 589 animais da área periurbana realizada por ELISA, identificou 262 cães com titulação positiva quando testados pelo antígeno SLA, o que representa um índice de soropositividade de 44.5%. Por sua vez, o antígeno recombinante rK39 detectou 48 cães soropositivos para
Leishmania, demonstrando um percentual de positividade de 8.2% (Tabela 1).
Quando a população de 97 cães de área rural foi avaliada sorologicamente através do antígeno SLA obteve-se 43 animais que produziram títulos positivos, alcançando um índice de positividade de 44.3%. Através do antígeno rK39, 11 cães foram considerados positivos, sendo a soropositividade encontrada de 11.3% (Tabela 1).
Os percentuais de infecção canina encontrados em áreas periurbana e rural, através do SLA, foram semelhantes (p=0.9777). De forma similar, quando o antígeno rK39 foi testado, as taxas de infecção canina por Leishmania não apresentaram diferenças significativas nas duas populações estudadas (p=0.3163).
Tabela 1: Infecção por Leishmania em cães de áreas periurbana e rural através dos antígenos rK39 e SLA
População Cães Nº total
cães Anticorpos anti-Leishmania Positivo N (%) Negativo N (%) Área Periurbana a SLA 589 (100%) 262 (44.5%) 327 (55.5%) b rK39 589 (100%) 48 (8.2%) 541 (91.8%) Área Rural a SLA 97 (100%) 43 (44.3%) 54 (55.7%) b rK39 97 (100%) 11 (11.3%) 86 (88.7%) Total SLA 686 (100%) 305 (44.5%) 381 (55.5%) rK39 686 (100%) 59 (8.6%) 627 (91.4%) Qui-Quadrado, (a) p = 0.9777; (b) p = 0.3163
No Centro de Controle de Zoonoses de Natal, os 146 cães incluídos no estudo somente foram analisados a título de comparação entre os antígenos testados, tendo em vista que todos os animais foram selecionados a partir de uma resposta sorológica positiva para Leishmania de acordo com as técnicas de RIFI e ELISA (FIOCRUZ- biomanguinhos) realizadas pela Secretaria Estadual de Saúde do RN. No presente trabalho os índices de positividade encontrados foram de 91.1% para o antígeno SLA, e de 69.2% para o antígeno rK39 (Tabela 2).
Tabela 2: Sorologia dos cães positivos recolhidos pelo CCZ de Natal Testes sorológicos Nº cães Positivos % Negativos % RIFI 146 146 100% - - ELISA 146 146 100% - - ELISA / SLA 146 133 91.1% 13 8.9% ELISA / rK39 146 101 69.2% 45 30.8%
Os títulos relativos de anticorpos IgG produzidos pelos cães diagnosticados negativos através do teste ELISA utilizando o antígeno SLA foram investigados, e constatou-se que estes animais apresentaram uma distribuição assimétrica quanto à produção de anticorpos, na qual 50% dos cães negativos pelo ELISA/SLA expressaram títulos de anticorpos acima de 0.78, demonstrando uma tendência à positividade (Figura 2).
CCZ (Negativos) Median = 0.7892 25%-75% = (0.5784, 0.8541) Non-Outlier Range = (0.2757, 0.9818) IgT_Rel 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 1.0 1.1
Figura 2: Títulos de IgG dos cães soronegativos do CCZ através do antígeno SLA
Os resultados obtidos a partir dos testes sorológicos, utilizando os antígenos SLA e rK39, indicaram percentuais elevados de infecção canina por
Leishmania nas áreas investigadas do RN, semelhante a outras áreas endêmicas no Brasil, onde os estudos de soroprevalência da infecção canina por Leishmania detectaram índices de 36% em Jacobina-BA (ASHFORD et al., 1998); 3,6% em Belo Horizonte-MG (SILVA et al., 2001); 47.5% no Vale do Jequitinhonha-MG (GONTIJO et al., 2002); 9,7% em Montes Claros-MG (FRANÇA-SILVA JC et al., 2003); 75.3% em Anastácio-MS (CORTADA et al., 2004); 40,3% em Paulista-PE (DANTAS-TORRES, 2006) e 6.7% em Dias D’Ávila-BA (OLIVEIRA et al., 2010). Em Cuiabá, estudos de prevalência determinaram valores de 64%, no período de 1997 a 1998, enquanto estudos mais recentes demonstraram índice de 3,4% (ALMEIDA et al., 2009; OLIVEIRA et al., 2010).
De acordo com a literatura, a soroprevalência da doença canina apresenta-se bastante variável e possivelmente dependente, entre outros fatores, da região investigada, da presença de reservatórios no peridomicílio e intradomicílio, dos picos de abundância e redução populacional do vetor e das condições climáticas e ambientais que influenciam a frequência da infecção (DE CAMARGO-NEVES; VL, 2003; OLIVEIRA et al., 2010).
Tendo em vista os registros de infecção por Leishmania em humanos e de leishmaniose visceral humana nas áreas investigadas (DUARTE et al., 2008; JERONIMO et al., 1994; SINAN, 2011), os altos percentuais de infecção canina por Leishmania indicaram uma co-existência de infecção e doença canina e humana nestas áreas endêmicas do RN, evidenciando, provavelmente, a associação da LV canina com a LV humana em áreas endêmicas do Estado. Tal fato corrobora com outros estudos realizados que confirmam o papel fundamental do cão na expansão da LV em ambientes
urbanos e rurais, constituindo-se como reservatórios domésticos primários da doença, precedendo os casos humanos e, portanto, caracterizando-se o mais importante fator de risco que predispõe à infecção humana (ARIAS; MONTEIRO; ZICKER, 1996; BOGGIATTO et al., 2010; FRANÇA-SILVA JC et al., 2003; MONTEIRO et al., 2005).
As taxas de infecção por Leishmania em cães nas áreas periurbana e rural não revelaram diferenças significativas independentemente do antígeno testado. Estudos sobre prevalências em áreas urbanas e rurais de Mato Grosso do Sul (CORTADA et al., 2004; ZAFFARONI et al., 1999) também não verificaram diferenças significativas, contrariamente, na Bahia (OLIVEIRA et al., 2010) e na Amazônia (COURTENAY et al., 1994) foram relatadas prevalências mais altas da infecção canina em áreas rurais quando comparadas com áreas urbanas. A variação na soroprevalência entre áreas urbanas e rurais está intrinsecamente relacionada às condições do ambiente doméstico e peridoméstico para o desenvolvimento da infecção (OLIVEIRA et al., 2010). Essas condições podem incluir o vetor, a população canina, o acúmulo de matéria orgânica e condições ambientais precárias que favorecem o desenvolvimento vetorial e a manutenção da infecção, se constituindo fatores de risco para a infecção por Leishmania (FEITOSA et al., 2000; RONDON et al., 2008). No entanto, condições precárias de moradia, ausência e/ou deficiência na coleta de lixo, presença de caninos, suínos, aves, equinos e asininos no peridomicílio, propiciando ambientes favoráveis à reprodução de flebotomíneos (LIMA et al., 2012; QUEIROZ et al., 2009; XIMENES et al., 2007) estiveram presentes nas duas áreas investigadas.
Por outro lado, os altos índices de infecção canina por Leishmania registrados em ambientes periurbanos reforçam as evidências do processo de urbanização da LV verificado no Rio Grande do Norte, a semelhança de outros centros urbanos no Brasil onde o desmatamento acentuado e as condições sanitárias e ambientais precárias, especialmente nas áreas periféricas, favorecem a multiplicação do vetor e uma maior proximidade entre humanos e cães, fazendo destes um reservatório ativo para a transmissão do parasita (GONTIJO; MELO, 2004; OLIVEIRA et al., 2010).
No Estado do RN, assim como em outros Estados, o aumento da incidência e expansão da LV é conseqüência não somente da invasão de áreas que eram livres da doença, como também da reemergência de antigos focos endêmicos, a exemplo do município de São Miguel, que se encontra localizado em uma região de serra e constitui-se um foco antigo de LV e LT, principalmente na zona rural. Nestes locais, as atividades de agricultura e pecuária de subsistência nos pés-de-serras, próximos a matas residuais com pouca infra-estrutura básica, atraem várias espécies de animais domésticos e silvestres que são facilmente encontrados nas áreas peridomiciliares e intradomiciliares, os quais são usados como importantes ferramentas no trabalho rural. Nesse sentido, os cães são frequentemente usados para a caça, acompanhando homens e outros animais, permitindo assim o trânsito entre áreas de mata e áreas peridomiciliares onde existe a presença dos insetos vetores. Portanto é provável que a presença desses cães no peridomicílio da maioria das casas na zona rural de São Miguel permita a manutenção de um elo entre o ambiente natural e o ambiente humano na cadeia de transmissão das leishmanioses (FALQUETO et al., 1986; OLIVEIRA-NETO et al., 2000).
A maior sensibilidade do antígeno SLA em relação ao rK39 justifica-se, possivelmente, em razão da existência de reações cruzadas com outros agentes infecciosos (ROSARIO et al., 2005), embora a ocorrência de reações cruzadas possa ser dependente da diluição dos soros (DE, V et al., 2010), como observado em cães com resultados negativos para o antígeno solúvel de
Leishmania e positivos para Ehrlichia canis, Toxoplasma gondii, Babesia canis
ou Dirofilaria immitis (LIMA et al., 2005). Ao mesmo tempo, seria razoável supor que o SLA conseguiu detectar a infecção recente de cães ou ainda, tenha detectado animais que resolveram a infecção (FERREIRA et al., 2007; PORROZZI et al., 2007). Por outro lado, na zona rural de São Miguel, os animais SLA positivos poderiam estar infectados por outra espécie de
Leishmania provavelmente envolvida com a leishmaniose tegumentar, visto
que a área é endêmica para LV e LT e os lisados de promastigotas de
Leishmanias são bastante usados para soroprevalência em áreas endêmicas
de LT (NTUNES UCHOA et al., 2001).
Semelhanças com relação à sensibilidade dos dois antígenos testados foram observadas em áreas endêmicas de Minas Gerais (ROSARIO et al., 2005; SCALONE et al., 2002) e na Itália (SCALONE et al., 2002), porém, a maioria dos estudos identificou diferenças entre a sensibilidade do rK39 e SLA, particularmente para cães assintomáticos, visto que o antígeno recombinante rK39 tem se mostrado altamente sensível para cães sintomáticos e falhado em detectar os casos assintomáticos (BADARO et al., 1996; BISUGO et al., 2007; IQBAL et al., 2002; METTLER et al., 2005; OLIVEIRA et al., 2010; PORROZZI et al., 2007; REITHINGER et al., 2002; RHALEM et al., 1999), seguindo o comportamento observado na população humana (BRAZ et al., 2002).
Os resultados da sorologia, divulgados pela Secretaria de Saúde, e os percentuais de soropositividade encontrados no presente estudo para o grupo de cães do CCZ diferiram, provavelmente, devido aos fatores já citados como o antígeno utilizado, diferenças de sensibilidade das técnicas (INIESTA; GALLEGO; PORTUS, 2007), a possibilidade de reações cruzadas com outros agentes infecciosos (ROSARIO et al., 2005), assim como a maior especificidade do rK39 em relação ao SLA, determinando índices mais baixos de soropositividade. Além disso, a avaliação da resposta sorológica dos cães considerados soronegativos mostrou o registro de títulos elevados de IgG anti-
Leishmania, muito próximos ao ponto de corte, apontando para uma tendência
de soroconversão em um momento seguinte.
5.2. Avaliação das subclasses de imunoglobulinas IgG1 e IgG2 anti