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O conceito de atitude linguística, segundo Garrett, Coupland & Williams (2003), surgiu dentro da área da Psicologia Social e migrou para os estudos linguísticos, tornando-se uma noção essencial, semelhante ao que fez Labov (1966) ao aplicá-la na análise coletiva da comunidade de fala Martha’s Vineyard ao estudar a centralização dos ditongos /aw/ e /ay/.

A literatura linguística apresenta diferentes definições de atitude linguística, e cada qual traz efeitos de sentidos diversos que provocam consequências teórico-metodológicas sobre

esse constructo. Entende-se que isso, também, ocorra devido à própria natureza da atitude linguística.

Considerando o conceito de atitude, Oppenheim (1982, p. 39) afirma:

A construct, an abstraction which cannot be directly apprehended. It is an inner component of mental life which expresses itself, directly or indirectly, through such more obvious processes as stereotypes, beliefs, verbal statements or reactions, ideas and opinions, selective recall, anger or satisfaction or some other emotion and in various other aspects of behavior.21

Por outro lado, Sarnoff (1970 apud GARRETT, COUPLAND & WILLIAMS, 2003, p. 2-3) estabelece que atitude “is a disposition to react favourably or unfavourably to a class of objects.”22 E, Henerson et al. (1987 apud GARRETT, COUPLAND & WILLIAMS, 2003)

associam a noção de atitude aos conceitos de afetos, sentimentos, valores e crenças exibidos pelos falantes.

Na esteira das definições, Allport (1935, p. 839) conclui que:

Attitudes are never directly observed, but, unless they are admitted, through inference, as real and substantial ingredients in human nature, it becomes impossible to account satisfactorily either for the consistency of any individual’s behavior, or for the stability of any society.23

Desse modo, percebe-se que as definições de atitudes descritas por Allport (1935) e Oppenheim (1982) compartilham entre si aspectos ao apontarem a impossibilidade de se observar a atitude; enquanto que a conceituação de Sarnoff (1970) alia atitude com a noção de avaliação. Ainda se pode verificar que a definição feita por Oppenheim (1982) apresenta de forma mais detalhada e abrangente os aspectos relacionados à atitude linguística, sobretudo, por vincular a atitude a uma série de processos.

Entende-se que, na literatura específica, os estereótipos têm constituído um conceito analítico central de investigação e de descrição linguística, utilizado por vários estudiosos da área (GARRETT, 2010). Assim, Garrett aponta que “stereotypes are cognitive shortcuts24

(2010, p. 04).

21 “Uma construção, uma abstração que não pode ser diretamente apreendida. É um componente interno da vida

mental que se expressa, direta ou indiretamente, através de tais processos mais óbvios como os estereótipos, crenças, declarações verbais ou reações, ideias e opiniões, recordação seletiva, raiva ou satisfação ou alguma outra emoção e em vários outros aspectos de comportamento.”

22 “É uma disposição para reagir favoravelmente ou desfavor amente a uma classe de objetos.”

23 “Atitudes nunca são diretamente observadas, mas, a menos que eles admitam, através da inferência, como

ingredientes reais e substanciais na natureza humana, torna-se impossível explicar de forma satisfatória tanto para a consistência do comportamento de qualquer indivíduo quanto para a estabilidade de toda a sociedade.”

Dessa forma, percebe-se que a diversidade de atitudes linguísticas pode ser inferida ou elencada mediante o reconhecimento dos estereótipos, que circulam ou que são produzidos e transmitidos continuamente. E, ao mesmo tempo, estão em voga na comunidade de fala que fora alvo de um estudo atitudinal de seus traços linguísticos.

Outrossim, com referência à conceituação descrita por Sarnoff (1970), verifica-se que o componente avaliativo fica latente e se sobressai em relação aos demais e parece constituir fundamentalmente a natureza da atitude linguística.

Garrett (2010, p. 01) afirma que “language attitudes permeate our daily lives. They are not always publicly articulated and, indeed, we are not always conscious of them.”25 Assim, a

exibição de atitudes linguísticas (positivas ou negativas) é uma realidade que o falante manifesta, baseando-se em uma série de percepções, reações, estereótipos, etc., que circulam na comunidade de fala na qual ele está inserido.

As definições até aqui apresentadas revelam a complexidade conceitual que envolve a definição clara e precisa de atitude linguística, o que aponta para diferentes abordagens desse fenômeno que ocorre nas sociedades.

Bisinoto (2000), ao identificar e analisar as atitudes linguísticas dos falantes da cidade de Cáceres - MT e dos imigrantes dessa região, apresenta uma definição de atitude que parece apropriada para análise de outras atitudes que ocorrem na variedade linguística brasileira, ou, pelo menos, incorpora à definição de atitude uma série de elementos que auxiliam na análise de descrição desse fenômeno. Para a autora:

Ao lado da variedade linguística existente numa comunidade, da manifestação concreta de falares diferenciados, há fenômenos de natureza social intrínsecos que afetam tanto linguística como politicamente os comportamentos e as relações dos habitantes, interferindo muitas vezes na própria estrutura social. Nesta perspectiva, a atitude linguística e a social complementam-se, ou melhor, fundem-se nas ações e reações dos indivíduos. As avaliações manifestas e encobertas, subjetivas e objetivas, mais ou menos conscientes, relativas à linguagem dos homens numa sociedade plural, têm a propriedade de fundar e governar tanto as relações de poder quanto ao prestígio ou o desprestígio das formas linguísticas, estabelecendo seletividades, evidenciando preconceitos (BISINOTO, 2000, p. 36).

Neste sentido, as crenças e atitudes linguísticas podem constituir meio de representação que os falantes possuem de si ou possuem dos outros em relação ao ato de falar. Desse modo, entende-se que a análise dessas crenças e atitudes pode evidenciar como isso ocorre na prática cotidiana de linguagem, confirmando o que aponta Fernández (1998) ao dizer

25 “Atitudes linguísticas permeiam nossas vidas diárias. Elas nem sempre são articuladas publicamente e, na

que a língua se torna, em seu uso, como um símbolo de relacionamento de um grupo, ou entre grupos socialmente estabelecidos.

A discussão conceitual acerca de atitudes linguísticas é bastante produtiva nas análises sociolinguísticas e remete a diferentes significações. Assim, Campbell-kibler (2010) propõe que a expressão “atitude linguística” seja percebida como resultado de um processo dinâmico oriundo da ação dos falantes, de ouvintes ou das situações de interações. Desse modo, segundo os dados da autora, o uso da variável inglesa (-ing), em percepções sociais de discursos de professores, candidatos políticos ou de profissionais experientes, está vinculado aos falantes que foram avaliados como mais educados e mais inteligentes; enquanto que a variante (-in) foi associada ao falante da classe trabalhadora, e está vinculada aos falantes avaliados como menos educados e menos inteligentes.

Sendo assim, pode-se verificar que há uma estreita relação entre a variável estudada e a exibição de atitudes, avaliação e crenças linguísticas, tornando esse processo um fenômeno bastante complexo e permeado de diferentes fatores (sociais, linguísticos, culturais, estilísticos, psicológicos, dentre outros) que interagem mutuamente entre si e são responsáveis pelo condicionamento parcial ou total do uso linguístico.

Para os propósitos do presente trabalho, entende-se que atitude linguística constitui de um lado, uma “atitude sociolinguística”, e do outro lado, um processo complexo e dinâmico que, inerentemente, ocorre nas comunidades de fala e pode ser verificado por meio dos componentes da estrutura interna das atitudes, conforme se discutirá na seção seguinte deste capítulo.

Contudo, reconhece-se que há dificuldade em mensurar a atitude linguística do falante. Mesmo que se apóiem em conceitos amplamente definidos nos estudos linguísticos, que consideram como base uma “predisposição a um comportamento”, verifica-se que os resultados apontarão para tendências e/ou valores aproximados das definições já cristalizadas.

O termo atitude mantém uma relação problemática com outros termos relacionados, que podem até estar unidos, mas constituem categorias conceituais diferentes. De acordo com Garrett, Coupland & Williams (2003), diversos são os termos que estão vinculados à noção de atitude: hábitos, valores, crenças, opiniões e ideologias. Entende-se que há especificidade entre eles.

Nessa discussão conceitual, a relação entre atitude e comportamento não é harmoniosa, a sintonia entre esses processos não é tão alinhada quanto ao que se parece verificar no senso comum. Ainda, segundo Garrett (2010, p. 08), “links between people’s attitudes towards language varieties and their own behaviour are likely to differ according to the complexity of

domains in which language is used.”26 E os vínculos existentes entre esses termos podem

constituir meios de se depreender a manifestação de determinadas atitudes. Para Kaufmann (2011, p. 125), “como é difícil ou até mesmo impossível medir atitudes diretamente, sendo elas disposições mentais, baseamo-nos, frequentemente, na observação do comportamento relevante.”

Neste sentido, compreende-se, neste trabalho, que a atitude linguística pode ser tomada como o ato do que pensa e faz o falante com a língua em diferentes contextos da interação comunicativa, o que irá revelar que não só se usa a língua. Assim esta não é só instrumento de ação-interação, mas, sobretudo, o que o falante faz e diz algo com ela. E é, justamente, esse ato que se propõe como atitude linguística.

A literatura tem interpretado que a atitude linguística pode ser manifestada em diferentes níveis da estrutura organizativa da gramática dos falantes: linguístico, codeswitching, sotaque, dentre outros. Assim, os estudos de atitudes linguísticas possibilitam a análise de diferentes dimensões que constituem a realidade dos fenômenos ligados à exibição de atitudes e de comportamentos linguísticos.

Nesta pesquisa, tem-se entendido que os processos de avaliação, percepção e/ou de atitude linguísticas, em quaisquer níveis que forem analisados, constituem sempre uma tarefa complexa e que envolve diferentes fatores e apresenta diversas dimensões que agem concomitantemente. Desse modo, no intuito de amenizar essa complexidade, neste trabalho, pretende-se realizar análise de um questionário direto e a aplicação de um instrumento de avaliação e percepção linguísticas e, assim, obter dados que possibilitem explicar melhor as questões relacionadas às atitudes, percepção e avaliação.

Na próxima seção, discutem-se os aspectos relacionados ao modelo do componente triplo da estrutura da atitude linguística.

Benzer Belgeler