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1.6. S ONUÇ

1.6.2. TDHP Mali Duran Varlıklar Hesap Grubunun TFRS’lerin İlk Kez

A assistência à saúde da população brasileira se apresentava como um problema tanto dos meios urbanos quanto rurais. Entretanto, a estrutura de atendimento à população rural era ainda mais deficiente. O médico Henrique Furtado Portugal ressaltou que haveria “sempre mais dificuldades de ordem técnica e financeira para se atingir um programa de medicina preventiva, um programa sanitário, para as populações do campo, do que da cidade” (ESCOLA RURAL, nº 4, 1950, p.15-16). Também Abgar Renault, na solenidade de abertura do 5º Curso de Aperfeiçoamento (1950), contrasta as diferenças de assistência econômica, social e cultural à população das zonas rural e urbana. Segundo o Secretário de Educação, apesar de o Brasil ser rural, “geográfica, histórica, espiritual, econômica, social e politicamente”,

nem 2% dos habitantes da mesma zona são servidos de luz elétrica e energia, nem dispõem de médicos, pois dos 18.000 que existem no país, 62% estão nas Capitais e 38% nas cidades do interior [...], há regiões onde se conta um só médico para cada grupo de 60.000 habitantes. Além disto, não existe uma fossa ao menos por quilômetro quadrado de zona rural.

O tom da rude paisagem não se altera: verifica-se não estar na zona rural nenhum dos 2.490 hospitais, centros médicos ou enfermarias, nos quais, em 1942, foram socorridas

cuidar-se, à ginástica, ao esporte, às produções culturais (arte, música, literatura), entre outros. A esse respeito, ver MORENO (2006, 2008); SOARES (2003; 2006); TABORDA DE OLIVEIRA (2006).

8.743.925 pessoas (RENAULT, 1952, p.143-144).

Renault denuncia, assim, a precariedade das instalações habitacionais da população do meio rural e da assistência médica oferecida a ela. Para compreensão da dimensão dos dados indicados acima, pareceu-nos importante recorrer aos indicadores habitacionais e de saúde apresentados pelos Censos, como também às legislações sobre a assistência médico-sanitária do Estado.

O Censo Demográfico do Estado de Minas Gerais, de 1950, indica as instalações de água encanada, aparelho sanitário e de iluminação elétrica dos domicílios e das populações dos ambientes urbanos e rurais. O quadro a seguir apresenta esses indicadores.

Quadro 5: Domicílios particulares ocupados e pessoas recenseadas, segundo a condição de ocupação e as instalações existentes (Minas Gerais - 1950)

Condição de Ocupação e Instalações Existentes Domicílios (D) e Pessoas recenseadas (P)

Urbano Suburbano Rural

TOTAL 1.467.765 (D) 7.715.406 (P) 274.156 (D) 1.403.524 (P) 184.210 (D) 888.534 (P) 1.009.399 (D) 5.523.348 (P) Água encanada 196.566 (D) 1.112.886 (P) 124.939 (D) 702.703 (P) 51.914 (D) 281.505 (P) 19.713 (D) 128.679 (P) Iluminação elétrica 288.114 (D) 1.571.666 (P) 172.100 (D) 938.955 (P) 85.885 (D) 449.719 (P) 30.129 (D) 182.992 (P) Aparelho sanitário 327.862 (D) 1.769.645 (P) 186.118 (D) 1.011.094 (P) 100.813 (D) 513.643 (P) 40.031 (D) 244.908 (P) Fonte: IBGE, 1954, p.248.

Observa-se que, do total de 7.715.406 pessoas recenseadas em Minas Gerais, cerca de 5 milhões e meio habitavam a zona rural. Desse total, apenas 2,33% possuía, em seus domicílios, acesso à água encanada; 3,31%, à iluminação elétrica, e 4,43%, a aparelho sanitário. Nos meios urbanos e suburbanos, no entanto, do total de 2.292.058 habitantes, cerca de 43% tinha acesso à água encanada; 60,5%, à iluminação elétrica; e 66,5%, a aparelho sanitário.

Henrique Furtado Portugal, no livro: Noções de higiene rural, discorre acerca das condições de saúde do homem e do ambiente rural. Segundo o médico, grande parte das doenças e, principalmente, das verminoses que acometeriam as populações rurais, poderia ser combatida com intervenções e orientações higienizadoras, tais como: um bom abastecimento de água, um

destino conveniente para os dejetos humanos, o asseio individual e uma alimentação sadia. Segundo o autor,

aparece em tudo a importância do abastecimento dágua e da rêde de esgotos, que são necessidades importantes não somente nas cidades, como também e principalmente nas zonas rurais, existindo naquelas a ajuda dos outros moradores e dos poderes públicos, enquanto que nestas, para estes problemas, o homem campesino só pode contar consigo; não é menos verdade que as poluições nos agrupamentos tomam sempre caráter mais sério, quando há desídia particular e pública (PORTUGAL, 1949, p.49).

De acordo com a Superintendência de Estatística e Informação do Estado de Minas, do total de 75.607 óbitos registrados no Estado, em 1950, 13.591 foram causados por doenças infecciosas e parasitárias. Desse total, cerca de 94% poderia ser evitado por meio de saneamento básico, imunização e “programas especiais”.100

Os indicadores de assistência e atendimento à saúde nos meios rurais eram ainda mais problemáticos. Em 1942, dos 288 municípios do Estado de Minas Gerais, 135 não possuíam nenhum tipo de assistência médico-sanitária (IBGE, 2003). Em 1949, o atendimento hospitalar e para-hospitalar e os serviços oficiais de saúde pública no Estado eram os seguintes:

Quadro 6: Assistência médico-sanitária, segundo a localização (Minas Gerais - 1949) Assistência

Médico-Sanitária TOTAL Cidades Vilas Outras localidades

Assistência Hospitalar e Para- hospitalar 462 436 20 6 Serviços Oficiais de Saúde Publica 115 111 3 1

Fonte: DEPARTAMENTO ESTADUAL DE SAÚDE, 1950, p.320-323.

Conforme o regulamento do Departamento Estadual de Saúde, de 1946, nas localidades onde não houvesse Serviços Oficiais de Saúde Publica, seriam instalados Postos de Assistência Sanitária. Essas unidades, compostas por uma enfermeira ou auxiliar de enfermagem e por um guarda-sanitário, funcionariam como um local de assistência higiênico-sanitária à população. Os Postos de Assistência Sanitária eram as unidades mais numerosas no Estado, com um total de 216, e deveriam funcionar em conexão com os outros serviços de saúde do Estado, melhor estruturados: os Centros de Saúde e os Postos de Higiene (MINAS GERAIS. Decreto nº 1.751, 3

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de junho de 1946, p.164).

A precariedade das instalações existentes nos domicílios das zonas rurais somada à falta de assistência médico-sanitária são importantes indícios para a compreensão da preocupação governamental com as condições de saúde e com os modos de vida da população do campo. O Plano de Recuperação Econômica, lançado em 1947, pelo governo de Milton Campos, destacava a importância da saúde pública e da assistência educacional para o desenvolvimento do Estado: “para manter e fazer crescer as populações existentes nas várias regiões mineiras, será necessário levar-lhes a higiene, a instrução e o conforto, dinamizando as fontes de riqueza de cada uma delas” (PLANO..., 1947, p.31).

A proposta do Plano seria, então, investir em um programa de “administração sanitária” que incluía medidas de saneamento urbano e rural, controle de doenças e assistência médico- social para a população. De acordo com Milton Campos, seria impossível desenvolver um plano de recuperação econômica sem articulá-lo a um plano de educação e de saúde. Em discurso na Fazenda do Rosário, o Governador ressaltou: “não haverá recuperação econômica onde o homem, não o ‘homo economicus’, mas o homem como ser social e biológico, não atingir certo nível mínimo de educação e higidez” (ESCOLA RURAL, jul-set 1948, p.7).

Verifica-se, dessa forma, que a proposta do Governo não seria investir isoladamente na educação e na saúde, mas articulá-las, objetivando a melhoria das condições de vida da população mineira. Segundo o Secretário de Educação Abgar Renault, “sem a educação as próprias necessidades da saúde não serão atendidas eficazmente. É a educação que orienta na única direção correta os esforços das técnicas de produção e das técnicas de saúde, e como um ‘tecido de sustentação’, os liga e mantém ligados para o objetivo comum” (ESCOLA RURAL, jul-set.1948, p.9-10).

Para José Gonçalves Gondra (2000), a associação da medicina à educação escolar veio se consolidando no Brasil durante o século XIX, devido a um deslocamento da perspectiva médica da doença para a saúde. Segundo Roberto Machado et al. (1978):101

Não é mais a ação direta e lacunar sobre a doença como essência isolada e específica que move o projeto médico. O “médico político” deve dificultar ou impedir o aparecimento da doença, lutando, ao nível de suas causas, contra tudo o que na sociedade pode interferir no bem-estar físico e moral. [...] Se a sociedade, por sua desorganização e mal funcionamento, é causa de doença, a Medicina deve refletir e atuar sobre seus

101 MACHADO, Roberto et al. Danação da norma – Medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de

componentes naturais, urbanísticos e institucionais visando a neutralizar todo o perigo possível; nasce a periculosidade e com ela a prevenção.

A necessidade de difusão de um saber e de medidas médico-higiênicas, tanto na esfera pública quanto privada, representou a incorporação da saúde pública à organização escolar (GONDRA, 2000). No amplo projeto de “higienização social”102 e de “formação da consciência sanitária”103 da população, a educação se apresentou como um dos principais pilares. Carlos Sá defendia ser a escola um dos setores responsáveis pela “educação da saúde” da população: “é a escola primária o terreno mais propício para a educação da saúde, pelo número de crianças que aí se reúnem, pela fase da vida em que mais fàcilmente se adquirem hábitos e atitudes, pela influência decisiva da professora, pela repercussão sôbre o lar e sôbre a própria sociedade” (SÁ, 1964, p.275).

Nesse sentido, Marta Carvalho indica que os “entusiastas da educação”, na década de 1920, consideravam-na como o “grande problema nacional”, por sua capacidade de “regenerar” as populações, erradicando a doença e disseminando hábitos de trabalhos (CARVALHO, 2006, p.303-304). Segundo o médico Miguel Couto, por meio da educação e da higiene, seria possível a “regeneração” da população brasileira. Propunha-se “vitalizar pela educação e pela higiene toda essa gente reduzida pela vermina a meio-homem, a um terço de homem, a um quarto de homem”.104

O movimento de médicos e de higienistas em favor da saúde pública, de intelectuais em favor da “causa educacional” consideravam, então, a saúde e a educação questões indissociáveis. De acordo com Carvalho,

No campo da saúde, firma-se, nos anos 20, a convicção de que medidas de política sanitária seriam ineficazes se não abrangessem a introjeção, nos sujeitos sociais, de hábitos higiênicos, por meio da educação. No movimento educacional da mesma década, a saúde é um dos pilares da grande campanha de regeneração nacional pela educação (CARVALHO, 2006, p.305).

Atender à necessidade de “produzir sujeitos higiênicos, higienizados e higienizadores”105 seria fundamental para uma sociedade que se pretendia moderna e civilizada. Essa modernidade,

102 MARQUES, 2003. 103 ROCHA, 2003b.

104 COUTO, Miguel. No Brasil só há um problema nacional - a educação do povo. Rio de Janeiro, Tip.Jornal do

Comércio, 1927, p.14. Citado por CARVALHO, 2006, p.306.

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segundo expressões da ciência médica, esbarrava “no continente do povo, que de longa data vem sendo plasmado sob o signo da rudeza e da falta. Tratar-se-ia, portanto, nesta lógica, de lapidar uns e completar os demais de modo que se atingisse o modelo de homem civilizado que se pretendia impor” (GONDRA, 2003, p.27). A questão central seria, então, a transformação dos hábitos e dos comportamentos da população.

Heloísa Rocha, ao analisar estratégias de higienização desenvolvidas em São Paulo, pelo Instituto de Higiene (1918), indica que o Instituto buscava transformar os modos de vida da população paulista. Segundo a autora, os homens de ciência pretendiam fazer de São Paulo um espaço civilizado, procurando “produzir um novo modo de vida, cuja legitimação [incluía] a desqualificação dos hábitos e dos costumes assumidos pela maioria da população” (ROCHA, 2003a, p.13). Desse modo, seriam a escola e o professor primário fundamentais para o desenvolvimento do que Antipoff denominou de uma “rigorosa educação de hábitos"106 da população rural. No contexto das precárias e isoladas condições de estrutura e de assistência médico-sanitárias para a população e para o meio, a escola, vista como um “centro de condensação e irradiação civilizadora” deveria promover as melhorias esperadas para uma sociedade rural que se pretendia moderna e desenvolvida. De acordo com Helena Antipoff,

Somente a educação, sistema organizado de influência social sobre as novas gerações e num clima de respeito e de amor poderá transfigurar a existência do homem rural e mudar sua vida onde campeia hoje a miséria. Somente por intermédio da escola poderá ele se livrar dos males que ferem seu corpo; somente com seu auxílio emancipar-se-á do tremendo sentimento de inferioridade que amarra sua vontade, atrofia sua ambição de ser alguém, de produzir mais e de ver seus filhos subirem na escala de valores morais, sonhando com um futuro realmente melhor para eles (COLETÂNEA, 1992, p.122).

A busca de novos códigos de ordenamento social e a adaptação a eles incluíam o desenvolvimento de diferentes práticas educativas que incidiriam sobre o corpo. Para Carmem Lúcia Soares (2003), principalmente a partir do século XIX, o corpo “passa a ser o lugar de expressão de civilização” e, como tal, reflete novos modos de viver e de se comportar. “Os corpos podem, portanto, traduzir, revelar, evidenciar formas bem precisas de educação, modos bastante sutis de inserção de indivíduos e grupos em uma dada sociedade, formas múltiplas de socialização” (SOARES, 2006, p.xi).

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Benzer Belgeler