C. Şiddetin Kişilik Hakkı İhlali Niteliği Taşıması Sebebiyle Başvurulabilecek İmkânlar
2. Tazminat Davaları
Vimos que a base da autoridade papal surgia da interpretação da sucessão do apóstolo Pedro. Sucessão aqui significa a passagem do ofício de governar a igreja do próprio Cristo para Pedro. Este, por sua vez, teria escolhido alguém para sucedê-lo. A doutrina da sucessão apostólica era, e é, aplicada não só para o papa, mas também para todo bispo e sacerdote. Por isso as árvores genealógicas dos
bispos são algo comum na Alta Idade Média. Estas “árvores genealógicas” consistiam em retroceder no tempo até encontrar de qual apóstolo proviria a sucessão.
A sucessão apostólica foi uma forma encontrada para garantir a legitimidade dos chefes das igrejas. É difícil precisar quando a sucessão apostólica passou a vigorar na Igreja. Fatores importantes foram as disputas teológicas dos primeiros cinco séculos. À medida que se definia a explicação considerada correta dos elementos próprios da crença cristã como as naturezas de Cristo, a encarnação e a eucaristia, concomitantemente surgiam grupos divergentes. Estes grupos, na medida em que se rebelavam contra a chamada ortodoxia, foram considerados hereges, apóstatas ou cismáticos.
O atual Código de Direito Canônico da Igreja, ligado à tradição dos antigos códigos de direito canônico, define “heresia como a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.” (Código de Direito Canônico, 1983, p. 347). Os que divergiam se declaravam ou sentiam-se legítimos e verdadeiros cristãos; surgindo a necessidade dos bispos que se consideravam ortodoxos de definir em que consistia a sucessão apostólica. Somente com a doutrina da sucessão, poder-se-ia definir quem eram os sucessores dos apóstolos e somente eles podiam argumentar com mais veracidade sobre questões da fé. A sucessão apostólica, entretanto, não era suficiente para resolver as disputas internas e a separação que começava a existir na Igreja cristã dos primeiros séculos. Para ajudar à comunidade cristã a definir quem ensinava de modo legítimo as verdades da fé, os teólogos formularam a idéia de unidade.
A unidade servia para garantir, também, a continuidade apostólica. Estava na unidade da Igreja quem aceitava as definições de fé, a sucessão apostólica e o bispo de Roma como “cabeça da Igreja” (Colossenses 1,18; Efésios 1,22). Assuntos polêmicos, quando ainda estavam em processo de discussão, poderiam ter opiniões diversas; mas quando definidos, através dos concílios ou de outras formas, deviam ser acatados por todos os cristãos (fiéis, bispos, sacerdotes) que, a partir de então, ensinavam pela nova posição. Quem não aceitasse a definição, quebrava a unidade e tornava-se cismático, com o sentido de separado da Igreja. Grande parte dos teólogos ocidentais passou a defender o bispo de Roma como o primeiro vínculo da
unidade dos cristãos. Estar contra a sé de Roma significava, também, estar separado da comunidade cristã. O bispo de Roma servia como elo entre as diversas igrejas cristãs espalhadas pelo mundo.
A sucessão apostólica era concretamente definida na imposição das mãos e
pela oração feitas sobre os escolhidos para liderar a comunidade. O gesto da
imposição das mãos sobre a cabeça do eleito, na simbologia bíblico-cristã possuía vários sentidos: conferia uma missão especial, uma bênção, operava uma cura, e ainda se consagrava para uma particular missão cristã. O gesto de impor as mãos não estava ligado exclusivamente à comunidade cristã, mas era um gesto universal de bênção e cura. A definição de que o gesto de imposição das mãos marcava a ordenação de um bispo e presbítero consta num texto da metade do século V, chamado de Statuta Ecclesiae Antiqua (DENZINGER, 1996, p. 184). O costume da imposição das mãos era praticado antes deste tempo, mas este é o primeiro registro da forma detalhada do gesto. O escolhido ou eleito, conforme a palavra mais utilizada para designar aquele que seria ordenado, ao receber a imposição das mãos em sua cabeça e a oração que o consagrava, tornava-se participante da sucessão apostólica. Todavia, no primeiro século do cristianismo, não estava expressamente definido quem podia, de modo legítimo, realizar a cerimônia com o gesto e a oração da imposição das mãos.
A sucessão apostólica foi, a partir do século III, confiada especificamente aos bispos e não aos presbíteros. Era o bispo quem devia realizar o rito de impor as mãos sobre o escolhido, transmitindo-lhe a sucessão apostólica. Os bispos diferenciavam-se dos presbíteros pela função exercida. Ao bispo cabia o governo de uma comunidade local, enquanto o presbítero estava sob a sua obediência. A distinção entre bispos e presbíteros foi sendo firmada gradualmente e no primeiro século ainda era confusa, assim como a distinção entre paróquia e diocese.
Os presbíteros, aqueles que auxiliavam o bispo em sua tarefa, participavam da sucessão apostólica através do bispo. Seria o bispo quem, através de uma cerimônia chamada ordenação, tornava o escolhido apto ao exercício do ministério sacerdotal. Segundo a tradição, o bispo era sucessor dos apóstolos, por isso devia cuidar pela ortodoxia da fé. Como dirigente da comunidade cristã, o bispo devia escolher e preparar aqueles que julgasse aptos a exercerem o serviço nas igrejas confiadas a ele. O bispo não devia permitir nas igrejas o serviço daqueles que quebrassem a unidade com a hierarquia e com os artigos de fé, ou seja, aqueles
leigos ou sacerdotes que ensinassem diferente daquilo que foi definido como artigo de fé.
Somente os sucessores legítimos, fiéis à sé de Roma e às definições dos concílios ecumênicos, podiam exercer de fato a autoridade de ensinar sobre a fé. Esse controle permitia que a Igreja — que desde o início contou com grupos que entendiam a fé de várias maneiras — pudesse manter alguma unidade doutrinal. Por isso, foram adotados termos para classificar aqueles que divergiam dos ensinamentos definidos nos concílios ecumênicos da Igreja. É necessário afirmar que as classificações de pessoas e movimentos, segundo os termos citados, eram definidas pelos bispos, teólogos e outros cristãos do grupo dominante. Cabia ao bispo em união com a sé de Roma, a tarefa de encontrar e afastar os hereges, cismáticos e apóstatas.
A Igreja presente no oriente, apesar do respeito prestado à Cathedra Petri, expressou diversas vezes sua autonomia diante da sé de Roma. Esta condição especial de autonomia do oriente cristão prevaleceu forte durante toda a antiguidade cristã e, no início da Idade Média, seria reforçada pela queda de Roma.
Constantino Magno, imperador romano, uniria fé cristã e império, assumindo funções também de administrador da fé cristã, convocando concílios e interferindo na escolha de bispos. Entretanto a unidade entre fé e império foi sempre conturbada nestes anos de Constantino. As fontes antigas que nos chegaram são controversas e os comentadores enumeraram diversos pontos de apoio para a propagação do cristianismo nos anos de Constantino como a fé oficial. Bem ou mal realizada para proveito cristão, a experiência seria curta; sucederam-se avanços e recuos na aliança entre império e cristianismo, conforme os imperadores. Circulou na Idade Média um documento atribuído a Constantino, um texto jurídico chamado Donatio
Constantini. Este suposto documento que concedia privilégios à Igreja foi
amplamente divulgado e utilizado para demonstrar que Constantino Magno doava Roma, Itália e as províncias orientais ao papa Silvestre I (314-335).
Se o apoio dos imperadores romanos à fé cristã fortaleceria o papado, a chegada de povos que os romanos consideravam bárbaros, com a seqüente tomada do poder, suscitaria a autonomia do oriente. Foi a Igreja de Bizâncio que exerceu uma maior pressão pela autonomia frente à Igreja romana, aproveitando-se da sede imperial também instalada na cidade de Bizâncio. Por outro lado, o esfacelamento do império romano serviu para fortalecer a Igreja Ocidental. O bispo de Roma e as
divisões da Igreja em dioceses, seguindo o sistema de divisão romano, preencheriam o vazio de poder causado pelo término do Império Romano.
A pressão oriental não foi capaz de impedir que fosse firmada lentamente a identificação entre Pedro e o bispo de Roma. Após a aceitação interna da supremacia do bispo de Roma sobre qualquer outro bispo, estava preparado o caminho para afirmações mais universais sobre o poder papal.